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segunda-feira, 31 de agosto de 2015
ARTE E COMUNICAÇÃO EM MOVIMENTO: OLHARES POÉTICOS E CATEGÓRICOS SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DO CONTRA AUMENTO NA CIDADE DE TERESINA
O Grupo de Estudos Anarquistas do Piui tem a honra de compartilhar mais um livreto produzido pelo grupo. O artigo "ARTE E COMUNICAÇÃO EM MOVIMENTO: OLHARES POÉTICOS E CATEGÓRICOS SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DO CONTRA AUMENTO NA CIDADE DE TERESINA", trata, a partir de uma perspectiva histórica e poética, sobre o movimento do 'Contra o Aumento' das tarifas de ônibus na cidade de Teresina, nos ano de 2011 e 2012. Um texto simples, introdutório, que expressa uma análise sobre fatos e situações ocorridas neste momento de movimentações resistências.
Faça o download aqui: Arte e Comunicação em Movimento
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Meu primeiro encontro com Bakunin - Errico Malatesta
Era o fim do verão de 1872, em Nápoles.
A Federação Italiana da Internacional dos Trabalhadores nos tinha delegado Cafieiro e a mim para representá-la no Congresso que se devia celebrar na Suíça (e que ocorreu, em Saint-Imer, no Jura Suíço), para um entendimento entre todas as sessões da Internacional que haviam se rebelado contra o Conselho Geral, no qual, sob a direção de Karl Marx, queria submeter toda a Associação à sua autoridade ditatorial e dirigi-la, não à destruição, mas a conquista do poder político.
Eu estava cheio de entusiasmo naquelas lutas, das quais a sorte da Internacional dependia e o porvir da ação revolucionária e socialista.
Jovenzinho, em minhas primeiras lutas, estava naturalmente muito feliz em poder ir ao Congresso, entrar em relação direta com companheiros de todos os países e talvez também orgulhoso por fazer ouvir minha voz. Naquela idade, quando não se é nada, estava cheio de mim! Mas o que sobretudo me entusiasmava era o pensamento de que conheceria Bakunin e que me tornaria (não duvidava disso) seu amigo pessoal.
Bakunin em Nápoles era uma espécie de mito. Havia estado ali, creio, em 1864 e em 1867, deixando uma impressão profunda. Falava-se dele como uma pessoa extraordinária e como geralmente ocorre, exageravam suas qualidades e seus defeitos. Falavam da sua estatura gigantesca, de seu apetite formidável, de sua vestimenta descuidada, de sua negligência pantagruélica, de seus desprezo soberano ao dinheiro. Contavam que, chegando a Nápoles com uma grande soma de dinheiro, no momento em que se apresentavam revolucionários polacos fugitivos da repressão que seguiu a insurreição de 1863, Bakunin deu simplesmente a metade de tudo o que tinha ao primeiro polaco necessitado que encontrou, e depois a metade da metade ao segundo polaco, e assim sucessivamente até que - e não precisou de muito tempo - ficou sem um centavo. E então pegou o dinheiro dos amigos com a mesma indiferença senhorial que havia dado o seu. Mas isso e outras coisas eram a lenda.
O importante era a grande conversação que tinha nos círculos avançados, ou os supostos círculos, em torno das ideias de Bakunin, que foi remover todas as tradições, todos os dogmas sociais, políticos, patrióticos, considerados até então pela massa dos "intelectuais" napolitanos como verdades seguras e fora discussão. Para uns Bakunin era o bárbaro do Norte, sem deus e sem pátria, sem respeito a nenhuma coisa sagrada, e constituía um perigo para a santa civilização italiana e latina. Para os outros era o homem que havia levado aos pântanos das tradições napolitanas um sopro de ar saudável, que havia aberto aos olhos da juventude que se aproximou dele para novos horizontes; e estes, os Fanelli, os De Luca, os Cambuzzi, os Tucci, os Palladino, etc., foram os primeiros socialistas, os primeiros internacionalistas, os primeiros anarquistas de Nápoles e da Itália.
E assim, pela força das palavras, Bakunin se tornou para mim também um personagem legendário; e conhecê-lo, aproximar-me dele, aquecer-me com seu fogo era para mim um desejo ardente, quase uma obsessão.
O sonho iria se realizar.
Parti, pois, para a Suíça, junto com Cafieiro.
Naquela época eu estava enfermo, cuspia sangue e me julgavam como tuberculoso ou quase, tanto mais quanto que havia perdido os pais, uma irmã e um irmão por enfermidade do peito. Ao passar o Gotardo pela noite (então não existia um túnel e era necessário rodear a montanha de neve em diligência) me resfriei e cheguei à Zurique, para a casa onde estava Bakunin, pela noite, com tosse e febre.
Depois da primeira acolhida, Bakunin me acomodou em uma cama pequena, me convidou, quase me obrigou a deitar-me nela, me cobriu com todas as mantas e agasalhos que pode recolher, me deu chá fervente e me recomendou que ficasse tranquilo e dormisse. E tudo isso com uma ternura, uma ternura materna que me comoveu o coração.
Enquanto estava envolto sob as mantas e todos acreditavam que estava eu dormindo, ouvi o que Bakunin dizia, em voz baixa, coisas amáveis sobre mim, e depois acrescentou melancolicamente: "Pena que está tão doente; o perderemos logo; não tem mais de seis meses". Não dei importância a este triste prognóstico, porque me parecia impossível que pudesse morrer (eu mal posso acreditar até hoje); mas pensei que haveria sido quase um delito o morrer quando há tanto que fazer pela humanidade. Senti-me feliz pela estima daquele homem e prometi a mim mesmo fazer todo o possível para merecê-la.
No dia seguinte acordei curado e começamos com Bakunin e os demais, suíços, alemães, espanhóis e franceses, aquelas intermináveis discussões que Bakunin sabia dar tanto encanto.
Fomos à Saint-Imer, onde - note-se a característica da psicologia popular - as crianças acolheram Bakunin ao grito de "Viva Garibaldi!". Naturalmente, sendo Garibaldi o homem que mais tinham ouvido celebrar, aqueles meninos pensavam que deviam ser um homem colossal. Bakunin era colossal, o viram rodeado e festejado, e pensaram que não podia ser ninguém além de Garibaldi.
Tomamos parte no Congresso, depois voltamos para Zurique, discutindo sempre, tomando acordos e fazendo projetos até a noite.
Conheci Bakunin quando ele estava já em idade avançada e cheio das enfermidades contraídas nas prisões na Sibéria. Mas o encontrei sempre cheio de energia e entusiasmo e compreendi toda sua potência comunicativa. Era impossível para um jovem ter contato com ele sem se sentir inflamado pelo fogo sagrado, sem ver os próprios horizontes alargados, sem se sentir cavaleiro de uma nobre causa, sem fazer propósitos magnânimos.
Isto ocorria com todos os que caiam sob sua influência. Depois, alguns, uma vezes cessado o contato direto, mudaram pouco a pouco de ideias e de caráter e se perderam pelos mais diversos caminhos, enquanto outros sofreram e, se sobreviveram, sofrem ainda aquela influência; mas não houve nada, creio, que ao entrar em contato com ele, ainda que fosse por breve tempo, que não tenha se tornado melhor.
Para acabar, relatarei um episódio característico. Talvez o tenha contado outras vezes, mas em todo caso merece ser repetido.
Era o momento, o do Congresso de Saint-Imer, em que Marx, Engels e seus seguidores, em parte por ódio e por vaidade pessoal ofendida, se esforçavam mais por espalhar a calúnia contra Bakunin, saiu com esta proposição: "É preciso pagar àquela gente com a mesma moeda; eles caluniam, caluniemo-los também, nós".
Bakunin se sacudiu como um leão ferido, fulminou com uma olhada o proponente, se levantou em toda sua gigantesca pessoa e gritou: "O que diz, desgraçado? Não, é melhor ser mil vezes caluniado, ainda que as pessoas acreditem, que se rebaixar a ser um caluniador".
Pensiero e Volontà, Roma, 1926.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Lançamento de livreto: Um programa e fuzis - Textos escolhidos sobre a Agrupação Amigos de Durruti
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"Saudações socialistas libertárias!
Mais uma vez o GEAPI – Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí disponibiliza textos no intuito de engrandecer e ampliar as perspectivas ácratas em língua portuguesa.
Desta vez, trazemos a público uma discussão pouco conhecida dentro dos círculos anarquistas nacionais e internacionais. Aos que começam a debruçar-se sobre a teoria e o movimento ácrata, por vezes encontram textos, enciclopédias, e livros tidos como “bíblias do anarquismo” que trazem um episódio histórico em que os socialistas libertários tiveram uma imensa participação: A Guerra Civil Espanhola.
Em quase todas estas, aponta-se motivos diversos que causaram a derrota da Revolução: Complôs e intervenções stalinistas, franquistas, estadunidenses; a falta de mantimentos para a luta armada; sabotagens realiza-das por agrupamentos trotskistas; mas em nenhum momento, a teoria defendida pela CNT-FAI (Confederação Nacional do Trabalho – Federação Anarquista Ibérica) para a Guerra Civil é colocada a prova, ou apontada como causae mortis daquela grandiosíssima insurreição popular.
Mas qual a teoria defendida pela CNT-FAI? Quem nos responde é a “Agrupação Amigos de Durruti”: Nenhuma; e por conta disso, ela capitulou ante a “Frente Popular”, abrindo espaço para todos os tipos de contrarrevolucionários. Segundo “Os Amigos de Durruti”, quem deixou escapar a Revolução (e por vezes a sufocou) foi a própria CNT-FAI, mantendo inúmeros militantes das duas organizações em ministérios do governo provisório, como Frederica Montseny e Diego Abad de Santillán.
Mais que um debate teórico, a crítica dos “Amigos de Durruti” às duas maiores organizações revolucionárias da Península Ibérica, é um chamado à autocrítica sincera e profunda do movimento anarquista como um todo, em seus vários enfrentamentos internos, como os coletivistas e anarco-comunistas, os sintetistas e os plataformistas, e atualmente, os anarcossindicalistas estadunidenses e os socialistas libertários turcos do DAF (Ação Anarquista Revolucionária).
As aparências enganam. O anarquismo não é tão homogêneo como apontam os autores George Woodcock e Max Nettlau, e para organizações anarquistas, presentes e futuras, é essencial considerar as proposições apontadas, não como uma imposição, mas uma necessidade teórica".
segunda-feira, 9 de março de 2015
Mikhail Bakunin - Idealismo e Materialismo
Introdução do GEAPI
Saudações socialistas e libertárias!
O GEAPI, Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí disponibiliza hoje mais um capítulo do primeiro tomo do livro Escritos de Filosofía Política, uma compilação de textos de Mikhail Bakunin realizada por G. P. Maximoff.
No presente texto, Bakunin traça paralelos entre o idealismo e o materialismo, realizando esta análise baseado no desenvolvimento histórico do pensamento humano coletivo e trazendo características de ambos os sistemas, contrapondo a todo instante um ao outro.
Mais uma vez, impulsionamos a obra de Bakunin para demonstrar a injustiça pela qual o autor foi acusado durante dezenas de anos: A suposta falta de teoria.
Esperamos sinceramente, dentro dos nossos limites, apresentar a contradição dessa afirmação, assim como auxiliar pesquisadores e militantes a compreender um pouco mais sobre as ideias desenvolvidas por Mikhail Alexandrovich Bakunin.
Boa leitura!
Desenvolvimento do mundo material*. O desenvolvimento gradual do mundo material, assim como da vida orgânica animal e da inteligência historicamente progressiva do homem tanto individual como social é perfeitamente concebível. Constitui um movimento inteiramente natural desde o simples ao complexo, desde o inferior ao superior, e desde baixo até o alto; um movimento conforme nossa experiência cotidiana e de acordo com nossa lógica natural, com as leis de nossa mente, a qual, ao se formar, e desenvolvido somente com ajuda desta mesma experiência, não é senão sua reprodução na mente e no cérebro, sua pauta imediata.
O sistema dos idealistas. O sistema dos idealistas é praticamente o oposto. Constitui a completa inversão de toda a experiência humana e de todo o sentido comum universal e geral, que constitui a condição necessária de qualquer entendimento entre os homens que, elevando-se desde a verdade simples e unanimemente admitida de que dois mais dois são quatro até as especulações científicas mais sublimes e complicadas sem admitir, afinal, nada que não seja estritamente confirmado pela experiência e pela observação dos fatos e fenômenos, se transforma na única base do conhecimento humano.
O caminho dos metafísicos. O caminho seguido pelos cavalheiros da escola metafísica é inteiramente diferente, e por metafísicos não nos referimos aos seguidores da doutrina hegeliana, escassos na atualidade, mas também aos positivistas e a todos os partidários atuais da deusa ciência; e, da mesma forma, todos aqueles que, precedendo por diversos meios, até pelo estudo mais árduo, ainda que necessariamente imperfeito do passado e do presente, levantaram um ideal de organização social onde querem enquadrar todas as coisas, como na cama de Procrustes, a vida de gerações futuras; já todos os que, em uma palavra, não consideram o pensamento e a ciência como manifestações necessárias da vida natural e social, senão que reduzem nossa pobre vida até o extremo de ser ela somente a manifestação prática de seu próprio pensamento e sua própria e imperfeita ciência.
O método do idealismo. Em vez de perseguir a ordem natural do inferior ao superior, desde o mais baixo ao mais alto, desde o relativamente simples ao mais complexo, em vez de perseguir sábia e racionalmente o movimento progressivo e real, desde o mundo chamado inorgânico até o mundo orgânico, do reino vegetal, a sua continuação no reino animal, e por último, ao mundo especificamente humano; em vez de seguir o movimento desde a matéria ou a atividade química até a matéria, ou a atividade vivente, e desde a atividade vivente ao ser pensante, os idealistas, obcecados, cegos e impelidos pelo divino fantasma que herdaram da teologia, tomam precisamente o caminho oposto.
Começaram com Deus, apresentando-o como uma pessoa ou como uma substância divina, e o primeiro passo que dão é uma terrível queda desde as sublimes alturas do ideal eterno até o pântano do mundo material; da perfeição absoluta à imperfeição absoluta; do pensamento ao ser, ou melhor, do Ser Supremo à pura nulidade.
O Idealismo e o Mistério da Divindade. Quando, como ou porque o Ser Divino, eterno, infinito, absolutamente perfeito (e provavelmente entediado de si mesmo) decidiu, dar este desesperado salto mortal é algo que nenhum idealista, nenhum teólogo, nenhum metafísico nem nenhum poeta foi capaz de explicar ao laico nem de ele mesmo compreender. Todas as religiões, passadas ou presentes, e todos os sistemas de filosofia transcendental, giram ao redor deste mistério único e iníquo.
Os homens sagrados, os legisladores inspirados pela divindade, os profetas e os messias buscaram em toda a vida, descobrir unicamente o tormento da morte. Como a antiga Esfinge, o mistério os devorou, porque seriam incapazes de explica-lo. Grandes filósofos, de Heráclito à Platão, até Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, Lichte, Schelling e Hegel, para não citar os filósofos indianos, escreveram enormes quantidades de volumes e construíram sistemas tão geniais quanto sublimes, onde dizem do passado muitas coisas grandes e belas, e onde descobrem verdades imortais, mas deixam este mistério o objeto principal de suas investigações transcendentais, tão insondável como antes, e se os gigantescos esforços dos mais prodigiosos gênios conhecidos pelo mundo, que ao longo de trinta séculos pelo menos, empreenderam um atrás do outro este trabalho de Sísifo, só conduziram a fazer todavia mais incompreensível este mistério, como esperar que nos seja desvelado pelas especulações, faltas de inspiração de algum discípulo pedante, ou de uma metafísica artificialmente reaquecida? E tudo isto durante um tempo em que todos os espíritos vivos e sérios se apartam da ambígua ciência que apareceu como efeito de um compromisso – sem dúvida explicável historicamente entre a injustiça da fé e a sensata razão científica.
É evidente que este terrível mistério não pode se explicar, o qual significa que é absurdo, pois só o absurdo rechaça a explicação. É evidente que quem o considere essencial, para sua vida e felicidade deve renunciar a sua razão e voltar, se puder, a fé ingênua, cega e primitiva, repetindo com Tertuliano e todos os sinceros crentes as palavras que resumem a quintessência da teologia: Credo quia adsurdum (creio porque é absurdo). Então cessa toda discussão, e só permanece a triunfante estupidez da fé.
As contradições do idealismo. Os idealistas não tem seu forte na lógica, e poderia dizer-se que a desprezam. Esta atitude os distingue dos metafísicos pertencentes a escola panteísta e deísta e outorga a suas ideias o caráter do idealismo prático, que não extrai sua inspiração tanto de um rigoroso desenvolvimento do pensamento como da experiência quase diria que, das emoções históricas, coletivas e individuais da vida. Isto proporciona a sua propaganda um aspecto de opulência e poder vital, mas só um aspecto; porque a vida mesma se faz estéril quando se vê paralisada por uma contradição lógica.
Esta contradição consiste no seguinte: Querem a Deus, e querem a humanidade. Persistem em conectar ambos os termos que, uma vez separados, não podem vincular-se sem uma recíproca destruição. Afirmam ao mesmo tempo “Deus e a liberdade do homem” ou “Deus e a dignidade, justiça, igualdade, fraternidade e bem estar dos homens”, sem pagar tributo à lógica fatal em virtude da qual se Deus existe, todas essas coisas estão condenadas à inexistência.
Porque se Deus é, é necessariamente o Senhor eterno, supremo e absoluto, e se existe um amo semelhante, o homem é um escravo. Agora, se o homem é um escravo, nem a justiça, nem a igualdade, nem a fraternidade, nem a prosperidade são possíveis à ele.
Eles (os idealistas), desafiando a sensatez e toda a experiência histórica, podem representar o seu Deus como um ser animado pelo mais terno amor pela liberdade humana; mas um senhor, faça o que for, e por mais liberal que queira parecer, será sempre um senhor, e sua existência implicará necessariamente a escravidão de todos os que estão abaixo dele. Em consequência, se Deus existisse, só poderia favorecer a liberdade humana de um modo: Deixando de existir.
Sendo um zeloso amante da liberdade humana, e considerando-a condição necessária para tudo o quanto, admiro e respeito na humanidade, inverto o aforismo de Voltaire e digo: “Se Deus existisse realmente, seria necessário aboli-lo”.
Os defensores contemporâneos do idealismo. Com exceção dos corações e espíritos grandes, mas estragados, a quem já me referi, quem são atualmente os mais obstinados defensores do idealismo? Em primeiro lugar, todas as casas reinantes e seus cortesãos. Na França foi Napoleão III e sua esposa Madame Eugenie; foram também seus antigos ministros, cortesãos e marechais, desde Rouher e Bazaine, até Fleury e Pietri; os homens e mulheres deste mundo imperial fizeram um bom trabalho idealizando e salvando a França; jornalistas e sábios, como os Cassagnacs, os Girardins, os Duvernois, Os Veuillots, os Leverriers, os Dumas; a falange negra de jesuítas masculinos e femininos, sejam quais forem suas roupas, toda nobreza, assim como a alta e a média burguesia da França; os liberais doutrinários e os liberais sem doutrina; os Guizots, os Thierses, os Jules Favres, os Pelletans e os Jules Simons, todos eles ásperos defensores da exploração burguesa. Na Prússia, na Alemanha, é Guilherme I, atual representante do Senhor Deus sobre a Terra; todos seus generais, seus funcionários, os de Pomerania e os outros; todos são do exército que, firme em sua fé religiosa, acaba de conquistar a França do modo “ideal” que chegamos a conhecer tão bem. Na Rússia é o Czar e sua corte; os Maravievs e os Bergs, todos os carniceiros e devotos convertidos da Polônia.
O idealismo é a bandeira da força bruta. Em resumo, por todas as partes o idealismo religioso ou filosófico (pois um é simplesmente uma interpretação mais ou menos livre do outro) serve como bandeira da força material, brutal e sangrenta, da exploração material desavergonhada.
O materialismo é a bandeira de igualdade econômica e da justiça social. Pelo contrario, a bandeira do materialismo teórico, a bandeira vermelha da igualdade econômica e da justiça social, é implantada pelo idealismo prático das massas oprimidas e famélicas que tentam por em prática a mais alta liberdade e realizar o direito de cada indivíduo em fraternidade de todos os homens sobre a terra.
Os verdadeiros idealistas e materialistas. Quem são os verdadeiros idealistas, não os idealistas da abstração mas sim os da vida, não os idealistas do céu, mas sim os da terra e quem são os materialistas?
É evidente que a condição essencial do idealismo teórico ou divino é o sacrifício da lógica e da razão humana, e a renúncia da ciência. Por outro lado, ao defender as doutrinas do idealismo nos vemos arrastados ao campo dos opressores e exploradores das massas. São duas grandes razões que, ao que parece, deveriam ser suficientes para afastar o idealismo de qualquer grande espírito ou de todo grande coração. Como entender que nossos ilustres idealistas contemporâneos, a quem sem dúvida não falta nem espírito, nem coração, nem boa vontade, que tem colocado suas vidas a serviço da humanidade, persistam em estar entre os representantes de uma doutrina condenada e desonrada?
Devem ser impulsionados por motivos muito fortes.
Estes motivos não podem corresponder a lógica nem a ciência, porque a lógica e a ciência pronunciaram seu veredicto contra a doutrina idealista e é razoável pensar que os interesses pessoais não podem contar entre seus motivos, porque essas pessoas estão infinitamente por cima dos interesses particulares. Deve existir então um poderoso motivo de ordem moral. Qual? Só pode ser um: Estas pessoas tão inteligentes pensam, sem dúvidas, que as teorias e crenças idealistas são essenciais para a dignidade e a grandeza moral do homem, e que as teorias materialistas os conduzem ao nível de besta.
Mas, e se fosse justamente o contrário? Todo desenvolvimento implica a negação de seu ponto de partida, e posto que o ponto de partida é material, segundo a doutrina da escola materialista, a negação deve ser necessariamente ideal. Começando pela totalidade do mundo real, ou pelo que se denomina abstratamente de matéria, o materialismo chega logicamente a verdadeira idealização, isto é, a humanização, a plena e completa emancipação da sociedade. Por outro lado, e pela mesma razão, o ponto de partida da escola idealista é ideal e chega necessariamente a materialização da sociedade, a organização de um despotismo brutal e uma exploração vil e iníqua nas formas da Igreja e do Estado. O desenvolvimento histórico do homem com base na escola materialista é uma progressiva ascensão, enquanto o sistema idealista não pode ser mais que uma contínua queda.
Pontos de divergência entre materialismo e idealismo. Seja qual for a questão relativa ao homem que examinemos, sempre chegaremos a mesma contradição básica entre essas duas escolas. O materialismo começa pela animalidade para chegar a estabelecer a humanidade; o idealismo começa pela divindade para chegar a estabelecer a escravidão, e condenar as massas a uma animalidade perpétua.
O materialismo nega o libre arbítrio e termina no estabelecimento da liberdade. O idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o libre arbítrio e descobre a autoridade sobre as ruínas de toda liberdade. O materialismo rechaça o principio da autoridade, concebendo-o frontalmente como corolário da animalidade e crendo, pelo contrario, que o triunfo da humanidade – considerado pelo materialismo como o objetivo principal e como o significado da história só pode se realizar através da liberdade. Em uma palavra, ao tratar de qualquer questão, sempre encontraremos ao idealista afundado no materialismo prático, enquanto que sempre veremos o materialismo perseguindo e realizando as aspirações e pensamentos mais ideais.
O idealismo é o déspota do pensamento, do mesmo modo que a política é a déspota da vontade. Só o socialismo e a ciência positiva mostram o devido respeito para a Natureza e a liberdade dos homens.
O marxismo e suas falácias. A escola doutrinária de socialistas, ou melhor, os comunistas estatais da Alemanha… Representam uma escola bastante respeitável, circunstancia que não a exime, sem dúvida, de cair ocasionalmente em erros. Uma de suas falácias principais é ter como base teórica um principio completamente certo quando se concebe de maneira apropriada, isto é, de um ponto de vista relativo, mas que se volta radicalmente falso quando o considera isolado das demais condições e se mantém como o único fundamento e fonte primária de todos os demais princípios, segundo acontece nessa escola.
Este principio, que constitui o fundamento essencial do socialismo positivo, recebeu pela primeira vez sua formulação científica e seu desenvolvimento do Sr. Karl Marx, chefe principal dos comunistas alemães. Constitui a ideia dominante do famoso Manifesto Comunista.
Marxismo e idealismo. Este principio se encontra em contradição absoluta com o principio admitido pelos idealistas de todas as escolas. Enquanto os idealistas deduzem todos os fatos históricos incluindo o desenvolvimento de interesses materiais e os diversos estágios de organização econômica da sociedade e do desenvolvimento das ideias, os comunistas alemães veem em toda a história e nas manifestações mais ideias da vida humana tanto coletiva como individual, em todos os desenvolvimentos intelectuais, morais, religiosos, metafísicos, científicos, artísticos, políticos e sociais acontecidos no passado e no presente só o reflexo ou o resultado inevitável do desenvolvimento dos fenômenos econômicos.
Enquanto que os idealistas consideram as ideias como fonte produtora e dominante dos fatos, os comunistas, plenamente de acordo com o materialismo científico, mantém, ao contrario, que os fatos produzem as ideias, e que as ideias são sempre unicamente o reflexos ideais dos acontecimentos; que o conjunto total de fenômenos, os fenômenos econômicos materiais constituem a base essencial, o fundamento primário, enquanto todos os demais fenômenos intelectuais e morais, políticos e sociais aparecem como derivados necessariamente dos primeiros.
Quem está certo, os idealistas ou os materialistas? Quem está certo? Os idealistas ou os materialistas? Quando a pergunta de traça dessa forma, a dúvida resulta impossível. Indubitavelmente os idealistas estão equivocados e os materialistas estão certos. Sem dúvidas, os fatos vêm antes que as ideias, sem dúvidas, como disse Proudhon, o ideal não é senão a flor cujas raízes estão enterradas nas condições materiais de existência. Sem dúvidas, toda história intelectual e moral, política e social humana não é senão o reflexo de sua história econômica.
Todos os ramos da ciência moderna, de uma ciência minuciosa e séria, estão de acordo em proclamar esta grande verdade, básica e decisiva: O mundo social, o mundo puramente humano, a humanidade, não é senão o último e supremo desenvolvimento pelo menos no que diz respeito a nosso próprio planeta e a mais alta manifestação da animalidade. Mas assim como o desenvolvimento implica necessariamente a negação de sua base ou ponto de partida, a humanidade é ao mesmo tempo a negação acumulativa do princípio animal no homem, e é precisamente esta negação, tão racional como natural, e racional precisamente por ser natural a um tempo histórico e logico, tão inevitável como o desenvolvimento e a consumação de todas as leis naturais do mundo o que constitui e cria o real, o mundo e as convicções intelectuais e morais, o mundo das ideias.
O primeiro dogma do materialismo. “Mazzini” afirma que os materialistas são ateus. Nada temos que falar sobre isso porque de fato somos ateus, e nos orgulhamos disso, ao menos na medida em que pode permitir-se o orgulho a indivíduos miseráveis que como ondas se elevam por um momento e logo desaparecem no vasto oceano coletivo da sociedade humana. Nos orgulhamos disso porque o ateísmo e o materialismo são a verdade, o melhor, a efetiva base da verdade, e também porque desejamos a verdade e somente a verdade por cima de todos os demais e por cima das consequências práticas e além disso cremos que apesar das aparências, apesar das covardes insinuações de uma política de cautela e ascetismo, só a verdade trata consigo um bem-estar prático pra o povo.
Este é o primeiro dogma de nossa fé. Mas olhe adiante, até o futuro, e não para trás.
O segundo dogma do materialismo. De todas as formas, “Mazzini” não se conforma com nosso ateísmo e materialismo; deduz dele que não podemos amar as pessoas nem respeitá-las por suas virtudes; que as grandes coisas que fizeram vibrar os mais nobres corações – a liberdade, a justiça, a humanidade, a beleza, a verdade dever ser todas tiradas de nós, e que obrigando sem meta alguma nossa miserável existência – arrastando-nos mais que andando direito sobre a terra não temos preocupação alguma salvo gratificar nossos primitivos e sensuais apetites.
E nós lhe dizemos, venerável, mas injusto mestre “Mazzini”, que está em um lamentável erro. Quer saber em que medida amamos estas coisas grandes e belas, cujo conhecimento e amor nos nega? Entende que nosso amor por elas é tão forte que de todo coração estamos doentes e cansados vendo-as para sempre suspensas em seu céu que as roubou da terra como símbolos e promessas nunca cumpridas. Já não nos contentamos com a ficção dessas belas coisas; as queremos em realidade.
E aqui está o segundo dogma de nossa fé, ilustre mestre. Cremos na possibilidade e na necessidade da miserável concretização sobre a terra; e ao mesmo tempo, estamos convencidos de que todas estas coisas que você venera como esperanças celestiais perderão necessariamente seu caráter místico e divino quando se converterem em realidades humanas e terrestres.
A matéria do idealismo. Vós pensais que havia desfeito completamente de nós chamando-nos de materialistas. Pensava que assim nos condenava e esmagava. Mas vós sabeis de onde provém esse erro sujo? O que você e nós chamamos de matéria são duas coisas totalmente distintas, dois conceitos totalmente diferentes. Sua matéria é uma identidade fictícia como seu Deus, como seu Satã, como sua alma infinita. Sua matéria é grosseria infinita, brutalidade inerte, uma entidade tão impossível como o espírito puto, incorpóreo e absoluto; os dois existem só como invenções da abstrata fantasia dos teólogos e metafísicos, únicos autores e criadores de ambos os inventos. A história da filosofia nos revelou o processo – de fato um processo simples de criação inconsciente desta ficção, a origem desta fatal ilusão histórica, que durante o vasto transcurso de muitos séculos pende gravemente, como um terrível pesadelo, sobre as mentes oprimidas de gerações humanas.
O espírito e a matéria. Os primeiros pensadores foram necessariamente teólogos e metafísicos, pois a mente humana está constituída de tal maneira que sempre deve começar com uma grande margem de absurdos, falsidade e erros para conseguir chegar a uma pequena porção de verdade. Todo o qual não fala em favor das tradições sagradas do passado. Os primeiros pensadores, digo, tomaram a soma de todos os seres reais conhecidos por eles, incluindo eles mesmos, a soma de tudo o que lhes parecia representar a força, o movimento, a vida e a inteligência, e chamaram de “espírito”. Todo o resto de que sua mente tinha abstraído inconscientemente do mundo real, chamaram-no de matéria, e então se assombraram que esta matéria que existia somente em sua imaginação, como o próprio espírito, fosse tão inativa, não estúpida frente a seu Deus, o puro de espírito.
A matéria dos materialistas. Admitamos francamente que não conhecemos a seu Deus, mas tampouco conhecemos sua matéria; ou, melhor ainda, sabemos que nenhum dos dois conceitos existe, sim que foram criados a priori pela fantasia especulativa de pensadores ingênuos de épocas passadas. Com as palavras matéria e material queremos indicar a totalidade, a hierarquia dos entes reais, começando pelos corpos orgânicos mais simples e acabando com a estrutura e o funcionamento do cérebro dos maiores gênios; os sentimentos mais sublimes, os maiores pensamentos, os atos mais heroicos, atos de auto sacrifício, deveres tanto como direitos, a voluntária renúncia ao próprio bem-estar, ao próprio egoísmo até as aberrações transcendentais de Mazzini, assim como as manifestações da vida orgânica, as propriedades e ações químicas, a eletricidade, a luz, o calor, a gravidade natural dos corpos, o que constitui, a nosso entender, um conjunto muito diferenciado, mas ao mesmo tempo estritamente relacionado, de evoluções dentro dessa totalidade do mundo real que denominamos material.
O materialismo não é um panteísmo. E observe-se que bem que não consideremos a esta totalidade como uma espécie de substância absoluta e eternamente criativa, ao modo, dos panteístas, mas sim como um perpétuo resultado produzido e reproduzido de novo pela concorrência de uma infinita série de ações e reações, pelas incessantes transformações dos seres reais que nascem e morrem como o seio desta infinitude.
A matéria compreende o mundo ideal. Resumirei: Indicamos com a palavra material tudo o que acontece no mundo real, dentro e fora do homem, e aplicamos a palavra ideal exclusivamente aos produtos da atividade cerebral do homem; mas posto que nosso cérebro é por inteiro uma organização de ordem material e sua função é também material, como a ação de todas as demais coisas, se deduz dele que o que chamamos de matéria ou mundo material não exclui de modo algum, mas sim que inclui necessariamente também o mundo ideal.
Materialistas e idealistas na prática. Aqui está. Um fato que merece uma atenta reflexão por parte de nossos adversário platônicos. A que se deve que os teóricos do materialismo acostumem-se a se demostrarem na prática mais idealistas que os próprios idealistas? Este paradoxo é, de todas as formas, bastante lógico e natural. Porque todo desenvolvimento implica em alguma medida uma negação do ponto de partida; os teóricos do materialismo começam com o conceito de matéria e desembocam na ideia, enquanto os idealistas, que adotam como ponto de partida a ideia pura e absoluta, reiterando constantemente o velho mito do pecado original única expressão simbólica de seu próprio e triste destino recaem teórica e praticamente no domínio da matéria que, ao seu entender, nos tem irremissivelmente entrelaçados em nós, e que matéria! Uma matéria brutal, ignóbil e estúpida, criada por sua própria imaginação como seu alter ego, ou como a reflexão do seu ideal.
Do mesmo modo, os materialistas, que sempre harmonizaram suas teorias sociais com o curso efetivo da história, concebem o estágio animal, o canibalismo, e a escravidão como os primeiros pontos de partida no movimento progressivo da sociedade; mas a que apontam? O que querem? Querem a emancipação, a plena humanização da sociedade; enquanto que os idealista, adotando a premissa básica de suas especulações da alma imortal e a autonomia da vontade, terminam inevitavelmente no culto da ordem pública, como Thiers, ou no culto da autoridade, como Mazzini; isto é, no estabelecimento e a canonização de uma escravidão perpétua. Daqui se deduz que o materialismo teórico desemboca necessariamente no idealismo prático, e que as teorias idealistas unicamente encontram sua realização em um rudimentar materialismo prático.
Ontem mesmo se mostrou ante nossos olhos a prova do que acabamos de dizer. Onde estavam os materialistas e ateus? Na comuna de Paris e onde estavam os idealistas que creem em Deus? Na Assembleia Nacional. A de Versalhes. O que queriam os revolucionários de Paris? Queriam a emancipação definitiva da humanidade através da emancipação do trabalho. E o que querem atualmente? Na triunfante Assembleia de Versalhes? A degradação definitiva da humanidade sob o duplo jugo do poder espiritual e secular.
Os materialistas querem avançar, imbuídos de fé e desprezando o sofrimento, o perigo e a morte, porque veem ante eles o triunfo da humanidade, mas os idealistas sem impulso e pressagiando unicamente espectros sangrentos, querem levar de qualquer forma a humanidade, de novo: até o lodaçal de onde saiu com tão grandes dificuldades.
Que cada qual compare e forme sua opinião.
* Os trechos em negrito são os tópicos desenvolvidos por G. P. Maximoff. Todo o resto é de autoria de Mikhail Bakunin.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Apoie o lançamento de obras anarquistas!
O coletivo Rizoma Editorial, em parceria com o Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí (GEAPI) está dando início a uma nova campanha de financiamento coletivo a fim de arrecadar recursos para a publicação de um novo título, que já está pronto para impressão: a reedição da obra "Anarquismo - Da Doutrina à Ação", de Daniel Guérin.
Trata-se de uma obra clássica, do célebre anarquista francês (que foi um dos mais lúcidos pensadores anarquistas do século 20), publicada pela última vez no Brasil em 1968 pela extinta editora carioca Germinal e esgotado há décadas.
A campanha de financiamento coletivo será realizada por meio do site da Vakinha. As contribuições terão o valor mínimo de R$ 5,00 (cinco reais) e poderão ser feitas por meio de cartão de crédito, transferência eletrônica ou boleto bancário. Contribuições a partir de R$ 20,00 (vinte reais) serão consideradas como “pré-vendas” e darão, a quem doar, o direito a um exemplar do livro para o qual for feita a doação (já incluído o valor do frete). Quem fizer a compra antecipada, por meio da doação do valor promocional acima, será oportunamente contactado por e-mail para a obtenção do endereço postal para envio do exemplar.
A campanha terá a duração de seis meses, ao fim dos quais os recursos arrecadados serão aplicados na impressão dos livros - ou, caso sejam superadas as metas de arrecadação, revertidas para a impressão de novas tiragens de outras obras nossas que estejam esgotadas ou com o estoque baixo. Ao final da campanha, a prestação de contas referente à destinação dos valores arrecadados será publicada aqui no blog da Rizoma Editorial, ficando à disposição para análise de nosso público leitor.
A divulgação da campanha será efetuada através de e-mail e das redes sociais das quais participamos (Facebook e Twitter).
Contamos com a colaboração de tod@s @s companheir@s leitor@s para viabilizar este projeto e continuar contribuindo com a divulgação da cultura libertária, rumo à transformação revolucionária da sociedade!
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Geapi Teresina: Nota sobre oportunismos, de estudante pra empresários
Nós, do Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí - GEAPI, repudiamos com veemência o posicionamento tomado através de nota pública lançada pelo movimento de Estudante para Estudante, visto que, o mesmo toma um lado completamente contrário ao da população, defendendo de forma aberta e descarada grupos empresariais que saqueiam centenas de milhares de trabalhadores todos os dias em nossa capital.
O Geapi (Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí) defende um movimento classista de enfrentamento ao capital através da ação direta pois acredita que somente passeatas "ordeiras e pacíficas" guiadas pela polícia e demais órgãos públicos torna a ação estéril, abrindo margem para reivindicações descontextualizadas e genéricas, enfraquecendo assim o movimento.
Não há dúvidas que a crise financeira que alguns anos seria uma marolinha hoje se tornou um tsunami que devora a classe trabalhadora. Aumentos na tarifa de energia, aumento dos preços dos alimentos, da gasolina, da tarifa do transporte coletivo são sem dúvidas provas mais que concretas e visíveis de que mantemos o luxo e o privilégio de poucos as custas do nosso suor.
Nos últimos dias de janeiro vimos essas barbaridades do capitalismo baterem a porta da população teresinense. Começamos o ano com aumento abusivo da tarifa de ônibus. R$2,50 para uma cidade do porte de Teresina, com ônibus e paradas precárias, frota reduzida, mobilidade urbana inexistente. O aumento nada mais é que um assalto legalizado em cada passagem paga.
A radicalidade vem com a raiva da população que, indignada pela negligência dos governantes perante as pautas (todas as vezes a prefeitura, governos fingem não ver as manifestações) ou pela truculência da PM ao tentar silenciar as vozes do povo, se rebela e exige suas reivindicações com base da ação direta.
Nada mais justo o povo ir as ruas exigir seu direito a uma mobilidade urbana de qualidade e exigir o passe livre da maneira que achar necessária. Mas alguns grupos mostram sua cara nesse momento. O então "MOVIMENTO DE ESTUDANTE PRA ESTUDANTE", posta uma nota defendendo o aumento baseado em reajustes nos valores salariais e do preço do combustível. A quem interessa uma postura tomada por um movimento que se diz ser "DE ESTUDANTE PRA ESTUDANTE"? Ao empresariado, claro.
Os principais representantes deste "movimento" constroem partidos como PSDB e PV por exemplo; e por incrível que pareça estes partidos são a base da atual gestão municipal. E por mais hipócrita este "movimento" seja apoiando o aumento, ainda nega-se a participar; e por fim, criminaliza as manifestações e outorga o aumento que é apenas a manutenção do lucro exorbitante do empresário. Fica mais que explicito que o lucro do empresariado é o foco e pra mantê-lo, o trabalhador é usurpado todos os dias.
As manifestações vêm ocorrendo pelo terceiro dia no Centro de Teresina. Nenhum partido político está à frente. A Central Única dos Trabalhadores foi praticamente silenciada na segunda-feira (02.02); partidos como PSTU e PSOL são minorias e o POVO não deseja aparelhamento algum. As manifestações estão ocorrendo de forma autônoma e autogestionada com a participação de todas as pessoas que estão do lado dos trabalhadores e contra o lucro abusivo do empresariado.
Então, quem serão os oportunistas?
Nós do Grupo de Estudos Anarquistas temos nossas divergências bem claras em relação a partidos eleitorais, mas fazemos a crítica de forma coerente e não oportunizada. Estamos do lado do povo e não iremos apoiar nenhuma postura que criminalize ou se oportunize das manifestações. Repudiamos veementemente o braço juvenil que defende os empresários, magnatas do transporte coletivo teresinense, e se oportuniza disso.
Segue a nota do tal "movimento":
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Lançamento do livro "Táticas Revolucionárias"
O GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí dá início ao ciclo de traduções e lançamentos no ano de 2015 com uma compilação de textos de Mikhail Bakunin, realizada pela Terramar Ediciones, de Buenos Aires. “Táticas Revolucionárias” aborda temática variada, enfatizando aspectos teóricos da revolução socialista e libertária.
Os textos de Bakunin servem tanto para subsídios de pesquisas, como para forjar uma teoria prática de coordenação interna e externa de organizações e movimentos, mostrando-se atual para a realidade em que vivemos, ou no mínimo inspiradoras, uma vez que o autor viveu boa parte dos acontecimentos revolucionários da Europa no século XIX.
Que o livro novamente nos coloque para refletir sobre a necessidade de não só as organizações compostas unicamente por anarquistas, mas também as metodologias que impulsione o povo à luta revolucionária, esmagando o capitalismo, o Estado, e todas as formas de opressão, construindo assim um mundo de igualdade, liberdade e justiça.
(....)
Agradecemos imensamente o apoio que continuamos a receber de organizações e indivíduos deste país e de outras localidades do mundo, irmanadas pela luta socialista revolucionária, que a cada minuto cresce mais e mais.
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Wayne Price - O que é o Anarquismo de Luta de Classes?
Nota do Tradutor
Saudações Socialistas e Libertárias!
Como um “presente de final do ano”, o GEAPI disponibiliza mais uma obra em português. Durante o ano inteiro, houve um esforço cotidiano para trazer ao debate em nossa língua alguns textos já conhecidos em espanhol, francês e inglês. Todos eles auxiliaram na ampliação das ideias anarquistas. Acreditamos sinceramente que este, em especial, possa colaborar infinitamente para o amadurecimento do anarquismo no Brasil, fragmentado por tendências ditas “libertárias” que insistem em negar um dos vetores de maior importância (senão o mais importante) dentro da teoria anarquista: A luta de classes.
Em “O que é o Anarquismo de Luta de Classes?”, Wayne Price busca traçar algumas indicações do que a luta de classes da atualidade implica em outros fenômenos sociais, como a xenofobia, homofobia, machismo, etc., supondo suas interligações que tem início, meio e fim na coluna vertebral do “Leviatã”: A exploração do sistema econômico capitalista e a sociabilidade desenvolvida por este, reconhecendo a importância das lutas contra cada um destes males, assim como revitalizar um debate histórico: O valor da classe trabalhadora e sua contribuição para a demolição do capitalismo e do Estado.
As relações sociais desenvolvidas no século XIX não foram superadas. Em verdade, foram maximizadas, extremadas. O individualismo do século XIX chega ao século XXI mais avassalador, mais convincente, e mais sedutor. A ciência do século XIX também se aprimorou, e sendo portada pelas classes abastadas, defensora do status quo, insiste em dizer que “tudo é ultrapassado”. Neste “todo”, a luta de classes tem fator primordial para a consolidação do modelo científico do século XXI: Dissolvida em suposições abstratas, utópicas, metafísicas, observam que as noções de “classe” já não fazem sentido, como se o capitalismo tivesse sido dissolvido, a hierarquia social eliminada, o Estado esmagado.
“O canto da sereia”, como alguns chamam, pode parecer, “contracultural”, ou “descolado”, mas não passa de mais um pacto intelectual com as elites, já sem a capacidade de produzir. Que os anarquistas tenham força ideológica para expulsar este câncer impregnado em seu meio, e retomem a via que conduz à Revolução Social e Libertária.
Parte 1: Por que a classe trabalhadora
Recentemente me escreveu um amigo ativista, que foi influenciado pelo programa de Economia Participativa de Michael Albert. Ele me perguntava “Por que deveríamos nos chamar anarquistas de luta de classes em vez de anarquistas feministas-antirracistas-verdes-de luta de classes?”. Como mínimo, a sua abordagem inclui o conflito de classes como um dos aspectos da luta social. Há muitos, liberais e radicais, que rejeitam completamente a luta de classes. Muitos denunciam os sindicatos (da direita). Hardt e Negri foram influentes na substituição da classe trabalhadora, teoricamente, com o conceito de “multidão”.
Entre os anarquistas, uma grande parte rejeita qualquer papel importante dos trabalhadores na luta de classes. Isto é assim para aqueles que pretendem rejeitar civilização e da indústria. Apesar de discordar dos primivistas, também é verdade para Murray Bookchin. Por exemplo, em seu ensaio “Ouçam, marxistas!” (em Post-Scarcity Anarchism, 1986, Montreal: Black Rose Books), ele denunciou “o mito do proletariado”. “A classe trabalhadora [foi] neutralizada como ‘agente de mudança revolucionária’... A luta de classes [foi] cooptada para o capitalismo”. (P. 202) nega o potencial revolucionário dos trabalhadores, e no lugar deles, foca-se na “juventude”, o “povo” ou “cidadãos” que mudariam a sociedade unicamente por razões morais.
A rejeição da classe operária é a posição de quase todos os marxistas-leninistas (incluindo os Partidos Comunistas, Maoístas e Trotskistas ortodoxos). O Marxismo-Leninismo da boca para fora defende a crença de Marx na centralidade da luta da classe trabalhadora. Mas na realidade os marxistas acreditam que podem haver revoluções “socialistas” sem a classe trabalhadora (como na Europa Oriental, China, Vietnã e Cuba). E pode haver sociedade “socialista” (“pós-capitalista” ou qualquer outro), sem a participação da classe operária e, de fato, com os trabalhadores sendo brutalmente oprimidos (como na União Soviética, China, etc.). Em condições não revolucionárias, essas visões os conduzem em direção a colaboração de classe (reformismo). Já que o socialismo não exige o despertar dos trabalhadores, na sua opinião, seus partidos poderiam muito bem formar alianças com os capitalistas.
Por que, então, os anarquistas revolucionários devem se chamar de anarquistas de luta de classes? Meu amigo ofereceu uma explicação parcial: Não é controverso na esquerda nos chamarmos “feministas” ou “antirracistas”. Até os liberais o fazem. Algum tipo de pensamento ecológico ou ambiental é aceito por quase todos, exceto para a extrema direita. Mas a crença em uma perspectiva de classe contra classe é realizada apenas por uma minoria. Para ter certeza, há muitas pessoas que são a favor de sindicatos. Agora mesmo John Edwards está concorrendo à presidência dos Estados Unidos com um programa de apoio aos sindicatos e redução da pobreza. Ainda assim o seu programa se opõe à luta de classes. É para obter o apoio dos trabalhadores ao seu partido capitalista.
Da mesma forma, Andy Stern, presidente da International Service Employees Union (e muito pior do que os sindicatos oficiais), faz coligações com as empresas. Ele escreveu, “Os empregados e os empregadores precisam de organizações que resolvem os problemas, não que os criem”. Isso não é o mesmo que “A emancipação da classe trabalhadora deve ser conquistado pela própria classe trabalhadora” (primeira cláusula do Estatuto da Primeira Internacional, escrita por Marx e amada por todos os anarquistas revolucionários). Chamando a nós mesmos de anarquistas de luta de classes, apontamos a favor de quem estamos... E contra quem estamos.
O anarquismo luta de classes continua a tradição do anarquismo comunista e anarco-sindicalismo, e sobrepõe-se com o marxismo libertário (autonomia) como o comunismo de conselhos. Na sua revisão do atual anarquismo britânico, Benjamin Franks escreve: “As organizações identificadas com o título de ‘anarquismo de luta de classes’, incluindo aquelas que se identificam como tal, bem como aquelas provenientes do marxismo inspirado nas tradições autonomista e situacionista”. (Rebel Alliances, 2006, Edimburgo. AK Press & Dark Star, p 12). Eu não tenho a pretensão de falar por todas as organizações, nem eu sou um porta-voz oficial para a minha própria federação. No entanto, creio que minhas opiniões são consistentes com a corrente principal do anarquismo de luta de classes. Não vou discutir todos os aspectos do anarquismo de luta de classes (como nossa meta de socialismo descentralizado, a autogerido). Em vez disso, vou focar na importância da classe trabalhadora, do enfoque de classe contra classe.
A luta de classes é central para o capitalismo
Vamos dar uma olhada no sistema “econômico” do capitalismo - mesmo sem considerar como se relaciona com os outros sistemas de opressão, como gênero ou raça (isto será discutido na Parte 2). Não tenho a pretensão de que os trabalhadores individuais são melhores, mais nobres ou mais bonitos do que os capitalistas individuais, ou os agricultores, ou presidentes de universidades. Individualmente, os trabalhadores podem ser tão ruins quanto qualquer outro. A questão é o potencial do papel social da classe trabalhadora.
Os trabalhadores, como uma coletividade, têm uma relação especial com os meios de produção. Os meios de produção (de distribuição, e serviços sociais) são propriedade de uma minoria, a classe capitalista, que está obrigada a acumular capital. Nós, trabalhadores, sem terra ou maquinário, vendemos para os capitalistas, ou melhor, devemos vender a nossa capacidade de trabalhar por um tempo (a mercadoria força de trabalho). Trabalhamos até nós tenhamos produzido produtos suficientes para igualar o valor dos nossos salários. Então continuamos a trabalhar, para produzir mais produtos, criando mais-valia, que é a base do benefício dos empresários. Ou seja, somos explorados. Somos explorados, não apenas como individualidades, mas como uma comunidade, toda uma massa de pessoas cooperando, que é obrigada a trabalhar em conjunto no local de trabalho e na sociedade como um todo, a fim de manter o sistema em funcionamento.
Observando as estatísticas de emprego, Michael Zweig define 62 por cento da força de trabalho americana como classe trabalhadora (in The Working Class Maioria de 2000, Ithica, NY. ILR/Cornell University Press). Ele também observa que o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, classifica os 82 por cento dos trabalhadores do sector privado, não agrícolas como trabalhadores não-supervisores. “É por isso que eu digo que nós vivemos em um país com uma classe trabalhadora maioritária”. (P. 30) Os trabalhadores incluem os trabalhadores de colarinho azul e branco, trabalhadores “do braço e do cérebro” (e trabalhadoras de colarinho rosa, como são chamadas as trabalhas mulheres).
A classe operária, como CLASSE, é mais ampla que os trabalhadores imediatamente contratados por salários. Isso inclui os trabalhadores desempregados e reformados. Além de mulheres empregadas, incluindo donas de casa casadas com trabalhadores homens e seus filhos. Esta é uma classe inteira, contraposta a outra classe.
(Existe o que é usualmente chamado como “classe média”. Esta é tipicamente considerada como incluindo os trabalhadores de colarinho branco e qualificados, profissionais independentes, pequenos empresários, e os níveis gerenciais mais baixos. Estas classes médias não são na verdade, uma classe independente. Em sua maioria, são parte de uma das duas classes principais, capitalista e classe trabalhadora, e eles usualmente se orientam entre uma ou outra).
Tradicionalmente, o anarquismo, como todas as variedades de socialismo, se opôs a exploração de classe, ao consequente trabalho alienado e a pobreza que cria. Os anarquistas e marxistas igualmente apontaram para uma sociedade sem classes. Quem poderia criar essa sociedade? Moralmente, é do interesse de toda a humanidade. Mas, certamente, aqueles que são imediatamente explorados têm um interesse especial em acabar com a exploração. Sua experiência faz com que seja mais fácil para que eles tenham uma visão moral. É errado elevar “ao povo” ou “aos cidadãos” sobre os trabalhadores em sua necessidade direta para acabar com a exploração. Este ponto de vista significaria que aqueles que não são imediatamente explorados pelo capitalismo têm tantos motivos para lutar contra a exploração como aqueles que são obrigados ao trabalho alienado. É considerar que existe a mesma probabilidade de que o capitalista, o policial e gerente se oponham à exploração capitalista que aqueles que estão “sob o chicote” em seu trabalho. Esta opinião é conveniente para aqueles que querem negar a necessidade de uma revolução.
¬Em sua brilhante defesa da perspectiva da classe trabalhadora, The Retreat from Class (1998, Londres: Verso), Ellen Meiksens Wood critica vários “pós-marxistas” (mas bem poderia estar criticando Bookchin): “A implicação [de seus pontos de vista não classistas - WP] é que os trabalhadores não são mais afetados pela exploração capitalista do que qualquer outro ser humano que não é o objeto direto de exploração. Isto também implica que os capitalistas não obtêm nenhuma vantagem fundamental da exploração dos trabalhadores, que os trabalhadores não obtêm nenhuma desvantagem fundamental da sua exploração pelo capital, que os trabalhadores não poderiam obter qualquer vantagem fundamental cessando de serem explorados, que as relações entre capital e trabalho tem consequências fundamentais para toda a estrutura de poder social e político, e os interesses em conflito entre capital e trabalho estão apenas nos olhos de quem vê... Isso faz com que não tenha sentido... A história completa das lutas dos trabalhadores contra o capital”. (p. 61).
Não é inevitável que os trabalhadores vão se tornar revolucionários (embora Marx e Engels podem ser lidos neste sentido). Os trabalhadores em melhor situação podem ser comprados. Os trabalhadores em pior situação podem ser desmoralizados e derrotados. Bookchin argumenta que a hierarquia natural do local de trabalho capitalista ensina os trabalhadores a aceitarem a subordinação. Se isto é assim, os oprimidos vão resistir. Se o interesse dos trabalhadores é a de resistir à exploração. Na verdade, há uma falta de satisfação e lutas constantes (de nível baixo) em qualquer local de trabalho. Este conflito resultou em consciência revolucionária, pelo menos por uma minoria. Desde que os trabalhadores (a diferença, por exemplo, campesinos) não têm terra ou máquinas próprias, tendemos a ser coletivistas e cooperativos em nossas organizações e programas. E tendo em nossas mãos os meios de produção, transporte, distribuição, comunicação e serviços, a nossa classe tem um enorme poder (potencial), o qual poderia abalar toda a sociedade. Mais uma vez, estas tendências e potencial, não são inevitáveis.
O estereótipo negativo da classe trabalhadora
Não deveria surpreender que a maioria da esquerda - anarquista e não anarquista - tenham pontos de vista anti-classe trabalhadora. A esquerda está dominada por pessoas da classe média. Alguns como os estudantes universitários, podem ser mais facilmente “radicalizáveis” que a maioria dos trabalhadores, porque os estudantes não têm responsabilidades imediatas de ganhar a vida e sustentar a família. Mas seus privilégios relativos os fazem mais propensos a ter preconceito de classe contra os trabalhadores. Eles podem ter pressupostos elitistas inconscientes sobre o seu “direito” de governar. Os liberais procuram melhorar a sociedade dentro dos centros de poder existentes. Os mais radicais são atraídos por visões de uma classe dominante burocrática, com a nacionalização e planificação centralizada, tal como existia sob o capitalismo de Estado na União Soviética, China maoísta e Cuba de Fidel Castro. Outros imaginam que eles podem criar um mundo melhor apenas viver em uma liberdade pessoal boêmia (o que não é mau em si mesmo, mas não é uma alternativa para a construção de movimentos populares).
Os inimigos de classe média da classe trabalhadora argumentam que os trabalhadores estadunidenses são ignorantes, racistas, sexistas, superpatrióticos, religiosamente supersticiosos, xenofóbicos, e politicamente passivos. Este é o estereótipo negativo. Como a maioria dos estereótipos, contém verdades e falsidades. Ignora o fato de que a classe dos trabalhadores inclui a maioria das pessoas negras, imigrantes, mulheres, etc. Deixa de lado que os trabalhadores estão geralmente a favor do cuidado de saúde universal e de outros serviços sociais, contra a guerra no Iraque, suspeitam dos grandes empresários e dos políticos, são pró-sindicatos, antifascistas e pró-democracia. Na medida em que o estereótipo negativo é verdade, é verdade para todas as classes. Os trabalhadores não são mais politicamente ignorantes, racistas, etc. que as classes médias ou altas estadunidenses.
É certamente verdade que os trabalhadores (nos EUA e em outros lugares) não são anarquistas revolucionários. Mas esta é outra maneira de dizer que a população dos Estados Unidos ou em qualquer lugar, independentemente de classes, não é anarquista revolucionária. Em algumas partes da população pode haver mais radicais que em outros, em geral, estamos muito, muito longe de estarmos em um período pré-revolucionário em que a maioria popular queira uma grande mudança social.
Infelizmente, há muita verdade no estereótipo negativo da classe trabalhadora. Não é o suficiente para que os trabalhadores não sejam piores que as classes médias ou altas. A classe trabalhadora precisa ser melhor do que as outras classes, se quisermos criar uma sociedade em autogestão. Como superar as fraquezas da classe trabalhadora? Apenas lutando. No decorrer da luta - desde as oficinas, os problemas da comunidade até a revolução - nossa classe aprende e melhora. Através da luta nos educamos. Tornamo-nos capazes da verdadeira democracia. Não há outro caminho.
Neste momento, a minoria que são a favor da revolução anarquista deve estar pensando em uma estratégia de longo prazo: Quem está interessado em acabar com a exploração capitalista? Quem tem o poder potencial para parar sociedade e mudar o sistema? Quem tem uma história de luta contra a exploração capitalista? As respostas a estas questões estratégicas nos levará a uma perspectiva de classe trabalhadora.
Parte 2: A Relação entre a classe trabalhadora e as opressões não classistas.
Como falei na primeira parte, a classe trabalhadores é central na luta contra o capitalismo. Mas qual é sua relação com outros setores da população e seus sistemas de opressão? Como a classe se refere às mulheres e ao patriarcado; aos afro-americanos e a supremacia branca; as nações do “terceiro mundo” e o neocolonialismo; aos imigrantes e o nativismo; e as outras opressões, tão numerosas para nomeá-las? Como a classe trabalhadora se refere aos assuntos aparentemente não classistas como a guerra e o aquecimento global? Não estou discutindo a moralidade da opressão, e muito menos se uma forma de opressão é pior que a outra (como o antissemitismo versus a discriminação contra os surdos). Todas as opressões são maléficas e deveríamos nos opor. Quero discutir uma análise das relações entre as opressões e as conclusões estratégicas que se podem tirar disso.
O modelo base/superestrutura.
Os marxistas usaram tradicionalmente um modelo de uma bases e uma superestrutura. A base se supõe que é o processo de produção como está organizado em uma sociedade particular, particularmente as relações e as classes. A superestrutura é todo o resto: O Estado, a cultura, as relações de gênero e raciais, etc. A vantagem dessa metáfora é que faz insistência na enorme influência das relações de classe sobre todos os aspectos da sociedade; esta é a força do materialismo histórico. Mas há dificuldades com esse modelo. Por exemplo, se o Estado é essencial para a manutenção do capitalismo, então porque está na superestrutura e não na base? Estrategicamente, esta imagem pode nos levar a considerar todos os assuntos não classistas só como derivados. Isto pode ser tomado no sentido de que os revolucionários só deveriam se focar nos assuntos classistas, porque as opressões não classistas serão automaticamente resolvidas uma vez que a sociedade sem classes avance. Segundo este ponto de vista, os assuntos não classistas são distrações irrelevantes do verdadeiro assunto. Não são reais. Uma vez que os trabalhadores tomem o poder, pode se pensar, as opressões não classistas, como o Estado, se “extinguiriam”, sem nenhum esforço especial para tratar com elas.
Os marxistas sofisticados possuem uma interpretação sutil, mais dialética, porém o modelo se presta a esta política mecanicista. Consideremos a declaração da libertária Class War Federation (Reino Unido) de que as funções da classe média são “promover ideias que nos mantém dividido como o racismo e o sexismo... para distrair nossa energia em atividades inofensivas o que chamamos de reformismo, por exemplo, Greenpeace, CND (Comitê para o Desarmamento Nuclear), feminismo, sindicalismo...” (Unfinished Business..., 1992, Stirling, Scotland: AK Press; p. 57). O livro possui uma caricatura na qual as pessoas ricas estão dançando em uma plataforma que está sendo sustentada por pessoas que estão atordoadas pensando (em círculos) “Ecologia, Anti-bombas, vegetarianismo, feminismo, terceiro mundo, Salvem as...” (p. 8). Como mínimo, nesta declaração e caricatura, os movimentos para o equilíbrio ecológico, a liberação das mulheres, a libertação nacional e a oposição à guerra nuclear não são vistos como possíveis aliados da “guerra de classes”, só como diversões da classe média. Racismo e sexismo são vistos como problemas só porque dividem a classe trabalhadora, e não como temas em si.
Por outro lado, o historiador marxista, Ellen Meiksins Wood, conclui, “a metáfora base/superestrutura sempre foi mais problemática do que vale a pena... Tem sido feita para suportar o peso teórico mais além das suas capacidades...” (Democracy Against Capitalism, 1995, Cambridge, Britain: Cambridge Univ. Press; p. 49-50) (Como estabeleço na parte I, o anarquismo de luta de classes se solapa em grande extensão com o marxismo libertário, me considero propriamente como um anarquista informado sobre o marxismo).
Há uma metáfora que também nego, que é um estrito pluralismo. As distintas opressões da sociedade são vistas como paralela de cada uma das outras, cada uma separadamente, sustentando-se a si mesma. A opressão das mulheres é vista como real, mas distinta do racismo, o qual está separado da homofobia, transfobia, lesbofobia, etc, e estão todas em paralelo a algo chamado “classismo”. Ainda quando este ponto de vista reverbera na realidade das distintas opressões, leva a um ponto de vista reformista: que vale tudo para a luta das mulheres, por exemplo, ignorar classe e raça (e logo ser dominadas por mulheres brancas de classe média que aceitam o capitalismo), como que o movimento operário paralelo pode ignorar o sexismo e o racismo, já que são opressões distintas. Não obstante, desejaria enfatizar que todas as opressões estão entrelaçadas e sobrepostas, inclinando-se e dando suporte umas as outras. Gosto da metáfora de uma pilha de pauzinhos, todos inclinados sobre os outros, ainda que alguns podem ser mais centrais na pilha que outros.
Supremacia branca
Muitos tratam as opressões como populações distintas; como se os trabalhadores estiveram por aqui, as mulheres por ali, os afro-americanos em outra área. Isto é enganoso. A população estadunidense, por exemplo, pode ser analisada em termos de classe: Capitalistas, trabalhadores e setores médios. Pode ser também analisada em termos de raça e nacionalidade/etnia: Europeus-americanos, afro-americanos, latinos, asiáticos-americanos, nativos americanos e outros. Pode ser analisada em termos de gênero: Homem ou mulher. Pode ser analisada em termos de orientação sexual: Heterossexual, LGBTTT’s, etc.. Sem dúvidas, estas seguem sendo os mesmos seres humanos. Estas análises com abstrações: Abstraímos (tiramos) certas características com a finalidade de entende-las melhor. A análise do sistema de opressão é, verdadeiramente, útil para entender como as pessoas se comportam e como se definem a si mesmos. Mas segue sendo a mesma população. Os sistemas se superpõem e interatuam. Por exemplo, as mulheres trabalhadoras afro-americanas não estão oprimidas como negras em dado momento, e logo em outro momento oprimidas/exploradas como trabalhadoras (considerando que até em suas horas de trabalho depende de suas credenciais obtidas como trabalhadora). Poderiam analisa-la desta forma, mas os fatos em sua vida é uma totalidade.
Consideremos a supremacia branca. Os africanos foram primeiro sequestrados e usados no Norte e na América do Sul por claras razões econômicas: Ser um tipo de trabalhadores, chamados de escravos. Eles produziam mercadorias (tabaco, algodão, etc.) as quais eram vendidas no mercado mundial. Hoje os afro-americanos são oprimidos dentro da classe trabalhadora, a maioria pertence aos setores mais pobres. Sua opressão serve a duas classes e a dois propósitos: Criam um fundo de trabalhadores que podem ser superexplorados por baixos salários e debilita a totalidade da classes, dadas as divisões raciais e a crença dos trabalhadores brancos em sua superioridade. Ainda que o etnocentrismo é tão antigo quanto a espécie humana, o racismo é uma ideologia que foi inventada durante o escravismo para justificar a escravidão e o roubo de nativos americanos. Foi elaborada na era do imperialismo para conseguir apoio ao colonialismo.
Mas essa análise não significa que a supremacia branca é somente assunto da economia. Há, depois de tudo, alguns ricos afro-americanos, os quais podem seguir sendo presos por serem negros. Seja qual for suas origens, a opressão racial é real. Em sua luta contra ele, os afro-americanos vão se criando como um povo, com sua própria cultura e consciência – Um povo que segue lutando por sua liberdade. Com um conjunto de opiniões, o racismo é quase universal entre os brancos, no ranking que vai desde os “pontos cegos” liberais, que até os antirracistas também temos, aos prejuízos moderados da maioria dos brancos, até o ódio virulento dos fascistas. O racismo afeta não só a economia, como também a política e a cultura da sociedade. Este não desaparecerá só através de argumentos racionais; se exige lutas de massas – lutas do povo negro enquanto povo negro, em aliança com os antirracistas brancos.
As lutas dos afro-americanos se superpõem com todas as outras lutas. Nos anos 50 e 60, a rebelião dos afro-americanos teve um papel chave na movimentação de toda a sociedade, inspirando o movimento anti-guerra, o movimento de mulheres, o movimento gay, como também as lutas da classe trabalhadora (M. L. King foi assassinado em Menphis enquanto apoiava a greve de trabalhadores da saúde, majoritariamente negros). Fizeram-se grandes progressos na limitação da supremacia branca – O chamado fim da segregação legal (Jim Crow). Mas os variados mecanismos da sociedade racista-capitalista deixaram os afro-americanos no fundo da sociedade. É preciso uma revolução total modificar isso.
Patriarcado
O patriarcado – supremacia masculina – também interatua com todos os outros aspectos de nossa sociedade opressiva, autoritária. As vidas as mulheres são diretamente afetadas por sua raça e por sua classe. Aproximadamente metade das mulheres adultas são trabalhadoras empregadas. Incluindo as desempregadas donas de casa, dependem do salário de seus maridos, os quais dependem de sua classe, e estão influenciados por sua raça.
Mais fundamentalmente, a vida das mulheres está determinada por seu papel na família, o qual está determinado pelo tipo de sociedade em que se está. A família nuclear do capitalismo tardio é o centro do consumo de mercadorias. É onde a mercadoria força de trabalho dos trabalhadores (homens e mulheres, adultos e crianças) é criada e recriada. É onde a psicologia social de nossa sociedade é passada até outra geração. As relações entre a família e o capitalismo são sutis e complexas mas muito reais. A imagem da mulher está diretamente relacionada com seu papel na família (e antes do capitalismo, nas famílias das sociedades feudais, escravistas, etc.).
Interessante; Engels inclui o papel da mulher na “base” da sociedade junto à produção de bens. “De acordo com as concepções materialistas, o fator determinante da história é, em última instância (destacado por W.P.), a produção e reprodução imediata da vida. Isto, novamente, em um duplo caráter... A produção dos meios de existência...; e por outro lado, a produção dos seres humanos, a propagação da espécie... A organização social... está determinada por ambos tipos de produção: pelo estado de desenvolvimento do trabalho por um lado, e por outro a família”. (Sobre el origen de la familia, la propiedad privada y el Estado, 1972, NY: International Publishers; p. 71-72). Ele especulava que a opressão das mulheres precedeu a sociedade de classes e foi sua origem.
Sem aceitar o modelo de base/superestrutura de Engels (nota-se o qualificativo destacado “em última instância”; alcançaremos alguma vez a “última instância”?) de acordo com que “a produção e a reprodução imediata da vida” influencia fortemente todos os outros processos sociais. Também de acordo com que a opressão das mulheres vem desde muito antes, na pré-história, e está muito profundo nas estruturas de nossa sociedade. Esta afeta diretamente a, e é afetada pela estrutura de classe e todos os outros aspectos de nossa política e cultura. Também será necessária uma revolução total para lhe por um fim.
Poderia seguir falando muitas outras formas de opressão e relacionando-as entre elas e com a estrutura de classe. Por exemplo, a opressão nacional está diretamente relacionada ao imperialismo, enraizado nas relações de classe capitalistas. A destruição ecológica está relacionada com o impulso do capitalismo de acumular capital constantemente, tratando o mundo natural como uma mina. A homofobia está relacionada com a definição social de gênero, enraizada na estrutura familiar capitalista e sua psicologia social. E também, em complexas formas de interação. O ponto é que cada opressão suporta todas as outras; e todas elas suportam a exploração capitalista e são suportadas por ela. A luta contra cada uma requer a luta contra todas; o fim de cada uma requer o fim de todas. Não haverá sociedade sem classe se não haver também a libertação das mulheres, dos negros, etc.
Em seu estudo sobre as tendências do anarquismo, Benjamin Franks resume seu ponto de vista aqui: Este “considera as relações capitalistas como dominantes na maioria dos contextos, mas não como a única força organizada... O capitalismo interage com outras formas de práticas opressivas que podem não ser totalmente redutíveis a atividade econômica. Aqui as diferentes identidades subjugadas são formadas... No entanto, como o capitalismo continua a ser um fator significativo, a libertação econômica também deve ser uma característica necessária” (Rebel Alliances, 2006, Edinburgh:. AK Press, p 181).
O papel especial da classe
Cada forma de opressão deve ser analisada em sua realização. Por exemplo, a opressão das mulheres não funciona da mesma forma que o opressão/exploração da classe trabalhadora. Olhando para o sistema de classes, há aspectos específicos que o distinguem de outras formas de opressão sistêmica.
Em primeiro lugar, sobre o objetivo. O objetivo da libertação das mulheres não é a destruição do homem, mas a reorganização das relações entre homens e mulheres (embora a definição do que são os homens e as mulheres provavelmente mude ao longo do tempo são). O objetivo da libertação negra não é a destruição de pessoas brancas, mas a reorganização das relações entre europeus e americanos afro-americanos (embora, a longo prazo, as raças possam se dissolver como grupos separados). Mas o objetivo de uma revolução da classe trabalhadora é a derrubada total da classe capitalista, a sua destruição, como uma classe, e sua substituição com o domínio sem Estado da classe trabalhadora (movendo em direção a uma sociedade sem classes).
Em segundo lugar, no poder dos dominantes. Como um grupo, os homens dominam as mulheres. Mas isso não significa que os homens -todos os homens- dirijam a sociedade. Não há reuniões de homens para tomar decisões sobre como governar. (Se existem, eu nunca fui convidado). Muitos homens fazem parte da classe trabalhadora e têm pouco poder. Dar-lhes a escolha, eles provavelmente preferem programas de cuidados infantis e o fim da discriminação da mulher no trabalho (o que provavelmente inclui suas esposas e filhas). Da mesma forma as pessoas brancas, como um coletivo, dominam as pessoas negras. Mas as pessoas brancas não fazem reuniões especiais onde se decide sobre a política interna e externa. Mais uma vez, a maioria dos europeus-americanos são da classe trabalhadora e realmente não possuem o poder (seja lá o que se imaginem).
No entanto, a classe capitalista realmente governa a sociedade! É por isso que eles são chamados de classe dominante. (É claro que a maioria dos empreendedores são homens e brancos). Os capitalistas têm seus negócios e os governam (diretamente ou através de gerentes). Apenas cerca de 1 a 5 por cento da população, controla a produção de bens e serviços dos quais vivemos todos nós. Eles determinam o emprego ou desemprego dos trabalhadores. Com sua riqueza e influência, controlam ambos os partidos políticos. Eles possuem e dirigem os meios de comunicação, que são as principais rotas de notícias e formação da cultura popular. Eles dominam o governo em todos os níveis. O seu domínio de classe deve ser totalmente derrubado, se queremos um mundo melhor.
Em terceiro lugar, o poder potencial dos oprimidos. Como já foi dito, as lutas dos afro-americanos nos anos cinquenta e sessenta balançaram todos os aspectos da vida estadunidense. Gostaria também de salientar a influência dos vietnamitas, uma nação oprimida que resistiu imperialismo americano. Suas lutas de libertação nacional acrescentaram muito durante este período de agitação nos EUA (e do mundo). O movimento de libertação das mulheres também afetou a nossa cultura e política. O movimento gay era mais marginal em tamanho, mas o seu impacto foi muito grande causando reconsideração de estereótipos sexuais. (Os direitos das mulheres e os direitos dos homossexuais continuam a serem questões importantes na política norte-americana).
Sem dúvidas, a classe trabalhadora é única entre os grupos oprimidos, por seu poder possível. Como eu disse na Parte I, apenas os trabalhadores (como trabalhadores) podem todos juntos parar esta sociedade. E somente a classe trabalhadora pode começar de novo com uma nova base. Nossa classe produziu todos os bens; Nós os transportamos; nós os distribuímos; nós atendemos as necessidades do povo. Nós temos um enorme potencial. Qualquer um que tenha estado em uma cidade durante uma greve geral sabe como isso é verdade. A greve geral de sucesso em uma cidade poderia transformar a política estadunidense. Grande parte das políticas capitalistas existe para impedir que a classe trabalhadora se torne consciente do seu poder e o utilize.
Conclusões estratégicas
A partir da análise acima, eu tiro conclusões de nível estratégico (e não apenas moral). A primeira é que não há problema em chamar anarquistas de luta de classes. Estamos no direito de colocar a luta de classes especificamente no centro das nossas políticas. Estrategicamente, o inimigo principal é a classe dominante capitalista e seus aliados. Buscamos mobilizar o enorme poder, único, a maioria da classe trabalhadora contra eles.
Em segundo lugar, nós, revolucionários, deveríamos apoiar todas e cada uma das lutas contra a opressão, não importando quão grande ou pequeno elas são, ou se eles estiverem conectados de forma direta nas questões de classe ou não (na medida em que todos os tipos de opressão se sobrepõem com a opressão de classe). Além de ter suas próprias fontes, cada sistema de opressão apoia o capitalismo, e é apoiado pelo capitalismo. O que equivale a dizer que lutando contra a opressão cada se implode o capitalismo, como lutando contra o capitalismo implode cada opressão.
Este sistema é muito poderoso e complexo. Tudo o que temos para derrubar será necessário. Devemos apontar cada mal dessa sociedade para abrir os olhos das pessoas sobre a necessidade de revolução. Precisamos de todos os assuntos que possam mobilizar as pessoas para lutar em seu nome. Na prática, um grupo revolucionário precisa priorizar seus poderes limitados, mas os princípios devem se opor a todos os efeitos do mal desta sociedade, e estar do lado de todos aqueles que lutam por um mundo melhor.
Estas duas conclusões estratégicas não se contradizem. É no cruzamento entre a exploração e opressão não-classista para encontrar o maior potencial de paixão revolucionária entre a classe trabalhadora imigrante ou mulheres da classe trabalhadora, por exemplo. Em cada luta dos trabalhadores, devemos olhar para os efeitos sobre as mulheres, afro-americanos, os imigrantes, os jovens, etc. Devemos usar essas conexões para fortalecer a luta – caso contrário, eles podem se tornar fontes de divisão e fraqueza. Além disso, cada movimento não classista deve procurar o conflito de classes. Devemos opor-se à liderança da classe média pró-capitalista no movimento das mulheres, no pacifismo, no movimento Africano-Americano, etc. – e mesmo nos sindicatos! Em vez disso, levantamos um programa que seja do interesse das mulheres da classe trabalhadora, os trabalhadores afro-americanos, etc., e que expõe as causas capitalistas de guerra. O capitalismo é o centro da rede autoritária de opressões. Todas elas devem ser abolidas.
Os Manifesto Comunista estabelece (e os anarquistas de luta de classes concordariam), “Todos os movimentos históricos têm sido, movimentos de minorias, ou os interesses das minorias. O movimento proletário é o autoconsciente, independente da imensa maioria, pelos interesses da grande maioria. O proletariado, a camada mais inferior de nossa sociedade atual, não pode levantar-se, sem explodir o conjunto dos estratos que cobrem a sociedade oficial”. Uma tradução alternativa: “O proletariado... não pode permanecer em pé sem explodir uma superestrutura completa das camadas que compõem a sociedade oficial”. (In.: H. Draper, The Adventures of the Communist Manifesto, 1998, Berkeley CA: Center for Socialist Studies, p. 133).
Em outras palavras, a rebelião da classe trabalhadora, especialmente daqueles que estão na parte inferior, agita tudo, revolucionando todos os aspectos em todas as partes da sociedade capitalista. No entanto, Marx e Engels sabiam que, mesmo na Inglaterra do seu tempo, os trabalhadores não eram a maioria, para não falar em outros países. (Ainda hoje, onde temos uma classe operária maioritária em muitos países, o núcleo do proletariado, os trabalhadores industriais, continua a ser uma minoria – Se é que é grande.) Eles falaram da classe operária ganhando aliados entre os oprimidos (mesmo aqueles que não tiveram um completo entendimento de todas as opressões). Vinte anos depois, Engels escreveu: “A classe exclusivamente dependente do salário toda a vida ainda está longe de ser uma maioria entre o povo alemão. Ela é, portanto, obrigada a buscar aliados”. (em Draper, 1998; 232 p.).
Uma Revolução liderada pela classe trabalhadora não será a tomada do poder estatal por uma elite, mas vai ser a autolibertação consciente do “grande maioria”: Todos os oprimidos, cujo centro é o proletariado. E é só o proletariado, a classe trabalhadora (multinacional, multirracial, multicultural, etc.) – pode unir todas essas forças rebeldes, e canalizar até a Revolução. A existência de um movimento proletário maioritário não é dado, mas deve ser criado através da prática revolucionária.
Durante cerca de dois séculos a nossa classe tem lutado. Ela tem conseguido vitórias e sofreu perdas terríveis. Esta classe trabalhadora do capitalismo foi esmagada, vendida, abatida, enganada, foi preconizada como a pior, teve todos os direitos negados, ou teve limitados direitos outorgados, foi enviada para a guerra, seus sindicatos e partidos se voltaram contra ela, tem sido caluniada e explicada por teóricos da classe média. Mesmo neste curto espaço de tempo, tem lutado mais do que qualquer outra classe explorada fez ao longo de milênios. Construiu organizações de massa, fez pequenas greves e greves gerais, forçando os capitalistas a lhes concederem direitos democráticos e abalou o mundo com levantes revolucionários. Existe uma garantia de que a nossa classe, com seus aliados entre os oprimidos, destruirá o capitalismo e toda a opressão? Vamos transformar – “inevitavelmente” – o capitalismo antes que o capitalismo destrua o mundo com uma guerra nuclear ou desastres ambientais? Não, não há nenhuma garantia. Esta é uma questão a ser decidida na luta! Em contrapartida não há uma falha fatal para garantir que a nossa classe nunca terá sucesso. A história está longe de terminar.
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