Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Meu primeiro encontro com Bakunin - Errico Malatesta




Era o fim do verão de 1872, em Nápoles.

A Federação Italiana da Internacional dos Trabalhadores nos tinha delegado Cafieiro e a mim para representá-la no Congresso que se devia celebrar na Suíça (e que ocorreu, em Saint-Imer, no Jura Suíço), para um entendimento entre todas as sessões da Internacional que haviam se rebelado contra o Conselho Geral, no qual, sob a direção de Karl Marx, queria submeter toda a Associação à sua autoridade ditatorial e dirigi-la, não à destruição, mas a conquista do poder político.

Eu estava cheio de entusiasmo naquelas lutas, das quais a sorte da Internacional dependia e o porvir da ação revolucionária e socialista.

Jovenzinho, em minhas primeiras lutas, estava naturalmente muito feliz em poder ir ao Congresso, entrar em relação direta com companheiros de todos os países e talvez também orgulhoso por fazer ouvir minha voz. Naquela idade, quando não se é nada, estava cheio de mim! Mas o que sobretudo me entusiasmava era o pensamento de que conheceria Bakunin e que me tornaria (não duvidava disso) seu amigo pessoal.

Bakunin em Nápoles era uma espécie de mito. Havia estado ali, creio, em 1864 e em 1867, deixando uma impressão profunda. Falava-se dele como uma pessoa extraordinária e como geralmente ocorre, exageravam suas qualidades e seus defeitos. Falavam da sua estatura gigantesca, de seu apetite formidável, de sua vestimenta descuidada, de sua negligência pantagruélica, de seus desprezo soberano ao dinheiro. Contavam que, chegando a Nápoles com uma grande soma de dinheiro, no momento em que se apresentavam revolucionários polacos fugitivos da repressão que seguiu a insurreição de 1863, Bakunin deu simplesmente a metade de tudo o que tinha ao primeiro polaco necessitado que encontrou, e depois a metade da metade ao segundo polaco, e assim sucessivamente até que - e não precisou de muito tempo - ficou sem um centavo. E então pegou o dinheiro dos amigos com a mesma indiferença senhorial que havia dado o seu. Mas isso e outras coisas eram a lenda. 

O importante era a grande conversação que tinha nos círculos avançados, ou os supostos círculos, em torno das ideias de Bakunin, que foi remover todas as tradições, todos os dogmas sociais, políticos, patrióticos, considerados até então pela massa dos "intelectuais" napolitanos como verdades seguras e fora discussão. Para uns Bakunin era o bárbaro do Norte, sem deus e sem pátria, sem respeito a nenhuma coisa sagrada, e constituía um perigo para a santa civilização italiana e latina. Para os outros era o homem que havia levado aos pântanos das tradições napolitanas um sopro de ar saudável, que havia aberto aos olhos da juventude que se aproximou dele para novos horizontes; e estes, os Fanelli, os De Luca, os Cambuzzi, os Tucci, os Palladino, etc., foram os primeiros socialistas, os primeiros internacionalistas, os primeiros anarquistas de Nápoles e da Itália.

E assim, pela força das palavras, Bakunin se tornou para mim também um personagem legendário; e conhecê-lo, aproximar-me dele, aquecer-me com seu fogo era para mim um desejo ardente, quase uma obsessão.

O sonho iria se realizar.

Parti, pois, para a Suíça, junto com Cafieiro.

Naquela época eu estava enfermo, cuspia sangue e me julgavam como tuberculoso ou quase, tanto mais quanto que havia perdido os pais, uma irmã e um irmão por enfermidade do peito. Ao passar o Gotardo pela noite (então não existia um túnel e era necessário rodear a montanha de neve em diligência) me resfriei e cheguei à Zurique, para a casa onde estava Bakunin, pela noite, com tosse e febre.

Depois da primeira acolhida, Bakunin me acomodou em uma cama pequena, me convidou, quase me obrigou a deitar-me nela, me cobriu com todas as mantas e agasalhos que pode recolher, me deu chá fervente e me recomendou que ficasse tranquilo e dormisse. E tudo isso com uma ternura, uma ternura materna que me comoveu o coração.

Enquanto estava envolto sob as mantas e todos acreditavam que estava eu dormindo, ouvi o que Bakunin dizia, em voz baixa, coisas amáveis sobre mim, e depois acrescentou melancolicamente: "Pena que está tão doente; o perderemos logo; não tem mais de seis meses". Não dei importância a este triste prognóstico, porque me parecia impossível que pudesse morrer (eu mal posso acreditar até hoje); mas pensei que haveria sido quase um delito o morrer quando há tanto que fazer pela humanidade. Senti-me feliz pela estima daquele homem e prometi a mim mesmo fazer todo o possível para merecê-la.

No dia seguinte acordei curado e começamos com Bakunin e os demais, suíços, alemães, espanhóis e franceses, aquelas intermináveis discussões que Bakunin sabia dar tanto encanto. 
Fomos à Saint-Imer, onde - note-se a característica da psicologia popular - as crianças acolheram Bakunin ao grito de "Viva Garibaldi!". Naturalmente, sendo Garibaldi o homem que mais tinham ouvido celebrar, aqueles meninos pensavam que deviam ser um homem colossal. Bakunin era colossal, o viram rodeado e festejado, e pensaram que não podia ser ninguém além de Garibaldi.
Tomamos parte no Congresso, depois voltamos para Zurique, discutindo sempre, tomando acordos e fazendo projetos até a noite.

Conheci Bakunin quando ele estava já em idade avançada e cheio das enfermidades contraídas nas prisões na Sibéria. Mas o encontrei sempre cheio de energia e entusiasmo e compreendi toda sua potência comunicativa. Era impossível para um jovem ter contato com ele sem se sentir inflamado pelo fogo sagrado, sem ver os próprios horizontes alargados, sem se sentir cavaleiro de uma nobre causa, sem fazer propósitos magnânimos. 

Isto ocorria com todos os que caiam sob sua influência. Depois, alguns, uma vezes cessado o contato direto, mudaram pouco a pouco de ideias e de caráter e se perderam pelos mais diversos caminhos, enquanto outros sofreram e, se sobreviveram, sofrem ainda aquela influência; mas não houve nada, creio, que ao entrar em contato com ele, ainda que fosse por breve tempo, que não tenha se tornado melhor. 

Para acabar, relatarei um episódio característico. Talvez o tenha contado outras vezes, mas em todo caso merece ser repetido. 

Era o momento, o do Congresso de Saint-Imer, em que Marx, Engels e seus seguidores, em parte por ódio e por vaidade pessoal ofendida, se esforçavam mais por espalhar a calúnia contra Bakunin, saiu com esta proposição: "É preciso pagar àquela gente com a mesma moeda; eles caluniam, caluniemo-los também, nós". 

Bakunin se sacudiu como um leão ferido, fulminou com uma olhada o proponente, se levantou em toda sua gigantesca pessoa e gritou: "O que diz, desgraçado? Não, é melhor ser mil vezes caluniado, ainda que as pessoas acreditem, que se rebaixar a ser um caluniador".


Pensiero e Volontà, Roma, 1926.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Lançamento de livreto: Um programa e fuzis - Textos escolhidos sobre a Agrupação Amigos de Durruti



download aqui

"Saudações socialistas libertárias!

Mais uma vez o GEAPI – Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí disponibiliza textos no intuito de engrandecer e ampliar as perspectivas ácratas em língua portuguesa.
Desta vez, trazemos a público uma discussão pouco conhecida dentro dos círculos anarquistas nacionais e internacionais. Aos que começam a debruçar-se sobre a teoria e o movimento ácrata, por vezes encontram textos, enciclopédias, e livros tidos como “bíblias do anarquismo” que trazem um episódio histórico em que os socialistas libertários tiveram uma imensa participação: A Guerra Civil Espanhola.

Em quase todas estas, aponta-se motivos diversos que causaram a derrota da Revolução: Complôs e intervenções stalinistas, franquistas, estadunidenses; a falta de mantimentos para a luta armada; sabotagens realiza-das por agrupamentos trotskistas; mas em nenhum momento, a teoria defendida pela CNT-FAI (Confederação Nacional do Trabalho – Federação Anarquista Ibérica) para a Guerra Civil é colocada a prova, ou apontada como causae mortis daquela grandiosíssima insurreição popular.

Mas qual a teoria defendida pela CNT-FAI? Quem nos responde é a “Agrupação Amigos de Durruti”: Nenhuma; e por conta disso, ela capitulou ante a “Frente Popular”, abrindo espaço para todos os tipos de contrarrevolucionários. Segundo “Os Amigos de Durruti”, quem deixou escapar a Revolução (e por vezes a sufocou) foi a própria CNT-FAI, mantendo inúmeros militantes das duas organizações em ministérios do governo provisório, como Frederica Montseny e Diego Abad de Santillán.

Mais que um debate teórico, a crítica dos “Amigos de Durruti” às duas maiores organizações revolucionárias da Península Ibérica, é um chamado à autocrítica sincera e profunda do movimento anarquista como um todo, em seus vários enfrentamentos internos, como os coletivistas e anarco-comunistas, os sintetistas e os plataformistas, e atualmente, os anarcossindicalistas estadunidenses e os socialistas libertários turcos do DAF (Ação Anarquista Revolucionária).

As aparências enganam. O anarquismo não é tão homogêneo como apontam os autores George Woodcock e Max Nettlau, e para organizações anarquistas, presentes e futuras, é essencial considerar as proposições apontadas, não como uma imposição, mas uma necessidade teórica".

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Apoie o lançamento de obras anarquistas!


O coletivo Rizoma Editorial, em parceria com o Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí (GEAPI)  está dando início a uma nova campanha de financiamento coletivo a fim de arrecadar recursos para a publicação de um novo título, que já está pronto para impressão: a reedição da obra "Anarquismo - Da Doutrina à Ação", de Daniel Guérin.

Trata-se de uma obra clássica, do célebre anarquista francês (que foi um dos mais lúcidos pensadores anarquistas do século 20), publicada pela última vez no Brasil em 1968 pela extinta editora carioca Germinal e esgotado há décadas.



A campanha de financiamento coletivo será realizada por meio do site da Vakinha. As contribuições terão o valor mínimo de R$ 5,00 (cinco reais) e poderão ser feitas por meio de cartão de crédito, transferência eletrônica ou boleto bancário. Contribuições a partir de R$ 20,00 (vinte reais) serão consideradas como “pré-vendas” e darão, a quem doar, o direito a um exemplar do livro para o qual for feita a doação (já incluído o valor do frete).  Quem fizer a compra antecipada, por meio da doação do valor promocional acima, será oportunamente contactado por e-mail para a obtenção do endereço postal para envio do exemplar.

A campanha terá a duração de seis meses, ao fim dos quais os recursos arrecadados serão aplicados na  impressão dos livros - ou, caso sejam superadas as metas de arrecadação, revertidas para a impressão de novas tiragens de outras obras nossas que estejam esgotadas ou com o estoque baixo. Ao final da campanha, a prestação de contas referente à destinação dos valores arrecadados será publicada aqui no blog da Rizoma Editorial, ficando à disposição para análise de nosso público leitor.

A divulgação da campanha será efetuada através de e-mail e das redes sociais das quais participamos (Facebook e Twitter).

Contamos com a colaboração de tod@s @s companheir@s leitor@s para viabilizar este projeto e continuar contribuindo com  a divulgação da cultura libertária, rumo à transformação revolucionária da sociedade!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Lançamento do livro "Táticas Revolucionárias"



O GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí dá início ao ciclo de traduções e lançamentos no ano de 2015 com uma compilação de textos de Mikhail Bakunin, realizada pela Terramar Ediciones, de Buenos Aires. “Táticas Revolucionárias” aborda temática variada, enfatizando aspectos teóricos da revolução socialista e libertária.

Os textos de Bakunin servem tanto para subsídios de pesquisas, como para forjar uma teoria prática de coordenação interna e externa de organizações e movimentos, mostrando-se atual para a realidade em que vivemos, ou no mínimo inspiradoras, uma vez que o autor viveu boa parte dos acontecimentos revolucionários da Europa no século XIX.

Que o livro novamente nos coloque para refletir sobre a necessidade de não só as organizações compostas unicamente por anarquistas, mas também as metodologias que impulsione o povo à luta revolucionária, esmagando o capitalismo, o Estado, e todas as formas de opressão, construindo assim um mundo de igualdade, liberdade e justiça. 
(....)

Agradecemos imensamente o apoio que continuamos a receber de organizações e indivíduos deste país e de outras localidades do mundo, irmanadas pela luta socialista revolucionária, que a cada minuto cresce mais e mais.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Democracia Rojava



A razão para que o titulo deste artigo seja “Rojava Democracy” (Democracia Rojava), não é porque eu queira falar sobre o tipo de sistema que as pessoas estejam querendo construir em Rojava, mas é exatamente o oposto. Eu quero sugerir um conceito que não tenha fronteiras, o qual eu possa recomendar para qualquer lugar. Ao usar este nome, eu pretendi fazer referencia ao um tipo “democracia de oposição” que se opõe ao capitalismo/neoliberalismo e ao regime prisional, o qual dia após dia, tem criado piores condições para uma humanidade que è explorada e sujeita a condições de controle extremo, em cada canto do globo terrestre. Acho que isso è um belo nome para o tipo de “igualdade e liberdade” que pode ser percebido em uma democracia ecológica, coletiva, cooperativa, comunitária; uma democracia participatória radical e uma vitalidade que permanece ainda mais criativa do que essas teorias. Além disso, eu acredito que seja completamente apropriado que a classificação estrutural definida como democr
acia participatória radical com toda sua dinâmica interna adote um nome coletivo oriundo do “ponto-zero” do mundo—Rojava.

Você pode pensar que, embora nós estejamos bem intencionados, possa ser um exagero sugerir que a “Democracia Rojava” seja aplicada ao mundo todo; mas isso è o que eu tenho tentado, insistentemente, explicar ao longo de dois ou três anos—não deixe que a alegação de que “Rojava é o ponto-zero do mundo” pareça lamentável. Ela se chama “Democracia Rojava” porque num mundo onde alguém experimenta as dimensões espaciais ilimitadas de raça, classe e interferência estatal em quase toda rua e em um Cetro Leste que tem sido dividido por fronteiras marcadas por campos minados é uma tentativa de trazer à vida uma democracia participatória radical como uma forma de governo e tem funcionado em meio a toda sua matéria essencial, em contraste ao resto do mundo, não somente inclui as minorias de toda comunidade étnico-religiosa, mas acredita que é absolutamente necessário inclui-las.*O comitê popular de Rojava, no qual árabes, alevitas, yezidis, cristãos, turcomanos, sírios, armênios, assírios e, claro, os curdos estão participando juntos separa diretamente as rupturas das dimensões espaciais de raça, classe e interferência estatal.

É um nome que precisa ser empregado ao redor do mundo porque a “Democracia Rojava” é o oposto das fronteiras, e porque mulheres que têm sido rejeitadas nas esquinas de cada lugar do mundo e, em particular, nos seus guetos neoliberais tem se tornado um sujeito-base desta democracia radical em um Centro Leste que é um dos mais afiados e claros exemplos de exclusão. Para as mulheres –que são excluídas, transformadas numa segunda classe, tanto celebradas quanto confinadas ao seu serviço com crianças, tanto expostas quanto cobertas, tanto estupradas quanto tomadas sob proteção/presas, e em todos as situações são objetificadas—não é nada mais que uma luta de libertação.

Eu quero olhar conceitualmente para esta tentativa de subversão como Giacometti comentou em seu trabalho. Giacometti sempre falou sobre suas esculturas como parte de um trabalho completo. Isso é para dizer que todos os arquivos e martelos, os escultores e todas as ferramentas em sua oficina, os fragmentos quebrados e moldados, a poeira e todos os detritos são como uma peça. Ainda que ao mesmo tempo todas estas esculturas tenham sido formadas de toda aquela poeira e fragmentos e devido a isso, como uma peça, elas foram formadas de tudo. A Democracia Rojava é uma parte do mundo todo e está se autoconstruindo da poeira e dos fragmentos...

E as estatuas de Giacometti são consideradas uma obra-prima...

*Aqui, eu deveria ressaltar que as seitas e as denominações de comunidades religiosas são fundamentalmente e em ultima análise definidas como um tipo de “raça-etnicidade”.

Tradução, Caroline Alves

Fonte: <http://rojavareport.wordpress.com/2014/11/17/rojava-democracy/. publicado em 17 de Novembro. Autor desconhecido. Acesso em 21 de Novembro de 2014. 9:20> 

Teresina, Novembro, 2014.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

18.11.1918 - 18.11.2014: Viva a Insurreição Anarquista de 1918!





Hoje, 18 de Novembro de 2014, comemoramos 96 anos da épica Insurreição Anarquista ocorrida no Rio de Janeiro. Escolhemos, para relembrar a tentativa de criação de um autogoverno popular no Brasil, um texto de John W. F. Dulles, do livro “Anarquistas e comunistas no Brasil”, disponível em nossa biblioteca virtual. 

Olhemos o passado para relembrar d@s brav@s companheir@s que lutaram incessantemente para a edificação de um mundo de justiça e igualdade social, política e econômica, vivamos o presente em organização e luta, reparando os erros do passado e fitando no horizonte, o futuro que, através da derrocada do capitalismo e do Estado, ergueremos: Um futuro Socialista e Libertário.  

ANARQUISMO É LUTA!



"Com o fim da Primeira Guerra Mundial (a 11 de novembro de 1918), uma segunda fase da onda de greves iniciadas em 1917 abalou o país até 1.921. Um aspecto novo se revelaria agora, ocasionalmente: É que alguns dos lideres do proletariado estavam decididos a fazer os companheiros seguir o exemplo de seus "irmãos" bolchevistas, para se estabelecer "um governo genuinamente de operários e soldados". Havia. entre tais lideres, os que estavam bastante impressionados com o fato de que um estágio avançado de desenvolvimento industrial não era requisito para a derrubada violenta do capitalismo. Acreditavam, como Lênin e Trotsky, que estava a seu lado a lógica da história universal, e que o movimento proletário, iniciado na Rússia em 1917, iria expandir-se inevitavelmente. 

As autoridades brasileiras, também sob influência da revolução bolchevista, raras vezes perdiam a oportunidade de avisar a população que o teor do movimento grevista era bem mais sinistro do que a reivindicação do aumento salarial e a jornada de oito horas. Poderiam referir-se à motivação dos líderes anarquistas que organizaram a greve que estourou no Rio uma semana após o fim da guerra mundial, antes da suspensão do estado de sítio. Com a ajuda de bombas, os conspiradores tentaram recriar os acontecimentos ocorridos em Petrogrado, no ano anterior".

José Oiticica foi designado líder do "conselho" diretor da insurreição, sendo nesta tarefa auxiliado por Agripino Nazaré, advogado da Bahia, e Astrogildo Pereira, cujas cartas à imprensa lhe custaram o emprego no Ministério da Agricultura. Outros que estiveram ligados ao conselho insurrecional foram Manuel Campos, o anarquista espanhol que dirigiu Na Barricada em 1915-1916, Alvaro Palmeira, um professor de certo prestígio entre os operários da construção civil, e Carlos Dias, o operário gráfico que por mais de 10 anos vinha trabalhando na publicação de jornais anarquistas. Os líderes dos trabalhadores das fábricas de tecidos, Manuel Castro e Joaquim Morais, assim como José Elias da Silva, João da Costa Pimenta e o jornalista José Romero estavam cientes da conspiração. 

Enquanto o conselho orientava os operários, prestes a se declararem em greve pela melhoria das condições de trabalho, as atenções da população brasileira se voltavam pua a terrível epidemia de "gripe espanhola" e para os planos da tomada de posse do Presidente-eleito Francisco de Paula Rodrigues Alva, que deveria suceder a Venceslau Brás no dia 15 de novembro de 1918. 

A epidemia de gripe espanhola, catastrófica em São Paulo, alastrou-se de maneira ainda mais grave na Capital da República. Os relatórios indicam que, em meados de novembro de 1918, 401.950 cariocas foram, ou já haviam sido, acometidos pela gripe, numa população de 914.292 habitantes, e que àquela altura 14.459 pessoas haviam sucumbido à doença. Anunciou-se. que o Presidente-eleito Rodrigues Alva contraíra a gripe e que seu estado não lhe permitia assumir o poder. O Vice-Presidente-eleito Delfim Moreira assumiu a presidência, logo após o falecimento de Rodrigues Alves. 

Para infelicidade de Oiticica e dos demais conspiradores, Ricardo Correia Perpétuo, o membro do conselho que fora encarregado de distribuir boletins sediciosos entre os soldados aquartelados na Vila Militar, convidou o tenente do Exercito Jorge Elias Ajus a participar do movimento. Aja, expressando-se a favor da implantação no Brasil de uma forma de governo "inteiramente popular", à semelhança da Rússia, foi avidamente acolhido no movimento, devido a suas conexões militares, sendo nomeado, juntamente com Oiticica, chefe do movimento." Mas Ajus era um espião.

Na noite de 14 de novembro Ajus participou de uma reunião, na residência de Oiticica, em que tudo era falado em voz baixa, por solicitação do professor: Ele temia que sua esposa, que ocupava um cômodo contíguo e não sabia de nada, fosse capaz de denunciar a insurreição. Anunciou-se, então, que todos os operários em tecidos estavam prontos para a ação. Os operários que partissem de Botafogo deveriam invadir o palácio presidencial, onde hasteariam uma bandeira vermelha; os operários reunidos em Sito Cristóvão se apossariam dos depósitos de armas e munições da Intendência da Guerra; os tecelões de Bangu tomariam posse da fábrica de cartuchos de Realengo; o pessoal da Saúde, fiel a Manuel Campos, ajudaria no ataque ao quartel de policia ali existente. Oiticica observou que a deflagração deveria ser combinada para coincidir com as sessões da Câmara e do Senado, a fim de se prenderem todos os seus membros. Ajus se encarregaria do Exército. 

Uma reunião mais concorrida, de que participaram cerca de 40 conspiradores, realizou-se no dia 15 de novembro, numa sala do curso do professor Oiticica. Depois de aberta a sessão por João da Costa Pimenta, o tenente Ajus propôs que a insurreição começasse com uma concentração geral no Campo de São Cristóvão. para o posterior ataque à Intendência da Guerra e aos quartéis de policia. Oiticica concordou e ordenou que, após declarada a greve, mareada para as 15:30 horas do dia 18 de novembro, os grevistas, calculados em 15 mil, se dirigissem para o Campo de São Cristóvão. 

Na noite de 17 de novembro, em reunião de uns oito ou 10 membros do conselho na casa de Oiticica, Ajus alegou que não poderia cooperar efetivamente com o movimento, por não estar de serviço no quartel naquele dia 18, e pediu que a insurreição fosse adiada para o dia 20. Mas Agripino Nazaré opôs-se a esta proposta, lembrando que os tecelões, prontos para iniciar a greve no dia seguinte, não poderiam ser persuadidos a voltar atrás. Em seguida, Oiticica enumerou algumas das medidas tomadas: havia "quatro mil operários dispostos a tudo", e "1.600 bombas" já tinham sido distribuídas. Segundo Oiticica, seria fácil tomar o depósito de armas e munições do Campo de São Cristóvão e explicou ainda a maneira como os metalúrgicos cortariam as linhas telefónicas e dinamitariam uma das torres de iluminação da Light, deixando às escuras a cidade. Quarenta tambores de petróleo e gasolina — acrescentou — seriam usados para incendiar o edifício da prefeitura, o quartel-general do Exército e o quartel central da polícia. 

Nas primeiras horas da tarde de 18 de novembro, Oiticica se reuniu com alguns membros do conselho em um prédio da Rua da Alfândega, para rever os últimos detalhes do levante. As autoridades, informadas de tudo o que se passava, interromperam subitamente a reunião, prendendo Oiticica, Manuel Campos, Ricardo Perpétuo, Astrogildo Pereira, Augusto Leite e Carlos Dias. Júlio Rodrigues, o comissário destacado pelo chefe de polícia Aurelino Leal para efetuar as prisões, informou mais tarde que havia feito todos os esforços para conseguir a prisão de João da Costa Pimenta, Manuel Castro, Joaquim Morais c Raimundo Martins. Mas todos estes conseguiram fugir e permanecer escondidos.

Às quatro horas da tarde do dia 18 de novembro, os tecelões do Distrito Federal se declararam em greve; seis mil operários deixaram seus empregos em Bangu, onde o movimento "irrompeu com grande clamor". Os metalúrgicos e os operários em construção civil aderiram à greve logo em seguida. As fábricas estavam repletas de boletins que conclamavam à "insubmissão" e à "reação violenta contra a prepotência dos patrões". Os boletins distribuídos nos quartéis do Exército concitavam os militares, "irmãos dos trabalhadores", a se unirem à classe operária na formação dos comitês de soldados e operários com o fim de assumir a direção de todos os serviços públicos.

Às cinco horas da tarde umas poucas centenas de insurretos se reuniram no Campo de São Cristóvão. Durante a luta em que alguns deles tomaram a delegacia do décimo distrito policial, uma bala atingiu o delegado, e uma bomba arremessada contra um veículo da brigada policial feriu ligeiramente quatro praças. Para retomar dos insurretos a delegacia, uma unidade de cavalaria do Exército partiu da bem guarnecida Intendência da Guerra. Com repetidas "descargas de fuzil, conseguiu expulsar os invasores”. Chegavam, ao mesmo tempo, reforços do Exército e da polícia, conforme as providências de Aurelino Leal. Os insurretos fugiram, mas dezenas deles foram presos. Algumas das bombas abandonadas explodiram, aqui e ali.

Numa das indústrias têxteis, a Fábrica de Tecidos Confiança, um grupo de trabalhadores, chefiado por Miguel Manias, invadiu o escritório da fábrica para agredir a direção. Outros operários correram em defesa dos diretores, e saiu uma luta de faca, em que sucumbiu Miguel Martins. Três outros operários foram gravemente feridos, falecendo um deles quatro dias mais tarde. 

Em meio a muitos discursos, no dia 19 o corpo de Miguel Martins foi enterrado num caixão envolto na bandeira de seu sindicato. Descreveram-no como "vítima da traição de um companheiro". 

Aurelino Leal, apelidado de Torquemada ou de Trepov carioca pelos líderes trabalhistas, baixou uma ordem proibindo a realização das reuniões operárias. João Gonçalves, Francisco de Oliveira e outros líderes em Bangu protestaram e foram presos. Uma comissão de tecelões pediu permissão a Aurelino para se reunir, mas o pedido foi negado por não proceder da diretoria do sindicato (cujos componentes estavam presos ou foragidos). Os tecelões tentaram explicar ao chefe de polícia que seus salários e condições de vida não lhes permitiam fabricar bombas. "Positivamente. Sr. Dr., não queremos fazer revoluções. Queremos. sim, trabalhar, tendo os nossos direitos assegurados e respeitados”. 
No dia 22 de novembro o Presidente em exercício Delfim Moreira e o Ministro da Justiça assinaram um decreto que dissolvia a União Geral dos Trabalhadores, e suspendia temporariamente três sindicatos já fechados por Aurelino Leal: Os sindicatos dos operários em tecidos, dos metalúrgicos e dos operários em construção civil. Uma subcomissão da União Geral dos Metalúrgicos se queixou de que, quando a comissão da entidade se reuniu para decidir se os metalúrgicos deveriam voltar ao trabalho, toda ela foi "presa arbitrariamente". De acordo com as informações fornecidas pelo Tenente Ajus às autoridades, os metalúrgicos haviam sido designados para dinamitar uma torre da Light. 

No dia 19 de novembro arremessaram-se bombas em duas torres da Companhia Light & Power, que mal foram danificadas: A companhia assegurou que "só uma carga de dinamite de potência extraordinária" poderia derrubar as torres, e que, ainda assim, se isso aconteceria, os acumuladores disponíveis seriam suficientes para iluminar o Rio por 24 horas, o tempo necessário para reparar as instalações”. 

A 22 de novembro, guiando-se por estas palavras de conforto, os jornais estamparam manchetes sensacionalistas, em que se relatava e ação enérgica da policia, ao desbaratar um "atentado inominável" dos anarquistas, que planejavam dinamitar as represas de Ribeirão das Lajes, para privar a cidade de luz, força e serviço de bondes". Dizia-se que nada menos do que 10 "agitadores" foram presos, depois de surpreendidos com panfletos subversivos, grande quantidade de armas e mapas "da estrada que vai de Rio das Pedras a Ribeirão das Lajes, bem como dos pontos que deveriam ser dinamitados. A polícia acreditava que o plano era de dinamitar várias das bombas hidrelétricas e minar os escombros de modo que fossem mortos os operários encarregados do conserto". 

As notícias desta quase calamidade se fizeram acompanhar da revelação de que "nada menos do que 78 anarquistas" tinham sido presos de 18 a 21 de novembro. Estavam entre eles diversos espanhóis suspeitos e empregados em fábricas na Gávea, grevistas que tentaram reunir-se num matagal de Bangu, elementos encontrados num galpão com "documentos subversivos" e indivíduos apreendidos portando bombas ou armas. Dizia-se que os anarquistas estrangeiros seriam deportados e que os nacionais seriam enviados para a ilha de Fernando de Noronha, ao largo da costa nordestina.

Para demonstrar a existência de uma conspiração atrás do movimento grevista, as autoridades chamaram a atenção para o fato de que os operários abandonaram o serviço simultaneamente e sem levar aos empregadores as suas reivindicações. Com seus líderes dispersos e as reuniões de classe proibidas, os sindicatos encontravam dificuldade para encaminhar os seus reclamos. No dia 20 de novembro, todavia, o Jornal do Brasil publicou algumas das reivindicações proletárias. Os operários em construção civil queriam o dia de oito horas e garantias em casos de acidente de trabalho. Os metalúrgicos queriam salário mínimo, dia normal de oito horas e reconhecimento do sindicato como único intermediário entre patrões e empregados. 

Os tecelões acusavam os patrões de haverem ignorado os acordos de julho de 1917. O Jornal do Brasil, que sustentava e acusação, publicou uma resolução pela qual os tecelões não retomariam ao trabalho antes de obterem salário mínimo, semana de seis dias e dia de oito horas. 

O governo distribuiu uma série de comunicados com o intuito de persuadir os operários a abandonarem a greve, apelando inclusive para as esposas e mães dos mesmos. Nesses comunicados o governo, "amigo e natural protetor dos trabalhadores ordeiros", prometia a deportação dos agitadores que os exploravam e os submetiam a uma “terrível escravidão". Um boletim do Serviço de Segurança, 26 de novembro, anunciava a quantidade de dinheiro encontrada em mãos anarquistas. "Manuel Campos, ao ser preso, fora encontrado com mais de 500$000... Que prova mais clara de que os anarquistas explorem os trabalhadores ordeiros? Mas esse regime de coação está no fim. Ontem mesmo já voltaram para o trabalho 8.940 operários. Retomem todos os outros sem receio, porque a policia está agindo e não dará trégua aos dinamitadores.

No fim de novembro a maioria dos grevistas remanescentes voltaram a seus empregos. Mas as companhias se recusaram a readmitir os que consideravam perigosos. A esta altura dos acontecimentos a policia mantinha cerca de 200 "agitadores" na Casa de Detenção. Ao contrário dos boatos inspirados pela presença de um navio de guerra: Os prisioneiros não foram enviados a Fernando de Noronha, permanecendo na cadeia para serem interrogados. A polícia atava interessada principalmente nos planos de dinamitação de torres e represas.

Os estudantes do Colégio Pedro II e da Escola de Medicina pediram a libertação de José Oiticica. Mas tiveram de continuar sem o professor, pois Oiticica, solto ao dia 10 de dezembro, embarcou "deportado" com esposa e filhos sio Olinda, rumo ao Estado de Alagoas.

João da Costa Pinicais foi para São Paulo, e Agripino Nazaré mimam à Babai, seu estado natal. Astrogildo Pereira permaneceu encarcerado no Rio de Janeiro. Escrevendo a Oiticica, em janeiro de 1919, sobre a prisão e o processo que o enquadrara, Astrogildo terminava a cana dizendo: "Nossa disposição não esmorece. Em todos nós palpita o mesmo entusiasmo, e nossas convicções se enraízam ainda mais fundo. O mundo é nosso — e todos os sabres, todas as grades do Sr. Aurelino resultam, afinal, num estimulante poderoso e incontestável" "Hurra' para a anarquismo!", escreveu noutra carta. (...)"


Fonte:
DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1977. pp 66-71.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O poder “soviético” – Seu presente e seu futuro



Um grande número de pessoas, sobretudo de esquerda, tendem a considerar o poder "soviético" como um poder de Estado diferente dos outros, apresentando estas diferenças como melhores:
"O poder soviético dizem eles, é um poder operário e campesino e, como tal, possui um grande futuro pela frente..."

Não há afirmação mais absurda. O poder "soviético" não é um poder melhor nem pior que os outros. Atualmente, é também inseguro e absurdo como todo poder de Estado em geral. Diante de certas notícias, é até mais absurdo que os outros. Conseguindo uma dominação política total do país, se fez o proprietário indiscutível de seus recursos econômicos e, sem contentar-se com esta situação grosseiramente exploradora, sentiu nascer nele o sentimento enganoso de uma "perfeição" espiritual, um sentimento que procura desenvolver diante do povo trabalhador e revolucionário do país. Assim, quer se impor ao povo enganando como seu dono espiritual; nisto, é fiel à insolência ilimitada e irresponsável de todo poder de Estado. Não é um segredo para ninguém que esta suposta "perfeição" do regime não é outra que a de seu inspirador, o partido bolchevique-comunista.

Tudo isto é só mentira descarada, repugnante hipocrisia e imprudência criminal direcionada à classe operária, em nome das quais e graças à elas se fez a Grande Revolução Russa, agora castigada pelo poder em proveito dos privilegiados de seu partido e da minoria proletária que, sob a influência deste partido, acreditou que estava representada nos rótulos, apetitosas para os ignorantes, do Estado proletário e da ditadura do "proletariado". Minoria que se deixa sem dúvidas se arrastar pelas rédeas, por este partido, sem ter participação alguma nem ter o direito a ser informada com precisão sobre o que se preparou e se cumpriu de forma traidora atualmente e o que todavia se prepara hoje contra seus irmãos proletários que não querem ser um instrumento cego e mudo e os que não creem nas mentiras do partido de máscara proletária.

Não é de se estranhar, sem dúvida, se este comportamento do poder bolchevique a respeito dos trabalhadores pode mostrar-se diferente no domínio de sua educação "espiritual". Ponho como mostra a persistência da consciência revolucionária nos trabalhadores da URSS, causa de grande preocupação para o regime, e que o Partido Bolchevique quer substituir por uma consciência política fabricada segundo seu programa.

É esta a circunstância que explica que o poder bolchevique se encontra cada vez mais cheio de dificuldades e que quer estupidamente completar seu despotismo econômico e político por uma empresa espiritual sobre o povo trabalhador. Não faz falta dizer que esta situação atual do regime condiciona estreitamente seu futuro; futuro completamente incerto, por falta de um futuro favorável. 

Em efeito, a situação atual é visivelmente desfavorável para milhões de trabalhadores dos que se pode esperar, de um momento ou outro, insurreições e revoluções sangrentas contra a ordem bolchevique-comunista. É muito evidente que este espírito insurrecional revolucionário dos trabalhadores da URSS deve ser apoiado por todos os revolucionários de todas as partes. Não obstante, não fará falta que contrarrevolucionários e inimigos dos trabalhadores tirem proveito desta situação. Os trabalhadores e revolucionários devem pois ter por objetivo destruir a ordem atual insensata e irresponsável, instaurada a favor dos privilégios do membros do Partidos e de seus mercenários.

A loucura deste regime deve ser eliminada e substituída pelos princípios vitais dos trabalhadores explorados, tendo como base a solidariedade, a liberdade e a igualdade de opinião para todos eles e a cada um, em definitivo, para todos os que se preocupam de uma autêntica emancipação. É um problema que concerne a todos os revolucionários russos: Todos aqueles que se encontram exilados ou na URSS devem, ao meu ver, preocupar-se com isso em primeiro lugar, assim como todos os proletários e os intelectuais dispostos revolucionariamente; acrescentarei a isto todos os opositores e refugiados políticos do regime bolchevique, a condição de que isto seja por motivos verdadeiramente revolucionários.

Eis aqui como vejo o presente e o futuro do "poder soviético", assim como a atitude que devem adotar os revolucionários russos de todas as tendências a respeito dele. Revolucionários que não podem, a meu ver, traçarem o problema de forma diferente. Devem levar em conta que, para combater o poder bolchevique, há de ter em consideração os valores que utilizou e proclamou para apoderar-se do poder; valores que continuam por outro lado, defendendo mentirosamente.

Caso contrário a luta dos revolucionários se mostraria, se não contrarrevolucionária, inútil para a causa dos trabalhadores enganados, oprimidos e explorados pelos bolcheviques-comunistas, os trabalhadores aos que os revolucionários devem ajudar custe o que custar a libertar-se deste velho círculo vicioso de mentira e opressão.

(Nota de Alexandre Skirda: Este órgão foi reescrito por vários fugitivos anti-estalinistas e anti-trotskistas, que se retiraram do regime bolchevique tendo como base uma volta aos soviets livres de 1917 e as reivindicações dos insurrectos de Kronstadt em 1921. O principal entusiasta da revista era Gregorio Bessedovsky, ucraniano e ex- diplomata soviético deixando em meio a confusões a embaixada da URSS em Paris e dedicando-se a denunciar violentamente as infâmias do regime stalinista. Ver sua obra: Si, acuso! Paris, 1930. Nota do tradutor espanhol).

(Nestor Makhno. O poder "soviético" - seu presente e seu futuro. 1931. Publicado originalmente em Bor'ba (A Luta), Paris, n°19-20, 25 de Outubro de 1931, pp.2-3. Tradução para o espanhol realizada por Jordy Rey. Tradução para o português realizada pelo GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí).

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Achiamé está morto, porém vive!



Os anarquistas historicamente deram ênfase ao conhecimento e difusão da teoria libertária. Panfletos, jornais, peças teatrais, comícios, e... Livros. Livros! A vida de um homem foi dedicada quase que inteiramente à livros. Seu nome? Robson Achiamé.

Caso você seja anarquista, caro leitor, talvez não tenha o conhecido, ou mesmo trocado nenhuma palavra com Achiamé, mas temos certeza que se olhar a sua estante destinada à teoria anarquista, certamente que encontrará um rico acervo de obras editadas por uma certa "Editora Achiamé".

O Camarada Robson, 71 aos, 47 dedicados à imprensa libertária morreu, porém vive. Observando os comentários de condolências, é possível entrever um homem bondoso, gentil, que enviava caixas de livros sem nem mesmo pedir o pagamento prévio (e por vezes, nem mesmo pagamento), um verdadeiro anarquista, que tinha prazer em divulgar as ideias libertárias.

No Piauí, cuja política é caracterizada por um forte monopólio da mídia por parte de oligarquias empresariais, a criminalização de movimentos sociais, e um tradicionalismo beirando aos czares russos, o anarquismo insiste em romper o solo árido da transformação social, e encontra resposta positiva entre trabalhadores, estudantes e populares. Foi por meio de um grande número de livros editados por Robson Achiamé que vári@s companheir@s que hoje compõem o GEAPI adentraram nas lutas e na organização anarquista. Indiretamente, o GEAPI tem muito de Robson Achiamé, assim como tantos grupos de estudos, coletivos, associações, e tantas outras formas de anarquistas dividirem, partilharem e multiplicarem as lutas e os sonhos. 

Acreditamos que a vida e a obra de Achiamé jamais serão "repetidas", mas que sejam o espelho de novas experiências em edição de livros anarquistas no Brasil, assim como a dedicação, a amizade e o compromisso de Robson. 

O anarquismo em língua portuguesa com certeza perde em muito com a morte do companheiro, mas não cessará. Esta talvez seja a forma de agradecer todo o esforço e dedicação de Robson Achiamé Fernandes: Militando, organizando e lutando por um mundo novo, o mundo que carregamos em nossos corações. 

Que a terra lhe seja leve!

Para sempre, PRESENTE!



GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí
Biblioteca Libertária
Livraria Itinerante Anarquista

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

POR QUE TAMBÉM NÃO VOTEI EM NENHUM DOS CANDIDATOS NO SEGUNDO TURNO?


Por Bal, anarcopunk e membro do GEAPI-Teresina


Aécio Neves.

Candidato “playboyzão”, burguês milionário, que representa os interesses dos ricos, do capital privado nacional e internacional, do mercado financeiro, das multinacionais, do FMI, do Banco Mundial, das privatizações e do imperialismo norte-americano. Predileto da imprensa burguesa que manipula toda a opinião pública no Brasil, da classe média, dos grandes grupos empresariais do país, dos latifundiários, dos grileiros, dos agroindustriais (dos fazendeiros que cantam música sertaneja, dos artistas alienados das novelas globais e dos futebolistas milionários ou que não moram no país). Em tese, um retorno de FHC e toda a sua corja ao poder. Quem gostou de FHC iria adorá-lo (http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/10/32-capas-o-brasil-dos-anos-90-e-o-governo-fhc/).
Graças ao grande investimento de banqueiros, grandes industriais e, principalmente, de incansáveis esforços da imprensa burguesa como Rede Globo, Revista Veja, Folha de São Paulo, Estadão, etc., e dos institutos que são pagos pra fraudar pesquisas ele conseguiu ultrapassar a candidata pseudo-ambientalista Marina e chegar à disputa do segundo turno.

Candidato mais nocivo que ele, talvez apenas o pastor Everaldo, que além de fundamentalista, era neoliberal declarado e tinha como proposta, escancaradamente e sem “arrodeios” nenhum, a privatização de tudo, pra acabar com tudo o que é serviço público no país e dizimar de uma vez por todas com os pobres.

Além de desvios, Aécio aumenta a sua fortuna com o dinheiro do tráfico internacional de drogas através de seu aeroporto particular construído com dinheiro público durante o seu governo em Minas que foi apelidado por seus adversários de “Aécioporto”. Em contrapartida ele foi apresentado e desenhado pela mídia burguesa como o candidato da “mudança”, aquele que exatamente refletia os anseios dos indignados nas manifestações das “jornadas de junho”, como se a população tivesse ido pegar porrada da polícia na rua só pra colocar uma carniça dessa no poder, um parasita que nunca trabalhou na vida, que nunca soube o que é sentir fome, que não sabe nem quanto é que custa um pão ou uma passagem de ônibus.

Por mais que a mídia tente mascarar, essa eleição serviu pra deixar claro o estudo político-geográfico acerca do contraste social que existe entre as regiões do país. O norte subdesenvolvido refletiu nas urnas que a maioria dos pobres beneficiados com os programas sociais votariam massivamente na candidata do PT, e contrariamente, o sul industrializado e a grande maioria daqueles que residem no exterior votaria expressivamente no candidato Aécio. 

(http://acritica.uol.com.br/noticias/Dilma-Norte-Nordeste-Aecio-regioes_0_1237676229.html)

(http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/blog/eleicao-em-numeros/post/aecio-foi-o-mais-votado-no-exterior-com-7702-dilma-teve-2298-dos-votos.html)

Denúncias gravíssimas de bandidagens que estão diretamente relacionadas ao candidato:

1. O roubo de R$ 4,3 bilhões da saúde:

(http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/aecio-neves-sera-julgado-por-desvio-de-r43-bilhoes-da-saude-2.html)

2. O pagamento de US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo referente à compra da Light com dinheiro público desviado do Estado de Minas:

(A matéria do NovoJornal de MG foi tirada do ar, tinha como título "Governador de Minas, Aécio Neves, paga US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo de Televisão na compra da Light")

(http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_governo_mineiro_e_a_globo)

(http://www.jornali9.com/noticias/aecio-neves-pagou-us-269-milhoes-de-dividas-da-rede-globo-de-televisao)

3. Construção de aeroporto particular com dinheiro público que custou R$ 14 milhões e fica na fazenda de seu tio:

(http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1488587-governo-de-minas-fez-aeroporto-em-terreno-de-tio-de-aecio.shtml)

(http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/governo-de-aecio-fez-aeroporto-particular-de-r-14-milhoes)

(http://noticias.r7.com/minas-gerais/governo-de-minas-pode-pagar-r-34-milhoes-por-terreno-de-tio-avo-de-aecio-26072014)

4. Aeroporto particular que é usado pra rota internacional de tráfico de drogas:

(http://www.jornali9.com/noticias/denuncia/aeroporto-de-aecio-neves-era-usado-para-rota-internacional-de-trafico-de-drogas)

(http://www.jornali9.com/noticias/denuncia/aecio-neves-e-um-narcotraficante-perigosissimo-denuncia-policial-de-minas)

É desnecessário perder tempo falando desse elemento, “mais sujo do que pau de galinheiro”, porém, o que mais me intriga nesse candidato eram dois argumentos que ele sempre usou pra enganar otário em sua campanha:

1. Aécio Neves conseguiu 92% de aprovação em seu governo de Minas Gerais.
- Como isso é possível se ele não consegue nem obter maioria dos votos nesse Estado?
- Como isso é possível se nenhum candidato até hoje teve tamanho índice de aprovação, nem mesmo aqueles que já conseguiram vencer no primeiro turno?
- Quem fez esse estudo ou pesquisa? 
- Por que a fonte nunca era citada? 
- Por que ninguém nunca questionava a fiabilidade dessa fonte, mesmo após a derrota no primeiro turno?

2. O Estado de Minas Gerais tinha a melhor educação fundamental do país.
- Como é isso possível para um governo que nem sequer paga o piso salarial para valorizar o docente?
- Como isso é possível se durante a sua gestão ele nunca fez concurso público para professor e sempre preenchia as vagas de serviços públicos sem concurso e com temporários não concursados?
- Por que ele não falava a respeito da educação no ensino médio, já que esse sim é que é de competência do Estado?
- Como pode um governo querer se promover através de uma suposta boa educação fundamental ao mesmo tempo em que negligencia o ensino médio?
- Quem fez esse estudo ou pesquisa?
- Por que a fonte nunca era citada?
- Por que ninguém nunca questionava a fiabilidade dessa fonte?

Por que não dar voto estratégico na Dilma?

1. Corrupção:
É perda de tempo falar sobre corrupção nos governos do PT, pois que a população tome conhecimento ou não quando acontece, isso é e sempre foi uma prática comum de todos os políticos por profissão e partidos que chegam ou chegarão ao poder, simplesmente porque o poder é inevitavelmente um mal que corrompe e corromperá sempre a qualquer um que chegar até ele, com o PT não poderia ser diferente, a diferença é que parece que eles ainda não aprenderam a roubar direito, muitas vezes são descobertos.

2. Partido capitalista reformista:
O PT é um partido que defende o capitalismo, como todos os outros também que veem as eleições como uma possibilidade de mudança não passam de reformadores do capital. Basta conhecer os seus “programas de governo” ou assistir as suas campanhas e aos debates políticos. Todos eles discutem apenas qual é a melhor forma da administrar o capitalismo, só discutem sobre e dentro da perspectiva do capitalismo, são todos reformistas.

3. Fim da oposição ao Estado, aparelhamento e inoperância de centrais sindicais, entidades estudantis e movimentos populares:
Com a vitória do PT, diminui a possibilidade de uma real mudança, não havendo ou enfraquecendo a oposição, os sindicatos e entidades se transformam, ou melhor, permanecerão como simples secretarias do governo, protelando as deflagrações de greves ou da possibilidade de uma verdadeira luta revolucionária contra o Estado. Em outras palavras, o peleguismo se prolifera livremente dentro dos movimentos populares.

4. Domando a classe trabalhadora:
Os programas assistencialistas que dão migalhas aos pobres dão uma leve sensação de diminuição da desigualdade social e impedem que muitos pobres se submetam às condições mais desumanas e humilhantes de trabalho, mas por outro lado, os trabalhadores se tornam acomodados, desinteressados da luta por mudanças, pois os paliativos maquiam a crise do capital e funcionam como uma anestesia para o seu sofrimento diário. Não foi a toa que Roma conseguiu prorrogar a sua destruição através da velha política do pão e circo.
O Brasil é um barril de pólvora prestes a explodir, se caso algum governo, de repente acabasse com o bolsa esmola, o país se tornaria um Haiti. Os trabalhadores sempre estiveram cansados da exploração de seu trabalho, mas não sabem de quem é a culpa ou contra quem reagir, ou simplesmente se revoltam uns contra os outros, causando o constante aumento da violência no país, pois desde as primeiras décadas do século passado que não possuem mais consciência de classe para poder canalizar a sua revolta contra a classe dominante.

5. Dilma é uma pelega: 
Quem é a candidata Dilma? Uma ex-guerrilheira, ex-revolucionária, uma pessoa que no passado arriscou a própria vida lutando contra as injustiças da ditadura militar, que por isso foi presa, torturada e humilhada. Atualmente é uma capitalista, vendida ao atual sistema, que faz aliança política com grandes empresários e que renega a todo o seu passado de luta, que envia a mesma polícia que a torturou para prender e reprimir violentamente as greves e manifestações que ela participava na sua época de militante. Resumindo, hoje, uma pelega de carteirinha. Apoiar a candidata que diz ficar em cima do muro, que diz querer conversar com todos os setores da sociedade, que prega a conciliação de classes é ignorar o caráter classista que a luta libertária sempre deve ter.

6. O PT não é de esquerda: 
Votar no PT sob o argumento de que está votando na esquerda é apenas uma falácia ou mesmo ingenuidade. O PT faz alianças e governa com a direita e com toda a mais nojenta e parasitária classe empresarial do país. Começando com os vices que eles sempre escolhem e com aqueles que ocupam os seus ministérios, a lista passa por bandidos históricos de oligarquias tradicionais como Sarney, Calheiros, Gomes, Campos, Barbalho, Collor, Maluf, etc., nem preciso fazer uma lista disso. Para se eleger, a campanha do partido só é possível com o financiamento de banqueiros e de grandes grupos empresariais, sem o qual seria impossível chegar aonde chegou. 

7. Eleições atrasam a consciência revolucionária: 
Apesar de um sensível aumento do número de abstenções de 19% para 21% no segundo turno, a diminuição da porcentagem de votos nulos no segundo turno pode ser julgada como um forte indício disso. Os 10% do primeiro turno caíram drasticamente para 6% no segundo, quando o óbvio seria esse número aumentar a partir do momento em que as opções são reduzidas. Isso me leva a concluir que muitos daqueles que declararam não votar em nenhum dos candidatos, fraquejaram na hora de meter o dedo na urna quando ficaram sozinhos com ela (http://www.f5news.com.br/noticia.asp?ContId=247361). 
Muitos declararam o que chamaram de um “voto estratégico” em Dilma, por medo, para se evitar um retrocesso, um mal pior, que seria a vitória do burguês traficante Aécio Neves. Depois disso a luta libertária e antigovernista poderia continuar normalmente, só que de uma forma mais estruturada, com direitos assegurados, com um governo mais “sensível” a situação dos pobres, com menos sofrimento e repressão. Por esse “medo de uma desgraça maior”, alguns companheiros, até mesmo anarquistas (pasmem) chegaram a passar por uma crise existencial. Nessa hora, muitos militantes e companheiros “viram a casaca” ou são cooptados pela tentação de votar e de participar do processo eleitoral. 
No entanto, é absolutamente contraditório ser antiautoritário colocando alguém no poder, ser antigovernista elegendo governantes. As eleições burguesas devem ser sempre vistas como um atraso para todo o processo revolucionário. Sempre que há eleições burguesas, há uma tentativa de se manter o poder e toda a estrutura governamental da qual somos submetidos e da qual lutamos contra. Votar ou participar do processo eleitoral é legitimar todo esse sistema de abuso e dominação. Escolher o “menos pior” é votar para que tudo continue da maneira como está. Votar é votar pela manutenção do atual sistema político-social-econômico, não votar e propor a luta fora do sistema eleitoral é a melhor forma de se recusar a fazer parte de tudo isso. Seu voto é quem legitima esse sistema capitalista. Não votar, é, sobretudo, negar o sistema capitalista.

8. Conclusão:
Nesse suposto dilema, do qual é preciso escolher entre duas alternativas contraditórias, antagônicas ou insatisfatórias eu prefiro me apoiar em um velho provérbio judaico: “Quando só existem duas alternativas escolha a terceira”.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Memória Proletária: À memória de Ferrer

Hoje se completa 105 anos do assassinato de Ferrer y Guardia pelo governo espanhol. O pai da Escola moderna e um dos principais representantes da pedagogia libertária ainda nos faz refletir e nos auxilia a construir o sonho de uma escola que trabalhe a autonomia e a coletividade de seus alunos, assim como o respeito mútuo, e principalmente, a construção de uma sociedade pautada na igualdade política, econômica e social. Ferrer y Guardia morreu, porém vive.
Divulgamos agora uma matéria  retirada do jornal "A Voz do Trabalhador", órgão de propaganda da Confederação Operária Brasileira, a COB, datado de 1909.
Aproveitamos o espaço e convidamos à tod@s para que participem do Colóquio Ferrer y Guardia Vive! - Reflexões sobre a pedagogia libertária, que será realizado no dia 22 de Outubro, no auditório da UESPI em Parnaíba.





O momento é ainda de protesto. O mundo inteiro protesta contra o bárbaro fuzilamento praticado na pessoa do grande mestre da nova ideia, o livre pensador Francisco Ferrer. 

Os sombrios fossos da Fortaleza de Monjuich recordem os tempos medievais, anteriores á queda da Bastilha. 

A descarga que fez tombar Ferrer repercutiu pelo universo inteiro, no intimo de cada peito, no seio de cada família, no meio de cada associação e no amago de cada país. 
Não ha homem de bom senso, ou livre pensador, que não sinta no intimo d’alma e dor pungentíssima que sufoca o puro sentimento, para só levantar um grito de revolta —porque todos pensamos livremente — porque podemos chegar a ser um Ferrer, um Gorki, um Gafoni, e os Stenka existem em todos os tempos. 

Os espíritos ferrenhos arraigados ao ortodoxismo do Sistema, no pessimismo conservador de tradições, entrincheirados no estulto baluarte da burocracia, arrogando-se os direitos de conquista, pretendem ainda a direção dos povos na trilha intolerável do mais absoluto despotismo, na mais concreta ignorância. 

Mas já passaram os tempos do obscurantismo, já lá se vão os tempos em que a venda era uma condição necessária á vida da humanidade.

Ferrer tombou, Ferrer deixou de existir, mas na matéria apenas; os Ferrer existem em todos os tempos e, cada Ferrer que tomba, e um passo de gigante dado no vasto campo dos nossos ideais. Cada Ferrer que tomba é uma pedra gigantesca atirada no alicerce do vasto edifício do Socialismo; cada Ferrer que tomba, é urna luz que se projeta altaneira, pairando por sobre a humanidade. Luz intensa que muitas centenas de lâmpadas voltaicas, em foco, jamais produziram luz de tão suaves reverberações. 

Lamentemos a morte de Ferrer, mas não nos deixemos empolgar pela dor estiolante das nossas mais santas e puras aspirações; pois que a morte de Ferrer, ao mesmo tempo que nos é uma grande falta, pois que Ferrer era um dos mais fortes esteios da nossa nobre causa, é ao mesmo tempo um grande bem, pois que a morte de um dos procetes da liberdade, em pleno campo de luta, é para nós uma vitória; o seu sangue fará germinar a ida, a luz que lhe alimentava o cérebro espalhar-se-á, comunicar-se-á as massas ávidas de saber e sedentas de luz, atestando assim a grandiosidade da ida e do cérebro que a gerou. 

Se morre um Ferrer entrega-se o corpo á terra, cujos vermes se encarregarão de consumir a matéria, mas não conseguiremos fazer com que a ida acompanhe a matéria na sua queda e decomposição; ainda que assim fosse: a ideia persistiria até chegar o tempo próprio para germinar, porque a ideia é luz e os vermes não comem luz, e como tal não conseguiriam consumi-la: assim a memoria de Francisco Ferrer conservar-se-á indelével no amago de nossos corações. Ferrer será para as gerações vindouras o que para nós tem sido os sábios e filósofos como Galileu, que descobriu o movimento da terra em torno do seu eixo; o Cristo, sublime filósofo da antiguidade, Platão, na sua escola, e Pitágoras, na sua teoria da alma, transcendente após uma correria de mais de três mil anos. Para depois formar o delicado maquinismo de que irradiam as mais suaves reverberações, grau supremo da organização dos seres – o homem.

Ferrer passará, pois, á posteridade como figura brilhante, destacando-se grandioso no escól sublime dos homens de talento, como o apanágio eterno de sua obra grandiosa. Levantemos, pois, um grito de revolta contra a morte daquele que só soube criar escolas.

Elevemos a voz proclamando bem alto a memoria daquele que só procurou instruir a infância – o criador da Escola Moderna – Francisco Ferrer.

Rio, 23 de Outubro de 1909.
A. Galileu.

Fonte: GALILEU, A. Á memória de Ferrer. A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro: Ano II - n° 20, 15 de Novembro de 1909.

Download do texto original <aqui>

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Por que o mundo está ignorando os curdos revolucionários na Síria?



Em meio a zona de guerra síria um experimento democrático está sendo derrubado pelo ISIS. Que o resto do mundo não se dá conta disso é um absurdo.

David Graeber.

Em 1937 meu pai se ofereceu como voluntário para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Um possível golpe fascista havia sido detido temporariamente pela sublevação dos trabalhadores, encabeçada pelos anarquistas e socialistas, e em grande parte da Espanha uma autêntica revolução social se produziu, o que levou a cidades inteiras em autogestão democrática, indústrias sob o controle dos trabalhadores, e o fortalecimento radical das mulheres.

Os revolucionários espanhóis esperavam criar uma visão de uma sociedade livre que todo o mundo pudesse seguir. Em troca, as potencias mundiais declararam uma política de "não intervenção" e mantiveram um bloqueio rigoroso da república, inclusive depois que Hitler e Mussolini, signatários ostensivos, começaram a mandar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado foram anos de guerra civil que terminou com a derrota da revolução e alguns dos massacres mais sangrentas de um século sangrento.

Eu nunca pensei que veria, em minha própria vida, ocorrer a mesma coisa. Obviamente, nenhum acontecimento histórico sucede realmente duas vezes. Há mil diferenças entre o que ocorreu na Espanha em 1936 e que está acontecendo em Rojava, as três províncias curdas em grande parte do norte da Síria, hoje. Mas algumas das semelhanças são tão surpreendentes, e tão angustiantes, que sinto que me incumbe, como alguém que cresceu em uma família cuja política eram em muitos aspectos definida pela revolução espanhola, dizer: Não podemos deixar que termine da mesma maneira outra vez.
A região autônoma de Rojava, tal como existe hoje em dia, é um dos poucos pontos brilhantes - na realidade um muito brilhante - que emergiram da tragédia da revolução síria. Depois de haver expulsado os agentes do regime de Assad em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos seus vizinhos, Rojava não só mantém sua independência, mas é um notável experimento democrático. As assembleias populares foram criadas como os órgãos de tomadas de decisão em última instância, os conselhos são selecionados com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três altos oficiais tem que incluir um curdo, um árabe e outro cristão sírio ou armênio, e ao menos um dos três tem que ser uma mulher), existem conselhos juvenis e de mulheres e, em um notável eco da organização armada Mujeres Libres da Espanha, um exército feminista, a mítica "YJA Estrela" (a "União de Mulheres Livres", a estrela faz referência à antiga deusa da mesopotâmia Ishtar), que levou a cabo uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado Islâmico.

Como pode ocorrer algo assim e, todavia ser quase totalmente ignorado pela comunidade internacional, incluindo, em grande parte, pela esquerda internacional? Principalmente, ao parecer, devido a que o partido revolucionário de Rojava, o PYD, trabalha em aliança com os Trabalhadores curdos da Turquia (PKK), um movimento guerrilheiro marxista que desde os anos de 1970 esteve envolvido com uma grande guerra contra o Estado turco. A OTAN, os EUA, e a União Europeia o classificam oficialmente como uma organização "terrorista". Enquanto isso, os esquerdistas em grande maioria os descrevem como stalinistas.

Mas na realidade, o próprio PKK já não é nada remotamente parecido com o velho partido leninista vertical que uma vez foi. Sua própria evolução interna, e a conservação intelectual do seu fundados, Abdullah Ocalan, que esteve em uma prisão em uma ilha turca desde 1999, o levou a trocar por completo seus objetivos e táticas.

O PKK declarou que já nem sequer trata de criar um estado curdo. Em seu lugar, inspirado em parte pela visão do ecólogo e anarquista Murray Bookchin, adotaram a visão de "municipalismo libertário", chamando os curdos a criarem comunidades livres, autônomas, baseadas nos princípios da democracia direta. que logo se uniriam através de fronteiras nacionais - as quais se espera que se tornem progressivamente insignificantes. Desta forma, propuseram, a luta curda poderia se converter em um modelo para um movimento mundial até uma autêntica democracia, economia cooperativa, e a dissolução gradual da nação-estado burocrática.
Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um alto ao fogo unilateral com o Estado turco e começou a concentrar seus esforços no desenvolvimento de estruturas democráticas e os territórios que já controlavam. Alguns questionam o quão isso é sério na realidade. Claramente permanecem elementos autoritários. Mas o que se sucedeu em Rojava, onde a revolução síria deu aos radicais curdos a oportunidade de levar a cabo tais experimentos em um grande território, ao lado, sugere que isto é qualquer coisa menos uma fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares se formam, a propriedade do regime foi entregue às cooperativas administradas pelos trabalhadores - e tudo isso apesar dos contínuos ataques por parte das forças de extrema direita do ISIS. Os resultados cumprem com qualquer definição de uma revolução social. No Oriente Médio, pelo menos, estes esforços se fazem notar: Sobretudo depois que as forças do PKK e Rojava interviram para abrir-se exitosamente um caminho através do território do ISIS no Iraque para resgatar os milhares de refugiados yezidis presos no Monte Sinjar depois que os peshmerga locais fugiram do campo. Estas ações foram amplamente celebradas na região, mas notavelmente quase não chamou a atenção da imprensa europeia e estadunidense.

Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques de fabricação estadunidense e artilharia pesada tomadas das forças iraquianas, para se vingarem contra muitas dessas mesmas milícias revolucionárias em Kobané, declarando sua intenção de massacrar e escravizar - sim, literalmente escravizar - toda a população civil. Enquanto isso, o exército turco está na fronteira evitando que reforços ou munições cheguem aos defensores, e os aviões norte-americanos passam por cima zombando, lançando alguns ocasionais, simbólicos e diminutos bombardeios - ao parecer, só para poder dizer que não é certo que não fizeram naca como um grupo que diz estar em guerra com os defensores de um dos grandes experimentos democráticos do mundo.

Se há um paralelo hoje com os superficiais devotos, falangistas assassinos de Franco, quem seriam senão ISIS? Se há um paralelo com as Mujeres Libres da Espanha, quem poderiam ser senão as mulheres valentes que defendem as barricadas em Kobané? O mundo - e mais escandalosamente, a esquerda internacional - será realmente cúmplice de deixar que a história se repita?



Tradução de: http://zip.net/brpPyy
Acompanhe pelo facebook a resistência curda pela página Anarchists in Support of Rojava-Kurdistan: http://zip.net/bmpN7Y

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Em tempos de eleições, um convite à anarquia



A primeira indicação que dou é que os que observarem este link, que leiam. A palavra “anarquia” carrega consigo amargos significados que passam longe de ser o que é em realidade. O texto pode trazer, suponho eu, uma reflexão interessante à tod@s.

A descrença com o sistema eleitoral é visível. Uns, já o condenaram em sua totalidade, outros, lutam para se segurar nele elegendo “o menos pior”, ou “o que rouba, mas faz”; há ainda os que acreditam que com a escolha de um partido de “esquerda”, será possível uma modificação radical da sociedade. Acredito na sinceridade de cada um deles, e tento agora apresentar uma outra via, uma outra possibilidade que suponho poder dar outra perspectiva de todo o jogo de cartas marcadas que chamam de “eleições”.

A primeira pergunta que faço é: Qual o motivo de votarmos? Creio particularmente que esse movimento involuntário acontece devido ao slogan de que só existe política através do voto. Não é bem assim. Fazemos política de todas as formas possíveis, desde as decisões mais simples até as mais elaboradas. Este texto, aliás, é um texto político, pois emite uma opinião, uma ideia que busca ser reproduzida na realidade. Somos todos políticos! Não políticos profissionais, que vivem de palanques, bancadas, discursos vagos, etc., Somos políticos pois vivemos em sociedade, que exige nossa interação, nossa participação, e declaramos por isso que existe política além do voto! Querem reduzir a participação popular neste gigante teatro a uma mísera sequência de digitações de números.

Podemos citar infinitos casos onde a política que defendemos foi exercida em pequena, média e longa escala. Desde as assembleias estudantis, a casos onde toda uma população se juntou para fazer o encanamento de esgoto que a prefeitura negou realizar, assim como em Chiapas, onde o povo governa sem terem governantes, e se submete sem serem governados, através dos caracoles nos agrupamentos do Ejercito Zapatista de Liberación Nacional.

A lenda de que precisamos de governos, ou de governantes é uma mentira, uma farsa. Temos o potencial de decidir e fazer por nós mesmos.

A segunda pergunta que fazemos é: “Votar nulo” ou “não votar” muda algo? Em minha opinião, virtualmente sim; demonstra uma insatisfação com as metodologias de escolha de governantes, ou mesmo põe em xeque a necessidade de governantes; pode também indicar que nenhum dos que se colocaram a “disposição” representam os interesses de determinado indivíduo – o que automaticamente mostra a desigualdade deste sistema que privilegia uns, e exclui outros –. Mas isso só não basta. Na realidade, chega a ser ínfimo este “protesto”.

A propaganda anarquista sobre as eleições carrega consigo uma face destrutiva, e outra construtiva: Respectivamente, a primeira é inerente a campanha do não voto ou do voto nulo. Mas é preciso de uma resposta, uma consequência a este ato. Diante disso, surge a proposta de autogoverno: Criação de assembleias de bairro, fortalecimento de grêmios estudantis, centros acadêmicos, sindicatos, onde aqueles indivíduos que compõem aquele grupo possam opinar e modificar a realidade juntos.

Indicamos não votar ou votar nulo para “destruir” esta máquina de desigualdades em massa, e “construir” uma nova possibilidade de organização e política. É importantíssimo negar isto que nos oferecem como política através do voto nulo, ou mesmo não indo votar, mas o que queremos não acaba aí; na verdade, é apenas o começo do que pretendemos de verdade.

Nestes tempos de campanha eleitoral, entre o barulho dos carros de som, das bandeirinhas, dos santinhos distribuídos, dos comícios e debates infrutíferos onde se fala muito e não se faz nada, fazemos um convite sincero à reflexão e à ação; não ao “voto nulo” ou o “não voto” de forma vaga e sem efeitos; fazemos um convite à anarquia, a luta por um método organizativo onde tod@s decidam a melhor forma de resolver os próprios problemas, e façam a mudança que desejam por si mesmos, em coletividade, assim como não permitir que um ser humano viva do suor de outro ser humano.

NÃO VOTE, ORGANIZE-SE E LUTE!
O POVO VENCERÁ!

- Edgar Rodrigues, GEAPI.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Como votam os anarquistas?



Disponibilizamos um texto desenvolvido por um militante da Federação Anarquista Gaúcha, Evandro Couto, que consegue de forma simples explicar os motivos pelos quais os anarquistas não votam, o que definitivamente não significa abandonar a política, mas sim realizá-la em sua forma legítima.  


Quando em todo Brasil as eleições nacionais vem chegando e agitam de novo a cena da política somos provocados a escrever sobre este tema que, sem dúvidas, será um acontecimento de atração.

Para discutir aqui de um outro modo, para além da oferta de candidatos da campanha.

Os velhos socialistas já nos deixaram ferramentas de análise crítica, que tem vigência em muitos aspectos, a respeito de como opera o mecanismo eleitoral na conservação e reprodução das estruturas do poder.

A esquerda brasileira nos últimos 20 anos fez uma experiência política de obrigatória referência jogando suas forças nos pleitos, conquistando bancadas e administrando instituições da democracia formal.

Que as eleições, na escala que sejam feitas, nos dão uma medida relativa da formação das opiniões entre os eleitores, indicam tendências, conformação de interesses, valores e esperanças na sociedade, é bom ter presente.

Mas reconhecer indicadores não é o mesmo que validar os seus resultados para uma estratégia de mudança social. O voto não dá necessariamente uma medida da organização dos de baixo, da consciência política e capacidade de luta por objetivos de classe.

Muita energia da esquerda já virou fumaça na história por causa desse engano.

Votar para os anarquistas é um assunto mal explicado, por responsabilidade de uma linha de propaganda que fez a abstenção ou o voto nulo aparecer como uma questão de princípios.

Os anarquistas não formam um partido da democracia burguesa e respondem na conjuntura eleitoral pela tática do voto nulo ou da abstenção por uma atitude política que pretende guardar relações de coerência com uma estratégia de poder popular.

Chamar a anular sem fazer prioridade ao trabalho de organização popular é pedir o voto como fazem os partidos integrados no sistema. Não é o voto em si, como mecanismo decisório da sociedade, que é o problema, o problema é para qual estrutura de poder ele funciona.

As eleições burguesas não mudam a sociedade, trocam os políticos de turno, mas o poder continua o mesmo, operando nas desigualdades sociais e reproduzindo dominação de classe.

O problema fundamental da democracia no sistema capitalista, como foi criticada pela corrente libertária, é que a igualdade política do direito liberal burguês fica negada pela desigualdades sociais e econômicas da realidade. A democracia burguesa é um regime de direitos onde o poder e a riqueza das classes dominantes são sempre mais decisivos.

Qual é a liberdade de escolha de um sujeito que sofre a pressão concreta da pobreza e todas as privações econômicas e culturais desta condição, perguntava Bakunin.

O anarquista da velha guarda concluía que o voto, “enquanto seja exercido em uma sociedade em que o povo, a massa dos trabalhadores, esteja economicamente dominado por uma minoria detentora da propriedade e do capital, por independente que seja por outra parte ou que o pareça desde o ponto de vista político, não poderá nunca produzir mais que eleições ilusórias, antidemocráticas e absolutamente opostas as necessidades, aos instintos e a vontade real dos povos.”

O regime democrático nunca teve lugar seguro na carta de princípios do capitalismo. Na história recente da América Latina quando o poder esteve a ponto de escapar das mãos das classes dominantes e do imperialismo eles preferiram a ditadura dos militares para proteger seus interesses do que jogar sua sorte pelos direitos democráticos.

O cenário da abertura deu nova circulação para ideologia liberal burguesa e fez seus conceitos penetrarem nas lutas políticas da esquerda. As liberdades públicas peleadas contra a ditadura se confundiram no programa dos partidos de base operária e popular com a defesa da democracia burguesa e das suas regras como único terreno para buscar mudanças na política.

Começa uma história que bem conhecemos no Brasil e em países vizinhos.

Evandro Couto, militante da FAG.

fonte:
http://www.vermelhoenegro.co.cc/2010/03/como-votam-os-anarquistas.html