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segunda-feira, 23 de março de 2015

Lançamento de livreto: Um programa e fuzis - Textos escolhidos sobre a Agrupação Amigos de Durruti



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"Saudações socialistas libertárias!

Mais uma vez o GEAPI – Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí disponibiliza textos no intuito de engrandecer e ampliar as perspectivas ácratas em língua portuguesa.
Desta vez, trazemos a público uma discussão pouco conhecida dentro dos círculos anarquistas nacionais e internacionais. Aos que começam a debruçar-se sobre a teoria e o movimento ácrata, por vezes encontram textos, enciclopédias, e livros tidos como “bíblias do anarquismo” que trazem um episódio histórico em que os socialistas libertários tiveram uma imensa participação: A Guerra Civil Espanhola.

Em quase todas estas, aponta-se motivos diversos que causaram a derrota da Revolução: Complôs e intervenções stalinistas, franquistas, estadunidenses; a falta de mantimentos para a luta armada; sabotagens realiza-das por agrupamentos trotskistas; mas em nenhum momento, a teoria defendida pela CNT-FAI (Confederação Nacional do Trabalho – Federação Anarquista Ibérica) para a Guerra Civil é colocada a prova, ou apontada como causae mortis daquela grandiosíssima insurreição popular.

Mas qual a teoria defendida pela CNT-FAI? Quem nos responde é a “Agrupação Amigos de Durruti”: Nenhuma; e por conta disso, ela capitulou ante a “Frente Popular”, abrindo espaço para todos os tipos de contrarrevolucionários. Segundo “Os Amigos de Durruti”, quem deixou escapar a Revolução (e por vezes a sufocou) foi a própria CNT-FAI, mantendo inúmeros militantes das duas organizações em ministérios do governo provisório, como Frederica Montseny e Diego Abad de Santillán.

Mais que um debate teórico, a crítica dos “Amigos de Durruti” às duas maiores organizações revolucionárias da Península Ibérica, é um chamado à autocrítica sincera e profunda do movimento anarquista como um todo, em seus vários enfrentamentos internos, como os coletivistas e anarco-comunistas, os sintetistas e os plataformistas, e atualmente, os anarcossindicalistas estadunidenses e os socialistas libertários turcos do DAF (Ação Anarquista Revolucionária).

As aparências enganam. O anarquismo não é tão homogêneo como apontam os autores George Woodcock e Max Nettlau, e para organizações anarquistas, presentes e futuras, é essencial considerar as proposições apontadas, não como uma imposição, mas uma necessidade teórica".

segunda-feira, 9 de março de 2015

Mikhail Bakunin - Idealismo e Materialismo




Introdução do GEAPI
Saudações socialistas e libertárias!
O GEAPI, Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí disponibiliza hoje mais um capítulo do primeiro tomo do livro Escritos de Filosofía Política, uma compilação de textos de Mikhail Bakunin realizada por G. P. Maximoff.
No presente texto, Bakunin traça paralelos entre o idealismo e o materialismo, realizando esta análise baseado no desenvolvimento histórico do pensamento humano coletivo e trazendo características de ambos os sistemas, contrapondo a todo instante um ao outro.
Mais uma vez, impulsionamos a obra de Bakunin para demonstrar a injustiça pela qual o autor foi acusado durante dezenas de anos: A suposta falta de teoria.
Esperamos sinceramente, dentro dos nossos limites, apresentar a contradição dessa afirmação, assim como auxiliar pesquisadores e militantes a compreender um pouco mais sobre as ideias desenvolvidas por Mikhail Alexandrovich Bakunin.
Boa leitura!

Desenvolvimento do mundo material*. O desenvolvimento gradual do mundo material, assim como da vida orgânica animal e da inteligência historicamente progressiva do homem tanto individual como social é perfeitamente concebível. Constitui um movimento inteiramente natural desde o simples ao complexo, desde o inferior ao superior, e desde baixo até o alto; um movimento conforme nossa experiência cotidiana e de acordo com nossa lógica natural, com as leis de nossa mente, a qual, ao se formar, e desenvolvido somente com ajuda desta mesma experiência, não é senão sua reprodução na mente e no cérebro, sua pauta imediata.

O sistema dos idealistas. O sistema dos idealistas é praticamente o oposto. Constitui a completa inversão de toda a experiência humana e de todo o sentido comum universal e geral, que constitui a condição necessária de qualquer entendimento entre os homens que, elevando-se desde a verdade simples e unanimemente admitida de que dois mais dois são quatro até as especulações científicas mais sublimes e complicadas sem admitir, afinal, nada que não seja estritamente confirmado pela experiência e pela observação dos fatos e fenômenos, se transforma na única base do conhecimento humano.

O caminho dos metafísicos. O caminho seguido pelos cavalheiros da escola metafísica é inteiramente diferente, e por metafísicos não nos referimos aos seguidores da doutrina hegeliana, escassos na atualidade, mas também aos positivistas e a todos os partidários atuais da deusa ciência; e, da mesma forma, todos aqueles que, precedendo por diversos meios, até pelo estudo mais árduo, ainda que necessariamente imperfeito do passado e do presente, levantaram um ideal de organização social onde querem enquadrar todas as coisas, como na cama de Procrustes, a vida de gerações futuras; já todos os que, em uma palavra, não consideram o pensamento e a ciência como manifestações necessárias da vida natural e social, senão que reduzem nossa pobre vida até o extremo de ser ela somente a manifestação prática de seu próprio pensamento e sua própria e imperfeita ciência.

O método do idealismo. Em vez de perseguir a ordem natural do inferior ao superior, desde o mais baixo ao mais alto, desde o relativamente simples ao mais complexo, em vez de perseguir sábia e racionalmente o movimento progressivo e real, desde o mundo chamado inorgânico até o mundo orgânico, do reino vegetal, a sua continuação no reino animal, e por último, ao mundo especificamente humano; em vez de seguir o movimento desde a matéria ou a atividade química até a matéria, ou a atividade vivente, e desde a atividade vivente ao ser pensante, os idealistas, obcecados, cegos e impelidos pelo divino fantasma que herdaram da teologia, tomam precisamente o caminho oposto.
Começaram com Deus, apresentando-o como uma pessoa ou como uma substância divina, e o primeiro passo que dão é uma terrível queda desde as sublimes alturas do ideal eterno até o pântano do mundo material; da perfeição absoluta à imperfeição absoluta; do pensamento ao ser, ou melhor, do Ser Supremo à pura nulidade.

O Idealismo e o Mistério da Divindade. Quando, como ou porque o Ser Divino, eterno, infinito, absolutamente perfeito (e provavelmente entediado de si mesmo) decidiu, dar este desesperado salto mortal é algo que nenhum idealista, nenhum teólogo, nenhum metafísico nem nenhum poeta foi capaz de explicar ao laico nem de ele mesmo compreender. Todas as religiões, passadas ou presentes, e todos os sistemas de filosofia transcendental, giram ao redor deste mistério único e iníquo.
Os homens sagrados, os legisladores inspirados pela divindade, os profetas e os messias buscaram em toda a vida, descobrir unicamente o tormento da morte. Como a antiga Esfinge, o mistério os devorou, porque seriam incapazes de explica-lo. Grandes filósofos, de Heráclito à Platão, até Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, Lichte, Schelling e Hegel, para não citar os filósofos indianos, escreveram enormes quantidades de volumes e construíram sistemas tão geniais quanto sublimes, onde dizem do passado muitas coisas grandes e belas, e onde descobrem verdades imortais, mas deixam este mistério o objeto principal de suas investigações transcendentais, tão insondável como antes, e se os gigantescos esforços dos mais prodigiosos gênios conhecidos pelo mundo, que ao longo de trinta séculos pelo menos, empreenderam um atrás do outro este trabalho de Sísifo, só conduziram a fazer todavia mais incompreensível este mistério, como esperar que nos seja desvelado pelas especulações, faltas de inspiração de algum discípulo pedante, ou de uma metafísica artificialmente reaquecida? E tudo isto durante um tempo em que todos os espíritos vivos e sérios se apartam da ambígua ciência que apareceu como efeito de um compromisso – sem dúvida explicável historicamente entre a injustiça da fé e a sensata razão científica.
É evidente que este terrível mistério não pode se explicar, o qual significa que é absurdo, pois só o absurdo rechaça a explicação. É evidente que quem o considere essencial, para sua vida e felicidade deve renunciar a sua razão e voltar, se puder, a fé ingênua, cega e primitiva, repetindo com Tertuliano e todos os sinceros crentes as palavras que resumem a quintessência da teologia: Credo quia adsurdum (creio porque é absurdo). Então cessa toda discussão, e só permanece a triunfante estupidez da fé.

As contradições do idealismo. Os idealistas não tem seu forte na lógica, e poderia dizer-se que a desprezam. Esta atitude os distingue dos metafísicos pertencentes a escola panteísta e deísta e outorga a suas ideias o caráter do idealismo prático, que não extrai sua inspiração tanto de um rigoroso desenvolvimento do pensamento como da experiência quase diria que, das emoções históricas, coletivas e individuais da vida. Isto proporciona a sua propaganda um aspecto de opulência e poder vital, mas só um aspecto; porque a vida mesma se faz estéril quando se vê paralisada por uma contradição lógica.
Esta contradição consiste no seguinte: Querem a Deus, e querem a humanidade. Persistem em conectar ambos os termos que, uma vez separados, não podem vincular-se sem uma recíproca destruição. Afirmam ao mesmo tempo “Deus e a liberdade do homem” ou “Deus e a dignidade, justiça, igualdade, fraternidade e bem estar dos homens”, sem pagar tributo à lógica fatal em virtude da qual se Deus existe, todas essas coisas estão condenadas à inexistência.
Porque se Deus é, é necessariamente o Senhor eterno, supremo e absoluto, e se existe um amo semelhante, o homem é um escravo. Agora, se o homem é um escravo, nem a justiça, nem a igualdade, nem a fraternidade, nem a prosperidade são possíveis à ele.
Eles (os idealistas), desafiando a sensatez e toda a experiência histórica, podem representar o seu Deus como um ser animado pelo mais terno amor pela liberdade humana; mas um senhor, faça o que for, e por mais liberal que queira parecer, será sempre um senhor, e sua existência implicará necessariamente a escravidão de todos os que estão abaixo dele. Em consequência, se Deus existisse, só poderia favorecer a liberdade humana de um modo: Deixando de existir.
Sendo um zeloso amante da liberdade humana, e considerando-a condição necessária para tudo o quanto, admiro e respeito na humanidade, inverto o aforismo de Voltaire e digo: “Se Deus existisse realmente, seria necessário aboli-lo”.

Os defensores contemporâneos do idealismo. Com exceção dos corações e espíritos grandes, mas estragados, a quem já me referi, quem são atualmente os mais obstinados defensores do idealismo? Em primeiro lugar, todas as casas reinantes e seus cortesãos. Na França foi Napoleão III e sua esposa Madame Eugenie; foram também seus antigos ministros, cortesãos e marechais, desde Rouher e Bazaine, até Fleury e Pietri; os homens e mulheres deste mundo imperial fizeram um bom trabalho idealizando e salvando a França; jornalistas e sábios, como os Cassagnacs, os Girardins, os Duvernois, Os Veuillots, os Leverriers, os Dumas; a falange negra de jesuítas masculinos e femininos, sejam quais forem suas roupas, toda nobreza, assim como a alta e a média burguesia da França; os liberais doutrinários e os liberais sem doutrina; os Guizots, os Thierses, os Jules Favres, os Pelletans e os Jules Simons, todos eles ásperos defensores da exploração burguesa. Na Prússia, na Alemanha, é Guilherme I, atual representante do Senhor Deus sobre a Terra; todos seus generais, seus funcionários, os de Pomerania e os outros; todos são do exército que, firme em sua fé religiosa, acaba de conquistar a França do modo “ideal” que chegamos a conhecer tão bem. Na Rússia é o Czar e sua corte; os Maravievs e os Bergs, todos os carniceiros e devotos convertidos da Polônia.

O idealismo é a bandeira da força bruta. Em resumo, por todas as partes o idealismo religioso ou filosófico (pois um é simplesmente uma interpretação mais ou menos livre do outro) serve como bandeira da força material, brutal e sangrenta, da exploração material desavergonhada.

O materialismo é a bandeira de igualdade econômica e da justiça social. Pelo contrario, a bandeira do materialismo teórico, a bandeira vermelha da igualdade econômica e da justiça social, é implantada pelo idealismo prático das massas oprimidas e famélicas que tentam por em prática a mais alta liberdade e realizar o direito de cada indivíduo em fraternidade de todos os homens sobre a terra.

Os verdadeiros idealistas e materialistas. Quem são os verdadeiros idealistas, não os idealistas da abstração mas sim os da vida, não os idealistas do céu, mas sim os da terra e quem são os materialistas?
É evidente que a condição essencial do idealismo teórico ou divino é o sacrifício da lógica e da razão humana, e a renúncia da ciência. Por outro lado, ao defender as doutrinas do idealismo nos vemos arrastados ao campo dos opressores e exploradores das massas. São duas grandes razões que, ao que parece, deveriam ser suficientes para afastar o idealismo de qualquer grande espírito ou de todo grande coração. Como entender que nossos ilustres idealistas contemporâneos, a quem sem dúvida não falta nem espírito, nem coração, nem boa vontade, que tem colocado suas vidas a serviço da humanidade, persistam em estar entre os representantes de uma doutrina condenada e desonrada?
Devem ser impulsionados por motivos muito fortes.
Estes motivos não podem corresponder a lógica nem a ciência, porque a lógica e a ciência pronunciaram seu veredicto contra a doutrina idealista e é razoável pensar que os interesses pessoais não podem contar entre seus motivos, porque essas pessoas estão infinitamente por cima dos interesses particulares. Deve existir então um poderoso motivo de ordem moral. Qual? Só pode ser um: Estas pessoas tão inteligentes pensam, sem dúvidas, que as teorias e crenças idealistas são essenciais para a dignidade e a grandeza moral do homem, e que as teorias materialistas os conduzem ao nível de besta.

Mas, e se fosse justamente o contrário? Todo desenvolvimento implica a negação de seu ponto de partida, e posto que o ponto de partida é material, segundo a doutrina da escola materialista, a negação deve ser necessariamente ideal. Começando pela totalidade do mundo real, ou pelo que se denomina abstratamente de matéria, o materialismo chega logicamente a verdadeira idealização, isto é, a humanização, a plena e completa emancipação da sociedade. Por outro lado, e pela mesma razão, o ponto de partida da escola idealista é ideal e chega necessariamente a materialização da sociedade, a organização de um despotismo brutal e uma exploração vil e iníqua nas formas da Igreja e do Estado. O desenvolvimento histórico do homem com base na escola materialista é uma progressiva ascensão, enquanto o sistema idealista não pode ser mais que uma contínua queda.

Pontos de divergência entre materialismo e idealismo. Seja qual for a questão relativa ao homem que examinemos, sempre chegaremos a mesma contradição básica entre essas duas escolas. O materialismo começa pela animalidade para chegar a estabelecer a humanidade; o idealismo começa pela divindade para chegar a estabelecer a escravidão, e condenar as massas a uma animalidade perpétua.

O materialismo nega o libre arbítrio e termina no estabelecimento da liberdade. O idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o libre arbítrio e descobre a autoridade sobre as ruínas de toda liberdade. O materialismo rechaça o principio da autoridade, concebendo-o frontalmente como corolário da animalidade e crendo, pelo contrario, que o triunfo da humanidade – considerado pelo materialismo como o objetivo principal e como o significado da história só pode se realizar através da liberdade. Em uma palavra, ao tratar de qualquer questão, sempre encontraremos ao idealista afundado no materialismo prático, enquanto que sempre veremos o materialismo perseguindo e realizando as aspirações e pensamentos mais ideais.
O idealismo é o déspota do pensamento, do mesmo modo que a política é a déspota da vontade. Só o socialismo e a ciência positiva mostram o devido respeito para a Natureza e a liberdade dos homens.

O marxismo e suas falácias. A escola doutrinária de socialistas, ou melhor, os comunistas estatais da Alemanha… Representam uma escola bastante respeitável, circunstancia que não a exime, sem dúvida, de cair ocasionalmente em erros. Uma de suas falácias principais é ter como base teórica um principio completamente certo quando se concebe de maneira apropriada, isto é, de um ponto de vista relativo, mas que se volta radicalmente falso quando o considera isolado das demais condições e se mantém como o único fundamento e fonte primária de todos os demais princípios, segundo acontece nessa escola.
Este principio, que constitui o fundamento essencial do socialismo positivo, recebeu pela primeira vez sua formulação científica e seu desenvolvimento do Sr. Karl Marx, chefe principal dos comunistas alemães. Constitui a ideia dominante do famoso Manifesto Comunista.
Marxismo e idealismo. Este principio se encontra em contradição absoluta com o principio admitido pelos idealistas de todas as escolas. Enquanto os idealistas deduzem todos os fatos históricos incluindo o desenvolvimento de interesses materiais e os diversos estágios de organização econômica da sociedade e do desenvolvimento das ideias, os comunistas alemães veem em toda a história e nas manifestações mais ideias da vida humana tanto coletiva como individual, em todos os desenvolvimentos intelectuais, morais, religiosos, metafísicos, científicos, artísticos, políticos e sociais acontecidos no passado e no presente só o reflexo ou o resultado inevitável do desenvolvimento dos fenômenos econômicos. 
Enquanto que os idealistas consideram as ideias como fonte produtora e dominante dos fatos, os comunistas, plenamente de acordo com o materialismo científico, mantém, ao contrario, que os fatos produzem as ideias, e que as ideias são sempre unicamente o reflexos ideais dos acontecimentos; que o conjunto total de fenômenos, os fenômenos econômicos materiais constituem a base essencial, o fundamento primário, enquanto todos os demais fenômenos intelectuais e morais, políticos e sociais aparecem como derivados necessariamente dos primeiros.

Quem está certo, os idealistas ou os materialistas? Quem está certo? Os idealistas ou os materialistas? Quando a pergunta de traça dessa forma, a dúvida resulta impossível. Indubitavelmente os idealistas estão equivocados e os materialistas estão certos. Sem dúvidas, os fatos vêm antes que as ideias, sem dúvidas, como disse Proudhon, o ideal não é senão a flor cujas raízes estão enterradas nas condições materiais de existência. Sem dúvidas, toda história intelectual e moral, política e social humana não é senão o reflexo de sua história econômica.
Todos os ramos da ciência moderna, de uma ciência minuciosa e séria, estão de acordo em proclamar esta grande verdade, básica e decisiva: O mundo social, o mundo puramente humano, a humanidade, não é senão o último e supremo desenvolvimento pelo menos no que diz respeito a nosso próprio planeta e a mais alta manifestação da animalidade. Mas assim como o desenvolvimento implica necessariamente a negação de sua base ou ponto de partida, a humanidade é ao mesmo tempo a negação acumulativa do princípio animal no homem, e é precisamente esta negação, tão racional como natural, e racional precisamente por ser natural a um tempo histórico e logico, tão inevitável como o desenvolvimento e a consumação de todas as leis naturais do mundo o que constitui e cria o real, o mundo e as convicções intelectuais e morais, o mundo das ideias.

O primeiro dogma do materialismo. “Mazzini” afirma que os materialistas são ateus. Nada temos que falar sobre isso porque de fato somos ateus, e nos orgulhamos disso, ao menos na medida em que pode permitir-se o orgulho a indivíduos miseráveis que como ondas se elevam por um momento e logo desaparecem no vasto oceano coletivo da sociedade humana. Nos orgulhamos disso porque o ateísmo e o materialismo são a verdade, o melhor, a efetiva base da verdade, e também porque desejamos a verdade e somente a verdade por cima de todos os demais e por cima das consequências práticas e além disso cremos que apesar das aparências, apesar das covardes insinuações de uma política de cautela e ascetismo, só a verdade trata consigo um bem-estar prático pra o povo.
Este é o primeiro dogma de nossa fé. Mas olhe adiante, até o futuro, e não para trás.

O segundo dogma do materialismo. De todas as formas, “Mazzini” não se conforma com nosso ateísmo e materialismo; deduz dele que não podemos amar as pessoas nem respeitá-las por suas virtudes; que as grandes coisas que fizeram vibrar os mais nobres corações – a liberdade, a justiça, a humanidade, a beleza, a verdade dever ser todas tiradas de nós, e que obrigando sem meta alguma nossa miserável existência – arrastando-nos mais que andando direito sobre a terra não temos preocupação alguma salvo gratificar nossos primitivos e sensuais apetites.

E nós lhe dizemos, venerável, mas injusto mestre “Mazzini”, que está em um lamentável erro. Quer saber em que medida amamos estas coisas grandes e belas, cujo conhecimento e amor nos nega? Entende que nosso amor por elas é tão forte que de todo coração estamos doentes e cansados vendo-as para sempre suspensas em seu céu que as roubou da terra como símbolos e promessas nunca cumpridas. Já não nos contentamos com a ficção dessas belas coisas; as queremos em realidade.
E aqui está o segundo dogma de nossa fé, ilustre mestre. Cremos na possibilidade e na necessidade da miserável concretização sobre a terra; e ao mesmo tempo, estamos convencidos de que todas estas coisas que você venera como esperanças celestiais perderão necessariamente seu caráter místico e divino quando se converterem em realidades humanas e terrestres.

A matéria do idealismo. Vós pensais que havia desfeito completamente de nós chamando-nos de materialistas. Pensava que assim nos condenava e esmagava. Mas vós sabeis de onde provém esse erro sujo? O que você e nós chamamos de matéria são duas coisas totalmente distintas, dois conceitos totalmente diferentes. Sua matéria é uma identidade fictícia como seu Deus, como seu Satã, como sua alma infinita. Sua matéria é grosseria infinita, brutalidade inerte, uma entidade tão impossível como o espírito puto, incorpóreo e absoluto; os dois existem só como invenções da abstrata fantasia dos teólogos e metafísicos, únicos autores e criadores de ambos os inventos. A história da filosofia nos revelou o processo – de fato um processo simples de criação inconsciente desta ficção, a origem desta fatal ilusão histórica, que durante o vasto transcurso de muitos séculos pende gravemente, como um terrível pesadelo, sobre as mentes oprimidas de gerações humanas.

O espírito e a matéria. Os primeiros pensadores foram necessariamente teólogos e metafísicos, pois a mente humana está constituída de tal maneira que sempre deve começar com uma grande margem de absurdos, falsidade e erros para conseguir chegar a uma pequena porção de verdade. Todo o qual não fala em favor das tradições sagradas do passado. Os primeiros pensadores, digo, tomaram a soma de todos os seres reais conhecidos por eles, incluindo eles mesmos, a soma de tudo o que lhes parecia representar a força, o movimento, a vida e a inteligência, e chamaram de “espírito”. Todo o resto de que sua mente tinha abstraído inconscientemente do mundo real, chamaram-no de matéria, e então se assombraram que esta matéria que existia somente em sua imaginação, como o próprio espírito, fosse tão inativa, não estúpida frente a seu Deus, o puro de espírito.

A matéria dos materialistas. Admitamos francamente que não conhecemos a seu Deus, mas tampouco conhecemos sua matéria; ou, melhor ainda, sabemos que nenhum dos dois conceitos existe, sim que foram criados a priori pela fantasia especulativa de pensadores ingênuos de épocas passadas. Com as palavras matéria e material queremos indicar a totalidade, a hierarquia dos entes reais, começando pelos corpos orgânicos mais simples e acabando com a estrutura e o funcionamento do cérebro dos maiores gênios; os sentimentos mais sublimes, os maiores pensamentos, os atos mais heroicos, atos de auto sacrifício, deveres tanto como direitos, a voluntária renúncia ao próprio bem-estar, ao próprio egoísmo até as aberrações transcendentais de Mazzini, assim como as manifestações da vida orgânica, as propriedades e ações químicas, a eletricidade, a luz, o calor, a gravidade natural dos corpos, o que constitui, a nosso entender, um conjunto muito diferenciado, mas ao mesmo tempo estritamente relacionado, de evoluções dentro dessa totalidade do mundo real que denominamos material.

O materialismo não é um panteísmo. E observe-se que bem que não consideremos a esta totalidade como uma espécie de substância absoluta e eternamente criativa, ao modo, dos panteístas, mas sim como um perpétuo resultado produzido e reproduzido de novo pela concorrência de uma infinita série de ações e reações, pelas incessantes transformações dos seres reais que nascem e morrem como o seio desta infinitude.

A matéria compreende o mundo ideal. Resumirei: Indicamos com a palavra material tudo o que acontece no mundo real, dentro e fora do homem, e aplicamos a palavra ideal exclusivamente aos produtos da atividade cerebral do homem; mas posto que nosso cérebro é por inteiro uma organização de ordem material e sua função é também material, como a ação de todas as demais coisas, se deduz dele que o que chamamos de matéria ou mundo material não exclui de modo algum, mas sim que inclui necessariamente também o mundo ideal.

Materialistas e idealistas na prática. Aqui está. Um fato que merece uma atenta reflexão por parte de nossos adversário platônicos. A que se deve que os teóricos do materialismo acostumem-se a se demostrarem na prática mais idealistas que os próprios idealistas? Este paradoxo é, de todas as formas, bastante lógico e natural. Porque todo desenvolvimento implica em alguma medida uma negação do ponto de partida; os teóricos do materialismo começam com o conceito de matéria e desembocam na ideia, enquanto os idealistas, que adotam como ponto de partida a ideia pura e absoluta, reiterando constantemente o velho mito do pecado original única expressão simbólica de seu próprio e triste destino recaem teórica e praticamente no domínio da matéria que, ao seu entender, nos tem irremissivelmente entrelaçados em nós, e que matéria! Uma matéria brutal, ignóbil e estúpida, criada por sua própria imaginação como seu alter ego, ou como a reflexão do seu ideal.
Do mesmo modo, os materialistas, que sempre harmonizaram suas teorias sociais com o curso efetivo da história, concebem o estágio animal, o canibalismo, e a escravidão como os primeiros pontos de partida no movimento progressivo da sociedade; mas a que apontam? O que querem? Querem a emancipação, a plena humanização da sociedade; enquanto que os idealista, adotando a premissa básica de suas especulações da alma imortal e a autonomia da vontade, terminam inevitavelmente no culto da ordem pública, como Thiers, ou no culto da autoridade, como Mazzini; isto é, no estabelecimento e a canonização de uma escravidão perpétua. Daqui se deduz que o materialismo teórico desemboca necessariamente no idealismo prático, e que as teorias idealistas unicamente encontram sua realização em um rudimentar materialismo prático.
Ontem mesmo se mostrou ante nossos olhos a prova do que acabamos de dizer. Onde estavam os materialistas e ateus? Na comuna de Paris e onde estavam os idealistas que creem em Deus? Na Assembleia Nacional. A de Versalhes. O que queriam os revolucionários de Paris? Queriam a emancipação definitiva da humanidade através da emancipação do trabalho. E o que querem atualmente? Na triunfante Assembleia de Versalhes? A degradação definitiva da humanidade sob o duplo jugo do poder espiritual e secular.
Os materialistas querem avançar, imbuídos de fé e desprezando o sofrimento, o perigo e a morte, porque veem ante eles o triunfo da humanidade, mas os idealistas sem impulso e pressagiando unicamente espectros sangrentos, querem levar de qualquer forma a humanidade, de novo: até o lodaçal de onde saiu com tão grandes dificuldades.
Que cada qual compare e forme sua opinião.

* Os trechos em negrito são os tópicos desenvolvidos por G. P. Maximoff. Todo o resto é de autoria de Mikhail Bakunin.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

História heterogênea da burguesia - Mikhail Bakunin



Nota do GEAPI

Saudações Socialistas e Libertárias!

Trazemos a público novamente parte da obra “Escritos de Filosofía politica”, uma compilação de textos de Mikhail Bakunin realizada por G. P. Maximoff, especificamente o capítulo IV do tomo II – Crítica da sociedade existente.
Neste tópico, Maximoff privilegiou a análise de Bakunin acerca do desenvolvimento, consolidação e declínio da burguesia, realizando uma análise histórica deste movimento assim como dando subsídios teóricos para a derrocada da classe burguesa.
Hoje, em 2014, bicentenário de Bakunin, é possível entrever como algumas de suas análises ainda podem ser adaptadas à atualidade, nos levando a refletir sobre o avanço e a superação da sociedade – ou se o que aconteceu foi uma maximização das sociabilidades da exploração do trabalho humano.
Para 2015, lançaremos mais algumas traduções dos Escritos, objetivando por fim compilá-los em um grande volume, tal qual os livros originais. 
No mais, desejamos uma excelente leitura e sua consequente reverberação na realidade, pois sem esta última, de nada valeria todo o desenvolvimento teórico e filosófico de Bakunin e outros anarquistas, do passado e da atualidade.

Anarquismo é luta!


Houve em um tempo em que a burguesia, dotada de poder, vital e formando a única classe histórica, ofereceu um espetáculo de união e fraternidade tanto em seus atos como em seus pensamentos. Foi o melhor período dessa classe, sem dúvidas, sempre respeitável, mas a partir de então impotente, estúpida e estéril como classe; foi a época de seu desenvolvimento mais vigoroso. Assim era antes da Grande Revolução de 1793; assim era também, ainda que em menor medida, antes das revoluções de 1830 e 1848. A burguesia tinha um mundo a conquistar, necessitava assumir seu posto na sociedade organizada para a luta, sendo inteligente, audaz e sentindo-se mais forte que tudo, possuía um poder irresistível, onipresente. Por si só engendrou três revoluções contra o poder unido da monarquia, a nobreza e o clero.

A franco-maçonaria: Internacional da Burguesia em seu passado heroico. A burguesia criou também uma associação internacional, universal e formidável: A Franco-maçonaria.
Seria um grande erro julgar pelo presente da franco-maçonaria o que foi durante o século passado e também no início deste. Sendo uma instituição primordialmente burguesa, a franco-maçonaria refletiu na sua história o desenvolvimento do poder crescente e a decadência da burguesia, intelectual e moral… Antes de 1793, e mesmo antes de 1830, a franco-maçonaria unificava em seu seio, salvo escassas exceções… a todos os espíritos escolhidos, os corações mais ardentes e as vontades mais ousadas; constituía uma organização ativa, poderosa e verdadeiramente benéfica. Foi a vigorosa encarnação e a realização prática da ideia humanitária do século XVIII. Todos os grandes princípios de liberdade, igualdade, fraternidade, razão e justiça humana – elaborados teoricamente pela filosofia do século – se transformaram em dogmas práticos dentro da franco-maçonaria, assim como nas bases de uma nova moralidade e uma nova política. Converteram-se na alma de um gigantesco trabalho de demolição e reconstrução.

Desintegração da franco-maçonaria. O triunfo da revolução matou a franco-maçonaria; ao ver seus desejos cumpridos parcialmente pela revolução, e depois de tomar, como consequência dela, o lugar da nobreza, a burguesia se converteu em uma classe privilegiada, exploradora, opressivamente conservadora e reacionária, depois de ser durante muito tempo uma classe explorada e oprimida. 
Por trás do coup d’Etat de Napoleão I, a franco-maçonaria se converteu em uma instituição imperial na maior parte do continente europeu.

O epígono do sentimento revolucionário burguês. Em certa medida, se reviveu a Restauração. Vendo-se ameaçada pelo retorno do velho regime, forçada também a entregar a coalizão dos nobres e da Igreja no lugar que havia ganhado com a primeira Revolução, a burguesia se fez revolucionária outra vez, por necessidade. Mas que diferença entre esta rebeldia reaquecida e a rebelião ardente e poderosa que a inspirava nos finais do século passado! A burguesia era sincera, então, acreditava séria e ingenuamente nos direitos do homem, estava inspirada e movida por um gênio para a destruição e a reconstrução. Nesse momento se encontrava em plena possessão de sua inteligência e em pleno desenvolvimento do seu poder.

Não suspeitava o abismo que separava as pessoas: Acreditava-se e sentia – de certa forma o era realmente- o verdadeiro representante do povo. A reação de Thermidor e a conspiração de Babeuf a curaram desta ilusão. O abismo que separa o povo trabalhador da burguesia exploradora, dominante e próspera se amplia cada vez mais, e agora só o corpo morto de toda a burguesia e toda a sua existência privilegiada será capaz de preencher esse vazio.

O antagonismo de classes deslocou a burguesia de sua posição revolucionária como líder do povo. A burguesia do século passado acreditava sinceramente que se emancipando o jugo monárquico, clerical e feudal, emanciparia ao mesmo tempo todas as pessoas. Essa crença sincera, mas ingênua, era a fonte de sua coragem heroica e todo o seu poder maravilhoso. Os burgueses se sentiam unidos com todos, e marchavam para o assalto levando com eles o poder e o direito para todos. Devido a este direito e este poder que estavam, por assim dizer, encarnados na sua classe, a burguesia do século passado pôde escalar e tirar os pontos fortes do poder político de que seus pais cobiçaram por séculos.

Mas, ao mesmo tempo para plantar sua bandeira, uma nova luz inundou suas mentes. Assim que eles conquistaram esse poder, perceberam que na realidade nada tinham em comum os interesses da burguesia e das grandes massas populares, mas, pelo contrário, estavam radicalmente opostos entre si, e que o poder e a prosperidade exclusiva classe possuidora só poderia existir sobre a pobreza e dependência política e social do proletariado.

Em seguida, as relações entre a burguesia e as pessoas mudaram drasticamente, mas antes que os trabalhadores perceberam que os burgueses eram seus inimigos naturais - devido à necessidade, ao invés de um desejo perverso - a burguesia tinha se feito consciente deste antagonismo inevitável. Isto é o que eu chamo de má consciência da burguesia.

Fuga do passado revolucionário. Hoje a situação é completamente diferente: A burguesia tem um medo absoluto da revolução social em todos os países da Europa; sabe que contra esta tempestade não tem outro refúgio que o Estado. Por isso deseja e exige um Estado forte, ou, em linguagem simples, uma ditadura militar, a fim de enganar mais facilmente as massas populares, tenta vestir esta ditadura sob o disfarce de um governo representativo popular, o que lhe permitiria explorar as grandes massas do povo em nome do próprio povo.

A alta burguesia. Nos estratos superiores da burguesia, após a consolidação da unidade do Estado, nasceu e cresceu mais forte a cada dia com a unidade social dos exploradores privilegiados de trabalho da classe trabalhadora.

Esta classe (a alta burguesia) compreende os altos funcionários, as áreas de alta burocracia, os oficiais do exército, os funcionários principais da policia e juízes; o mundo dos grandes latifundiários, industriais, comerciantes e banqueiros; o mundo jurídico oficial e da imprensa; e da mesma forma, o Parlamento, cujo ala direita desfruta de todos os benefícios do governo, enquanto a esquerda tenta tomar em suas próprias mãos esse mesmo governo.

A pequena-burguesia. Compreendemos muito bem que o conhecimento não é distribuído paritariamente, mesmo entre a burguesia. Aqui também há uma hierarquia, condicionada pela riqueza relativa da camada social a qual pertencem por nascimento os indivíduos e não a sua capacidade. Assim, por exemplo, a educação recebida por crianças da pequena burguesia - apenas superior a educação recebida pelos filhos da classe trabalhadora - é insignificante em comparação com a educação recebida por crianças de alta e média burguesia. E o que vemos? A pequena burguesia, que se considerada de classe média por uma vaidade ridícula e por sua dependência dos grandes capitalistas, se encontra muitas vezes em uma posição ainda mais miserável e humilhante do que a do proletariado.

Portanto, quando falamos de classes privilegiadas, não incluímos esta miserável pequena burguesia que por ter mais coragem e inteligência não deixaria de se juntar a nós para lutar juntos contra a grande burguesia, que oprime tanto quanto oprime o proletariado: se o desenvolvimento econômico da sociedade continua na mesma direção mais dez anos, veremos que a maior parte da média burguesia vai afundar primeiro para a posição atual da pequena burguesia para se perder gradualmente mais tarde, nas fileiras do proletariado. Tudo isto será resultado da concentração inevitável de propriedade nas mãos de um número cada vez menor de pessoas, o que implica necessariamente a divisão do mundo social em uma pequena minoria, rica, educada e dirigente, e a grande maioria dos proletários e escravos miseráveis e ignorantes.

O progresso técnico só beneficia a burguesia. Há um fato deveria surpreender toda pessoa consciente, a toda pessoa que defenda de coração a dignidade humana e a justiça; ou seja, a liberdade de cada um na igualdade para todos. Este fato notável é que todas as invenções da mente, todas as principais aplicações da ciência para a indústria, o comércio e, em geral, a vida social, até agora beneficiou apenas as classes privilegiadas e ao poder dos Estados, esses eternos protetores das desigualdades políticas e sociais. Eles nunca têm beneficiado as massas do povo. Basta referir, como exemplo, as máquinas para cada trabalhador e cada defensor sincero da emancipação do trabalho coincida conosco neste ponto.

O Estado é uma instituição controlada pela burguesia. Que poder mantém agora as classes privilegiadas, com todo o seu insolente bem estar e seu iníquo prazer da vida, frente a legítima indignação das massas? Esse poder é o poder do Estado, onde seus filhos mantêm, como sempre, todas as posições dominantes, médio e inferior, exceto as de trabalhadores e soldados.

A gestão da economia no lugar do Estado. A burguesia é a classe dominante e a única inteligente porque explora o povo e o mantém em um estado de inanição. Se o povo chegar a ser próspero e tão culto como a burguesia, a dominação desta última terminaria; e não haveria lugar posteriormente para um governo político, que se tornaria então um simples aparelho para a gestão econômica.

Desintegração moral e intelectual da burguesia. As classes cultas, a nobreza, a burguesia – que em um tempo floresceram e estavam no topo de uma civilização viva e progressiva na Europa – vão afundando atualmente em torpor, vulgarizando-se, tornando-se obesos e covardes a ponto de representarem apenas atributos mais desprezíveis e indignos da natureza humana. Vemos que essas classes não são ainda capazes de defender sua independência em um país tão virtuoso como a França antes da invasão alemã e na Alemanha, vemos que todas essas classes são a mais abjeta subserviência ao seu Kaiser.

Nenhum burguês - nem mesmo o mais “vermelho” - quer igualdade econômica, porque essa igualdade implicaria sua morte.

A burguesia não vê ou compreende qualquer coisa fora do Estado e os poderes de regulamentação do Estado. A altura do seu ideal, sua imaginação e heroísmo, é a exageração revolucionária do poder e da ação do Estado em nome da segurança pública.

Agonia fatal de uma classe historicamente condenada. Como organismo político e social, com serviços prestados à civilização do mundo moderno, esta classe está condenada à morte pela própria história. Morrer é o único serviço que ainda pode fazer; à humanidade, a quem serviu durante sua vida. Mas não quer morrer e esta recusa de morte é a única causa da sua estupidez presente e dessa vergonhosa impotência que agora caracteriza todas as suas empresas políticas, nacionais e internacionais.

A burguesia está em falência total? Será que a burguesia já chegou à falência? Todavia não. Ela perdeu o gosto pela liberdade e pela paz? De modo nenhum. Ainda ama a liberdade, desde que, obviamente que essa liberdade só exista para ela; ou seja, a burguesia mantém a liberdade de explorar a escravidão das massas, que, - mesmo possuindo sob as constituições atuais o direito à liberdade, mas não os meios para desfrutá-la – permanecem forçosamente escravizadas sob seu jugo. Quanto à paz, nunca sentiu a burguesia tanto a sua necessidade como atualmente. A paz armada, que pesa sobre o mundo europeu, perturba, paralisa e arruína a burguesia.

Reação burguesa contra a ditadura militar. Grande parte da burguesia está cansada do reinado de cesarismo e militarismo, que surgiu em 1848, como resultado de seu medo do proletariado...
Não há dúvida de que a burguesia como um todo, incluindo a burguesia radical, não acredita no verdadeiro sentido do termo no cesarismo e o despotismo militar, cujos efeitos já estão lamentando. Depois de ter aproveitado desta ditadura em sua luta contra o proletariado, agora expressa o desejo de se livrar dele. Nada mais natural, porque este regime humilha e arruína. Mas como pode liberar-se dessa ditadura? Em um tempo foi valente e poderosa; tinha o poder de conquistar mundos. Agora é covarde e fraca, e afligida pela impotência de senescência. É agudamente consciência dessa fraqueza, e sente que por si só não pode fazer nada. Precisa de Ajuda. Esta ajuda só pode ser proporcionada pelo proletariado, e por isso a burguesia pensa que deve conquistá-los para o seu lado.

A burguesia liberal e o proletariado.  Mas como pode se conquistar o proletariado? Com promessas de liberdade e igualdade política? Não essas são palavras que já não comovem aos trabalhadores. Aprenderam as próprias custas, e através de uma dura experiência, que essas palavras só significam a preservação de sua escravidão económica, mão mais pesada do que foi antes. Se quereis comover o coração desses milhões de miseráveis escravos do trabalho, fale-lhes da sua emancipação econômica. Há apenas um trabalhador incapaz de compreender que esta é a única base séria e real de todas as demais emancipações. Em consequência, a melhor forma de aproximar-se dos trabalhadores é da perspectiva das reformas económicas da sociedade.

Socialismo burguês. Os membros da Liga para a Paz e a Liberdade dirão: “Pois bem, chamemos também os socialista. Lhes prometemos reformas económicas e sociais, mas a condição de que se respeitem as bases da civilização e a onipotência da burguesia: Propriedade individual e hereditária, interesses para o capital e lucros com a terra. Lhes persuadiremos de que só a partir dessas condições – que, incidentalmente, asseguram nossa dominação e a escravidão dos trabalhadores – o proletariado poderá se emancipar.

Os convenceremos também de que para levar adiante tais reformas sociais, é necessária primeiro uma boa revolução política, exclusivamente política, e tão revolucionária como queiram no sentido político, com muitas cabeças cortadas se for necessário, mas com um respeito, todavia maior à sacrossanta propriedade. Em resumo, uma revolução puramente jacobina que nos faça donos da situação; e uma vez que nos façamos donos e senhores, daremos aos trabalhadores o que podemos e queremos lhes dar”.

Traços distintivos de um socialista burguês. Aqui o signo infalível para que os trabalhadores detectem um falso socialista, um socialista burguês. Se lhe falando da revolução ou da transformação social, dize que a transformação política deve preceder a transformação económica; se nega que ambas as coisas devem ser feitas ao mesmo tempo ou mantém que a revolução política deve separar-se em certo modo de uma plena e completa liquidação social empreendida de modo imediato e direto, os trabalhadores devem virar-lhes as costas: porque quem

A burguesia não tem fé no futuro. Algo muito notável, observado e manifestado por um grande número de escritores de varias tendências, é que atualmente só o proletariado possui um ideal construtivo, até o que, aspira com paixão, todavia virgem de todo o seu ser. Vê diante dele uma estrela, um sol que ilumina e lhe dá calor; (pelo menos, de modo imaginário) em sua fé, que lhe mostra com certa claridade o caminho a seguir, enquanto todas as classes privilegiadas e supostamente ilustres se encontram fundidas em uma obscuridade pavorosa e desoladora.

Estas últimas não veem nada adiante, não creem em nada nem aspiram a nada, salvo a preservação do status quo, enquanto reconhecem ao mesmo tempo em que este status quo carece em absoluto de valor. Nada prova melhor que essas classes estão condenadas a morrer e que o futuro pertence ao proletariado. São os “bárbaros” (os proletários), que representam agora a fé no destino humano e no futuro da civilização, enquanto as “pessoas civilizadas” só encontram salvação na barbárie, no massacre dos aldeões e o retorno ao Papa. Tais são os dois requerimentos finais da civilização privilegiada.

Livreto para download: aqui

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Nota em apoio aos perseguidos políticos




Mais uma vez o Estado dá mostras de sua face mais traiçoeira: A de defender os anseios do capitalismo e da sua perpetuação por meio do encarceramento de quem ousa desafiar sua autoridade, seu reinado de infâmias. As mídias, controladas pelos poderosos, insistem em jogar o povo contra o povo, que não percebe que está a esmagar justamente os que lutam com eles. 

As prisões e os prisioneiros
Igor Mendes, Elisa Quadros e Karlayne Moraes. Os três foram presos por terem supostamente não cumprido as medidas cautelares de não participarem de manifestações até o fim dos seus processos. A “manifestação” era na verdade uma homenagem aos professores, no dia 15 de Novembro de 2014. Igor foi preso no dia 03 de Dezembro, Elisa e Karlyane estão foragidas.

Tais medidas ainda são os resquícios das políticas de seguranças implementadas para os megaeventos no Brasil (Copa do Mundo e Olimpíadas), que provavelmente criminalizarão e defenderão com unhas e dentes a exploração descarada produzidas a partir destes mesmos eventos. 

É preciso ressaltar ainda que os três são a ponta do iceberg. Existem inúmeros processos contra uma infinidade de militantes de todas as partes do país, e que correm sérios riscos de serem presos por formação de quadrilha.

Aquele político que lhe parasita, e que não contente, rouba descaradamente os parcos frutos do seu trabalho; aquele empresário que pinta e borda na suposta “lei para todos”; aquele policial homicida, que participou de chacinas em favelas; Os latifundiários que expulsam campesinos e indígenas das terras com extrema violência... Estes dificilmente serão culpabilizados pelos seus atos. A mídia, o Estado, os Governos, os empresários, os militares, todos eles lutam em unidade, contra um mundo de justiça, sem desigualdades sociais; 

Uma batalha internacionalista.
Ao passo que no Brasil a histórica perseguição política ocorre sem muitos empecilhos para os poderosos, no mundo, a história se repete. Exemplificamos dois contextos diferentes: Mumia-Abu Jamal, militante dos Panteras Negras, acusado de matar um policial, foi condenado primeiramente à morte, e depois a prisão perpétua (cercear a liberdade de um indivíduo não é mata-lo em vida?) mesmo após inúmeras retificações de depoimentos, sendo explicitado a coação policial contra as testemunhas. Em 2014, Mumia completa 33 anos de cárcere.

Na Grécia, o jovem Nikos Romanos, que viu em 2008 Alexis Grigoropoulos morto em seus braços devido a um projétil disparado por policiais, foi preso em 2013 por “expropriação de uma agência bancária”; recebeu 16 anos de prisão e recentemente entrou em greve de fome exigindo principalmente o direito de estudar em uma Universidade em Atenas. A negação do pedido gerou revolta e apoio em todo o mundo, onde inúmeras insurreições de rua se deram em toda Grécia.


Uma conclusão inconclusiva
Hoje, 10 de dezembro de 2014, o Comissão Nacional pela Verdade emite seu relatório final, dando conta, dentre outras coisas, das torturas sofridas durante a ditadura civil-militar brasileira. Chega a ser estarrecedor, perceber que o estado jurídico, um dos mecanismos de combate aos militantes daquele tenebroso período, ainda funciona a todo vapor para hoje, 50 anos depois, criminalizar, perseguir, torturar e esmagar quem luta por um mundo mais justo para todos; a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), foi “carinhosamente” apelidada de “novo DOPS”.

Porém, o ímpeto transformador que habitava os corações dos que lutavam contra a ditadura permanece, se transforma e adapta-se às novas demandas da atualidade. Precisamos ainda fortalecer nossa rede de ajuda mútua para com os perseguidos políticos, para não sucumbirem nos “porões da democracia”. Venceremos! Ninguém ficará para trás!

“Que os poderosos saibam que nossos sonhos serão os seus pesadelos”


Nossa mais sincera e profunda solidariedade com os presos políticos do país, e do mundo inteiro!

LIBERDADE AXS PRES@S POLÍTIC@S!



GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí

terça-feira, 18 de novembro de 2014

18.11.1918 - 18.11.2014: Viva a Insurreição Anarquista de 1918!





Hoje, 18 de Novembro de 2014, comemoramos 96 anos da épica Insurreição Anarquista ocorrida no Rio de Janeiro. Escolhemos, para relembrar a tentativa de criação de um autogoverno popular no Brasil, um texto de John W. F. Dulles, do livro “Anarquistas e comunistas no Brasil”, disponível em nossa biblioteca virtual. 

Olhemos o passado para relembrar d@s brav@s companheir@s que lutaram incessantemente para a edificação de um mundo de justiça e igualdade social, política e econômica, vivamos o presente em organização e luta, reparando os erros do passado e fitando no horizonte, o futuro que, através da derrocada do capitalismo e do Estado, ergueremos: Um futuro Socialista e Libertário.  

ANARQUISMO É LUTA!



"Com o fim da Primeira Guerra Mundial (a 11 de novembro de 1918), uma segunda fase da onda de greves iniciadas em 1917 abalou o país até 1.921. Um aspecto novo se revelaria agora, ocasionalmente: É que alguns dos lideres do proletariado estavam decididos a fazer os companheiros seguir o exemplo de seus "irmãos" bolchevistas, para se estabelecer "um governo genuinamente de operários e soldados". Havia. entre tais lideres, os que estavam bastante impressionados com o fato de que um estágio avançado de desenvolvimento industrial não era requisito para a derrubada violenta do capitalismo. Acreditavam, como Lênin e Trotsky, que estava a seu lado a lógica da história universal, e que o movimento proletário, iniciado na Rússia em 1917, iria expandir-se inevitavelmente. 

As autoridades brasileiras, também sob influência da revolução bolchevista, raras vezes perdiam a oportunidade de avisar a população que o teor do movimento grevista era bem mais sinistro do que a reivindicação do aumento salarial e a jornada de oito horas. Poderiam referir-se à motivação dos líderes anarquistas que organizaram a greve que estourou no Rio uma semana após o fim da guerra mundial, antes da suspensão do estado de sítio. Com a ajuda de bombas, os conspiradores tentaram recriar os acontecimentos ocorridos em Petrogrado, no ano anterior".

José Oiticica foi designado líder do "conselho" diretor da insurreição, sendo nesta tarefa auxiliado por Agripino Nazaré, advogado da Bahia, e Astrogildo Pereira, cujas cartas à imprensa lhe custaram o emprego no Ministério da Agricultura. Outros que estiveram ligados ao conselho insurrecional foram Manuel Campos, o anarquista espanhol que dirigiu Na Barricada em 1915-1916, Alvaro Palmeira, um professor de certo prestígio entre os operários da construção civil, e Carlos Dias, o operário gráfico que por mais de 10 anos vinha trabalhando na publicação de jornais anarquistas. Os líderes dos trabalhadores das fábricas de tecidos, Manuel Castro e Joaquim Morais, assim como José Elias da Silva, João da Costa Pimenta e o jornalista José Romero estavam cientes da conspiração. 

Enquanto o conselho orientava os operários, prestes a se declararem em greve pela melhoria das condições de trabalho, as atenções da população brasileira se voltavam pua a terrível epidemia de "gripe espanhola" e para os planos da tomada de posse do Presidente-eleito Francisco de Paula Rodrigues Alva, que deveria suceder a Venceslau Brás no dia 15 de novembro de 1918. 

A epidemia de gripe espanhola, catastrófica em São Paulo, alastrou-se de maneira ainda mais grave na Capital da República. Os relatórios indicam que, em meados de novembro de 1918, 401.950 cariocas foram, ou já haviam sido, acometidos pela gripe, numa população de 914.292 habitantes, e que àquela altura 14.459 pessoas haviam sucumbido à doença. Anunciou-se. que o Presidente-eleito Rodrigues Alva contraíra a gripe e que seu estado não lhe permitia assumir o poder. O Vice-Presidente-eleito Delfim Moreira assumiu a presidência, logo após o falecimento de Rodrigues Alves. 

Para infelicidade de Oiticica e dos demais conspiradores, Ricardo Correia Perpétuo, o membro do conselho que fora encarregado de distribuir boletins sediciosos entre os soldados aquartelados na Vila Militar, convidou o tenente do Exercito Jorge Elias Ajus a participar do movimento. Aja, expressando-se a favor da implantação no Brasil de uma forma de governo "inteiramente popular", à semelhança da Rússia, foi avidamente acolhido no movimento, devido a suas conexões militares, sendo nomeado, juntamente com Oiticica, chefe do movimento." Mas Ajus era um espião.

Na noite de 14 de novembro Ajus participou de uma reunião, na residência de Oiticica, em que tudo era falado em voz baixa, por solicitação do professor: Ele temia que sua esposa, que ocupava um cômodo contíguo e não sabia de nada, fosse capaz de denunciar a insurreição. Anunciou-se, então, que todos os operários em tecidos estavam prontos para a ação. Os operários que partissem de Botafogo deveriam invadir o palácio presidencial, onde hasteariam uma bandeira vermelha; os operários reunidos em Sito Cristóvão se apossariam dos depósitos de armas e munições da Intendência da Guerra; os tecelões de Bangu tomariam posse da fábrica de cartuchos de Realengo; o pessoal da Saúde, fiel a Manuel Campos, ajudaria no ataque ao quartel de policia ali existente. Oiticica observou que a deflagração deveria ser combinada para coincidir com as sessões da Câmara e do Senado, a fim de se prenderem todos os seus membros. Ajus se encarregaria do Exército. 

Uma reunião mais concorrida, de que participaram cerca de 40 conspiradores, realizou-se no dia 15 de novembro, numa sala do curso do professor Oiticica. Depois de aberta a sessão por João da Costa Pimenta, o tenente Ajus propôs que a insurreição começasse com uma concentração geral no Campo de São Cristóvão. para o posterior ataque à Intendência da Guerra e aos quartéis de policia. Oiticica concordou e ordenou que, após declarada a greve, mareada para as 15:30 horas do dia 18 de novembro, os grevistas, calculados em 15 mil, se dirigissem para o Campo de São Cristóvão. 

Na noite de 17 de novembro, em reunião de uns oito ou 10 membros do conselho na casa de Oiticica, Ajus alegou que não poderia cooperar efetivamente com o movimento, por não estar de serviço no quartel naquele dia 18, e pediu que a insurreição fosse adiada para o dia 20. Mas Agripino Nazaré opôs-se a esta proposta, lembrando que os tecelões, prontos para iniciar a greve no dia seguinte, não poderiam ser persuadidos a voltar atrás. Em seguida, Oiticica enumerou algumas das medidas tomadas: havia "quatro mil operários dispostos a tudo", e "1.600 bombas" já tinham sido distribuídas. Segundo Oiticica, seria fácil tomar o depósito de armas e munições do Campo de São Cristóvão e explicou ainda a maneira como os metalúrgicos cortariam as linhas telefónicas e dinamitariam uma das torres de iluminação da Light, deixando às escuras a cidade. Quarenta tambores de petróleo e gasolina — acrescentou — seriam usados para incendiar o edifício da prefeitura, o quartel-general do Exército e o quartel central da polícia. 

Nas primeiras horas da tarde de 18 de novembro, Oiticica se reuniu com alguns membros do conselho em um prédio da Rua da Alfândega, para rever os últimos detalhes do levante. As autoridades, informadas de tudo o que se passava, interromperam subitamente a reunião, prendendo Oiticica, Manuel Campos, Ricardo Perpétuo, Astrogildo Pereira, Augusto Leite e Carlos Dias. Júlio Rodrigues, o comissário destacado pelo chefe de polícia Aurelino Leal para efetuar as prisões, informou mais tarde que havia feito todos os esforços para conseguir a prisão de João da Costa Pimenta, Manuel Castro, Joaquim Morais c Raimundo Martins. Mas todos estes conseguiram fugir e permanecer escondidos.

Às quatro horas da tarde do dia 18 de novembro, os tecelões do Distrito Federal se declararam em greve; seis mil operários deixaram seus empregos em Bangu, onde o movimento "irrompeu com grande clamor". Os metalúrgicos e os operários em construção civil aderiram à greve logo em seguida. As fábricas estavam repletas de boletins que conclamavam à "insubmissão" e à "reação violenta contra a prepotência dos patrões". Os boletins distribuídos nos quartéis do Exército concitavam os militares, "irmãos dos trabalhadores", a se unirem à classe operária na formação dos comitês de soldados e operários com o fim de assumir a direção de todos os serviços públicos.

Às cinco horas da tarde umas poucas centenas de insurretos se reuniram no Campo de São Cristóvão. Durante a luta em que alguns deles tomaram a delegacia do décimo distrito policial, uma bala atingiu o delegado, e uma bomba arremessada contra um veículo da brigada policial feriu ligeiramente quatro praças. Para retomar dos insurretos a delegacia, uma unidade de cavalaria do Exército partiu da bem guarnecida Intendência da Guerra. Com repetidas "descargas de fuzil, conseguiu expulsar os invasores”. Chegavam, ao mesmo tempo, reforços do Exército e da polícia, conforme as providências de Aurelino Leal. Os insurretos fugiram, mas dezenas deles foram presos. Algumas das bombas abandonadas explodiram, aqui e ali.

Numa das indústrias têxteis, a Fábrica de Tecidos Confiança, um grupo de trabalhadores, chefiado por Miguel Manias, invadiu o escritório da fábrica para agredir a direção. Outros operários correram em defesa dos diretores, e saiu uma luta de faca, em que sucumbiu Miguel Martins. Três outros operários foram gravemente feridos, falecendo um deles quatro dias mais tarde. 

Em meio a muitos discursos, no dia 19 o corpo de Miguel Martins foi enterrado num caixão envolto na bandeira de seu sindicato. Descreveram-no como "vítima da traição de um companheiro". 

Aurelino Leal, apelidado de Torquemada ou de Trepov carioca pelos líderes trabalhistas, baixou uma ordem proibindo a realização das reuniões operárias. João Gonçalves, Francisco de Oliveira e outros líderes em Bangu protestaram e foram presos. Uma comissão de tecelões pediu permissão a Aurelino para se reunir, mas o pedido foi negado por não proceder da diretoria do sindicato (cujos componentes estavam presos ou foragidos). Os tecelões tentaram explicar ao chefe de polícia que seus salários e condições de vida não lhes permitiam fabricar bombas. "Positivamente. Sr. Dr., não queremos fazer revoluções. Queremos. sim, trabalhar, tendo os nossos direitos assegurados e respeitados”. 
No dia 22 de novembro o Presidente em exercício Delfim Moreira e o Ministro da Justiça assinaram um decreto que dissolvia a União Geral dos Trabalhadores, e suspendia temporariamente três sindicatos já fechados por Aurelino Leal: Os sindicatos dos operários em tecidos, dos metalúrgicos e dos operários em construção civil. Uma subcomissão da União Geral dos Metalúrgicos se queixou de que, quando a comissão da entidade se reuniu para decidir se os metalúrgicos deveriam voltar ao trabalho, toda ela foi "presa arbitrariamente". De acordo com as informações fornecidas pelo Tenente Ajus às autoridades, os metalúrgicos haviam sido designados para dinamitar uma torre da Light. 

No dia 19 de novembro arremessaram-se bombas em duas torres da Companhia Light & Power, que mal foram danificadas: A companhia assegurou que "só uma carga de dinamite de potência extraordinária" poderia derrubar as torres, e que, ainda assim, se isso aconteceria, os acumuladores disponíveis seriam suficientes para iluminar o Rio por 24 horas, o tempo necessário para reparar as instalações”. 

A 22 de novembro, guiando-se por estas palavras de conforto, os jornais estamparam manchetes sensacionalistas, em que se relatava e ação enérgica da policia, ao desbaratar um "atentado inominável" dos anarquistas, que planejavam dinamitar as represas de Ribeirão das Lajes, para privar a cidade de luz, força e serviço de bondes". Dizia-se que nada menos do que 10 "agitadores" foram presos, depois de surpreendidos com panfletos subversivos, grande quantidade de armas e mapas "da estrada que vai de Rio das Pedras a Ribeirão das Lajes, bem como dos pontos que deveriam ser dinamitados. A polícia acreditava que o plano era de dinamitar várias das bombas hidrelétricas e minar os escombros de modo que fossem mortos os operários encarregados do conserto". 

As notícias desta quase calamidade se fizeram acompanhar da revelação de que "nada menos do que 78 anarquistas" tinham sido presos de 18 a 21 de novembro. Estavam entre eles diversos espanhóis suspeitos e empregados em fábricas na Gávea, grevistas que tentaram reunir-se num matagal de Bangu, elementos encontrados num galpão com "documentos subversivos" e indivíduos apreendidos portando bombas ou armas. Dizia-se que os anarquistas estrangeiros seriam deportados e que os nacionais seriam enviados para a ilha de Fernando de Noronha, ao largo da costa nordestina.

Para demonstrar a existência de uma conspiração atrás do movimento grevista, as autoridades chamaram a atenção para o fato de que os operários abandonaram o serviço simultaneamente e sem levar aos empregadores as suas reivindicações. Com seus líderes dispersos e as reuniões de classe proibidas, os sindicatos encontravam dificuldade para encaminhar os seus reclamos. No dia 20 de novembro, todavia, o Jornal do Brasil publicou algumas das reivindicações proletárias. Os operários em construção civil queriam o dia de oito horas e garantias em casos de acidente de trabalho. Os metalúrgicos queriam salário mínimo, dia normal de oito horas e reconhecimento do sindicato como único intermediário entre patrões e empregados. 

Os tecelões acusavam os patrões de haverem ignorado os acordos de julho de 1917. O Jornal do Brasil, que sustentava e acusação, publicou uma resolução pela qual os tecelões não retomariam ao trabalho antes de obterem salário mínimo, semana de seis dias e dia de oito horas. 

O governo distribuiu uma série de comunicados com o intuito de persuadir os operários a abandonarem a greve, apelando inclusive para as esposas e mães dos mesmos. Nesses comunicados o governo, "amigo e natural protetor dos trabalhadores ordeiros", prometia a deportação dos agitadores que os exploravam e os submetiam a uma “terrível escravidão". Um boletim do Serviço de Segurança, 26 de novembro, anunciava a quantidade de dinheiro encontrada em mãos anarquistas. "Manuel Campos, ao ser preso, fora encontrado com mais de 500$000... Que prova mais clara de que os anarquistas explorem os trabalhadores ordeiros? Mas esse regime de coação está no fim. Ontem mesmo já voltaram para o trabalho 8.940 operários. Retomem todos os outros sem receio, porque a policia está agindo e não dará trégua aos dinamitadores.

No fim de novembro a maioria dos grevistas remanescentes voltaram a seus empregos. Mas as companhias se recusaram a readmitir os que consideravam perigosos. A esta altura dos acontecimentos a policia mantinha cerca de 200 "agitadores" na Casa de Detenção. Ao contrário dos boatos inspirados pela presença de um navio de guerra: Os prisioneiros não foram enviados a Fernando de Noronha, permanecendo na cadeia para serem interrogados. A polícia atava interessada principalmente nos planos de dinamitação de torres e represas.

Os estudantes do Colégio Pedro II e da Escola de Medicina pediram a libertação de José Oiticica. Mas tiveram de continuar sem o professor, pois Oiticica, solto ao dia 10 de dezembro, embarcou "deportado" com esposa e filhos sio Olinda, rumo ao Estado de Alagoas.

João da Costa Pinicais foi para São Paulo, e Agripino Nazaré mimam à Babai, seu estado natal. Astrogildo Pereira permaneceu encarcerado no Rio de Janeiro. Escrevendo a Oiticica, em janeiro de 1919, sobre a prisão e o processo que o enquadrara, Astrogildo terminava a cana dizendo: "Nossa disposição não esmorece. Em todos nós palpita o mesmo entusiasmo, e nossas convicções se enraízam ainda mais fundo. O mundo é nosso — e todos os sabres, todas as grades do Sr. Aurelino resultam, afinal, num estimulante poderoso e incontestável" "Hurra' para a anarquismo!", escreveu noutra carta. (...)"


Fonte:
DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1977. pp 66-71.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Achiamé está morto, porém vive!



Os anarquistas historicamente deram ênfase ao conhecimento e difusão da teoria libertária. Panfletos, jornais, peças teatrais, comícios, e... Livros. Livros! A vida de um homem foi dedicada quase que inteiramente à livros. Seu nome? Robson Achiamé.

Caso você seja anarquista, caro leitor, talvez não tenha o conhecido, ou mesmo trocado nenhuma palavra com Achiamé, mas temos certeza que se olhar a sua estante destinada à teoria anarquista, certamente que encontrará um rico acervo de obras editadas por uma certa "Editora Achiamé".

O Camarada Robson, 71 aos, 47 dedicados à imprensa libertária morreu, porém vive. Observando os comentários de condolências, é possível entrever um homem bondoso, gentil, que enviava caixas de livros sem nem mesmo pedir o pagamento prévio (e por vezes, nem mesmo pagamento), um verdadeiro anarquista, que tinha prazer em divulgar as ideias libertárias.

No Piauí, cuja política é caracterizada por um forte monopólio da mídia por parte de oligarquias empresariais, a criminalização de movimentos sociais, e um tradicionalismo beirando aos czares russos, o anarquismo insiste em romper o solo árido da transformação social, e encontra resposta positiva entre trabalhadores, estudantes e populares. Foi por meio de um grande número de livros editados por Robson Achiamé que vári@s companheir@s que hoje compõem o GEAPI adentraram nas lutas e na organização anarquista. Indiretamente, o GEAPI tem muito de Robson Achiamé, assim como tantos grupos de estudos, coletivos, associações, e tantas outras formas de anarquistas dividirem, partilharem e multiplicarem as lutas e os sonhos. 

Acreditamos que a vida e a obra de Achiamé jamais serão "repetidas", mas que sejam o espelho de novas experiências em edição de livros anarquistas no Brasil, assim como a dedicação, a amizade e o compromisso de Robson. 

O anarquismo em língua portuguesa com certeza perde em muito com a morte do companheiro, mas não cessará. Esta talvez seja a forma de agradecer todo o esforço e dedicação de Robson Achiamé Fernandes: Militando, organizando e lutando por um mundo novo, o mundo que carregamos em nossos corações. 

Que a terra lhe seja leve!

Para sempre, PRESENTE!



GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí
Biblioteca Libertária
Livraria Itinerante Anarquista

terça-feira, 4 de novembro de 2014

[PHB] Roda de diálogo: Anarquismo e movimento estudantil



Desde junho de 2013 o anarquismo voltou a ser debatido e criminalizado pelas mídias, empresários, militares e partidos políticos (de esquerda e direita). No mesmo ano, o movimento estudantil foi destaque em muitas cidades, inclusive em Parnaíba.

O que a teoria política e social anarquista tem a oferecer ao movimento estudantil na atualidade? 

Visando o aprofundamento deste debate, o Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí convida tod@s @s interessad@s a participarem da "Roda de Debates: Anarquismo e Movimento Estudantil", que ocorrerá no dia 19 de Novembro (Quarta-feira), às 17:00h em frente o auditório da UFPI de Parnaíba.

Link do evento no facebook aqui

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[THE] Oficina de Fanzine


O Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí convida tod@s para a I Oficina de fanzines, a se realizar na Biblioteca Libertária (Praça dos skatistas, Fundação Nacional do Humor), no dia 31.10.14, a partir das 14:00h. 

O evento é totalmente gratuito e aberto para quem queira aprender um pouco mais sobre a temática, assim como conhecer o espaço.

link do evento aqui

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Memória Proletária: À memória de Ferrer

Hoje se completa 105 anos do assassinato de Ferrer y Guardia pelo governo espanhol. O pai da Escola moderna e um dos principais representantes da pedagogia libertária ainda nos faz refletir e nos auxilia a construir o sonho de uma escola que trabalhe a autonomia e a coletividade de seus alunos, assim como o respeito mútuo, e principalmente, a construção de uma sociedade pautada na igualdade política, econômica e social. Ferrer y Guardia morreu, porém vive.
Divulgamos agora uma matéria  retirada do jornal "A Voz do Trabalhador", órgão de propaganda da Confederação Operária Brasileira, a COB, datado de 1909.
Aproveitamos o espaço e convidamos à tod@s para que participem do Colóquio Ferrer y Guardia Vive! - Reflexões sobre a pedagogia libertária, que será realizado no dia 22 de Outubro, no auditório da UESPI em Parnaíba.





O momento é ainda de protesto. O mundo inteiro protesta contra o bárbaro fuzilamento praticado na pessoa do grande mestre da nova ideia, o livre pensador Francisco Ferrer. 

Os sombrios fossos da Fortaleza de Monjuich recordem os tempos medievais, anteriores á queda da Bastilha. 

A descarga que fez tombar Ferrer repercutiu pelo universo inteiro, no intimo de cada peito, no seio de cada família, no meio de cada associação e no amago de cada país. 
Não ha homem de bom senso, ou livre pensador, que não sinta no intimo d’alma e dor pungentíssima que sufoca o puro sentimento, para só levantar um grito de revolta —porque todos pensamos livremente — porque podemos chegar a ser um Ferrer, um Gorki, um Gafoni, e os Stenka existem em todos os tempos. 

Os espíritos ferrenhos arraigados ao ortodoxismo do Sistema, no pessimismo conservador de tradições, entrincheirados no estulto baluarte da burocracia, arrogando-se os direitos de conquista, pretendem ainda a direção dos povos na trilha intolerável do mais absoluto despotismo, na mais concreta ignorância. 

Mas já passaram os tempos do obscurantismo, já lá se vão os tempos em que a venda era uma condição necessária á vida da humanidade.

Ferrer tombou, Ferrer deixou de existir, mas na matéria apenas; os Ferrer existem em todos os tempos e, cada Ferrer que tomba, e um passo de gigante dado no vasto campo dos nossos ideais. Cada Ferrer que tomba é uma pedra gigantesca atirada no alicerce do vasto edifício do Socialismo; cada Ferrer que tomba, é urna luz que se projeta altaneira, pairando por sobre a humanidade. Luz intensa que muitas centenas de lâmpadas voltaicas, em foco, jamais produziram luz de tão suaves reverberações. 

Lamentemos a morte de Ferrer, mas não nos deixemos empolgar pela dor estiolante das nossas mais santas e puras aspirações; pois que a morte de Ferrer, ao mesmo tempo que nos é uma grande falta, pois que Ferrer era um dos mais fortes esteios da nossa nobre causa, é ao mesmo tempo um grande bem, pois que a morte de um dos procetes da liberdade, em pleno campo de luta, é para nós uma vitória; o seu sangue fará germinar a ida, a luz que lhe alimentava o cérebro espalhar-se-á, comunicar-se-á as massas ávidas de saber e sedentas de luz, atestando assim a grandiosidade da ida e do cérebro que a gerou. 

Se morre um Ferrer entrega-se o corpo á terra, cujos vermes se encarregarão de consumir a matéria, mas não conseguiremos fazer com que a ida acompanhe a matéria na sua queda e decomposição; ainda que assim fosse: a ideia persistiria até chegar o tempo próprio para germinar, porque a ideia é luz e os vermes não comem luz, e como tal não conseguiriam consumi-la: assim a memoria de Francisco Ferrer conservar-se-á indelével no amago de nossos corações. Ferrer será para as gerações vindouras o que para nós tem sido os sábios e filósofos como Galileu, que descobriu o movimento da terra em torno do seu eixo; o Cristo, sublime filósofo da antiguidade, Platão, na sua escola, e Pitágoras, na sua teoria da alma, transcendente após uma correria de mais de três mil anos. Para depois formar o delicado maquinismo de que irradiam as mais suaves reverberações, grau supremo da organização dos seres – o homem.

Ferrer passará, pois, á posteridade como figura brilhante, destacando-se grandioso no escól sublime dos homens de talento, como o apanágio eterno de sua obra grandiosa. Levantemos, pois, um grito de revolta contra a morte daquele que só soube criar escolas.

Elevemos a voz proclamando bem alto a memoria daquele que só procurou instruir a infância – o criador da Escola Moderna – Francisco Ferrer.

Rio, 23 de Outubro de 1909.
A. Galileu.

Fonte: GALILEU, A. Á memória de Ferrer. A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro: Ano II - n° 20, 15 de Novembro de 1909.

Download do texto original <aqui>

sábado, 11 de outubro de 2014

Colóquio "Ferrer i Guardia vive! Reflexões sobre a pedagogia libertária"


Em 13 de Outubro de 1909 a vida de um homem foi tirada pelas balas dos fuzis do governo da Espanha, acusado de engendrar uma insurreição. Seu nome era Francesc Ferrer i Guardia, um dos idealizadores da pedagogia libertária e fundador da Escola Moderna.

Visando o aprofundamento e problematização de suas ideias, assim como relembrar a morte do pedagogo libertário, o Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí juntamente com o Centro Acadêmico de História e a Coordenação do curso de História convidam tod@s para o Colóquio "Ferrer y Guardia Vive! - Reflexões sobre a Pedagogia Libertária", que será realizado no dia 22 de Outubro, no auditório da UESPI de Parnaíba, quarta-feira, a partir das 18:00.

Em um primeiro momento, será apresentada a vida e obra de Ferrer y Guardia, e após isso, exibiremos o documentário "A educação proibida", seguido de debate. O evento certificará 4h.

Ferrer i Guardia foi assassinado, mas suas ideias não.

VIVA A ESCOLA MODERNA!
VIVA A PEDAGOGIA LIBERTÁRIA!
FERRER I GUARDIA VIVE!


Evento no facebook <aqui>
Perfil do CAHIS Mandu Ladino <aqui>