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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Meu primeiro encontro com Bakunin - Errico Malatesta




Era o fim do verão de 1872, em Nápoles.

A Federação Italiana da Internacional dos Trabalhadores nos tinha delegado Cafieiro e a mim para representá-la no Congresso que se devia celebrar na Suíça (e que ocorreu, em Saint-Imer, no Jura Suíço), para um entendimento entre todas as sessões da Internacional que haviam se rebelado contra o Conselho Geral, no qual, sob a direção de Karl Marx, queria submeter toda a Associação à sua autoridade ditatorial e dirigi-la, não à destruição, mas a conquista do poder político.

Eu estava cheio de entusiasmo naquelas lutas, das quais a sorte da Internacional dependia e o porvir da ação revolucionária e socialista.

Jovenzinho, em minhas primeiras lutas, estava naturalmente muito feliz em poder ir ao Congresso, entrar em relação direta com companheiros de todos os países e talvez também orgulhoso por fazer ouvir minha voz. Naquela idade, quando não se é nada, estava cheio de mim! Mas o que sobretudo me entusiasmava era o pensamento de que conheceria Bakunin e que me tornaria (não duvidava disso) seu amigo pessoal.

Bakunin em Nápoles era uma espécie de mito. Havia estado ali, creio, em 1864 e em 1867, deixando uma impressão profunda. Falava-se dele como uma pessoa extraordinária e como geralmente ocorre, exageravam suas qualidades e seus defeitos. Falavam da sua estatura gigantesca, de seu apetite formidável, de sua vestimenta descuidada, de sua negligência pantagruélica, de seus desprezo soberano ao dinheiro. Contavam que, chegando a Nápoles com uma grande soma de dinheiro, no momento em que se apresentavam revolucionários polacos fugitivos da repressão que seguiu a insurreição de 1863, Bakunin deu simplesmente a metade de tudo o que tinha ao primeiro polaco necessitado que encontrou, e depois a metade da metade ao segundo polaco, e assim sucessivamente até que - e não precisou de muito tempo - ficou sem um centavo. E então pegou o dinheiro dos amigos com a mesma indiferença senhorial que havia dado o seu. Mas isso e outras coisas eram a lenda. 

O importante era a grande conversação que tinha nos círculos avançados, ou os supostos círculos, em torno das ideias de Bakunin, que foi remover todas as tradições, todos os dogmas sociais, políticos, patrióticos, considerados até então pela massa dos "intelectuais" napolitanos como verdades seguras e fora discussão. Para uns Bakunin era o bárbaro do Norte, sem deus e sem pátria, sem respeito a nenhuma coisa sagrada, e constituía um perigo para a santa civilização italiana e latina. Para os outros era o homem que havia levado aos pântanos das tradições napolitanas um sopro de ar saudável, que havia aberto aos olhos da juventude que se aproximou dele para novos horizontes; e estes, os Fanelli, os De Luca, os Cambuzzi, os Tucci, os Palladino, etc., foram os primeiros socialistas, os primeiros internacionalistas, os primeiros anarquistas de Nápoles e da Itália.

E assim, pela força das palavras, Bakunin se tornou para mim também um personagem legendário; e conhecê-lo, aproximar-me dele, aquecer-me com seu fogo era para mim um desejo ardente, quase uma obsessão.

O sonho iria se realizar.

Parti, pois, para a Suíça, junto com Cafieiro.

Naquela época eu estava enfermo, cuspia sangue e me julgavam como tuberculoso ou quase, tanto mais quanto que havia perdido os pais, uma irmã e um irmão por enfermidade do peito. Ao passar o Gotardo pela noite (então não existia um túnel e era necessário rodear a montanha de neve em diligência) me resfriei e cheguei à Zurique, para a casa onde estava Bakunin, pela noite, com tosse e febre.

Depois da primeira acolhida, Bakunin me acomodou em uma cama pequena, me convidou, quase me obrigou a deitar-me nela, me cobriu com todas as mantas e agasalhos que pode recolher, me deu chá fervente e me recomendou que ficasse tranquilo e dormisse. E tudo isso com uma ternura, uma ternura materna que me comoveu o coração.

Enquanto estava envolto sob as mantas e todos acreditavam que estava eu dormindo, ouvi o que Bakunin dizia, em voz baixa, coisas amáveis sobre mim, e depois acrescentou melancolicamente: "Pena que está tão doente; o perderemos logo; não tem mais de seis meses". Não dei importância a este triste prognóstico, porque me parecia impossível que pudesse morrer (eu mal posso acreditar até hoje); mas pensei que haveria sido quase um delito o morrer quando há tanto que fazer pela humanidade. Senti-me feliz pela estima daquele homem e prometi a mim mesmo fazer todo o possível para merecê-la.

No dia seguinte acordei curado e começamos com Bakunin e os demais, suíços, alemães, espanhóis e franceses, aquelas intermináveis discussões que Bakunin sabia dar tanto encanto. 
Fomos à Saint-Imer, onde - note-se a característica da psicologia popular - as crianças acolheram Bakunin ao grito de "Viva Garibaldi!". Naturalmente, sendo Garibaldi o homem que mais tinham ouvido celebrar, aqueles meninos pensavam que deviam ser um homem colossal. Bakunin era colossal, o viram rodeado e festejado, e pensaram que não podia ser ninguém além de Garibaldi.
Tomamos parte no Congresso, depois voltamos para Zurique, discutindo sempre, tomando acordos e fazendo projetos até a noite.

Conheci Bakunin quando ele estava já em idade avançada e cheio das enfermidades contraídas nas prisões na Sibéria. Mas o encontrei sempre cheio de energia e entusiasmo e compreendi toda sua potência comunicativa. Era impossível para um jovem ter contato com ele sem se sentir inflamado pelo fogo sagrado, sem ver os próprios horizontes alargados, sem se sentir cavaleiro de uma nobre causa, sem fazer propósitos magnânimos. 

Isto ocorria com todos os que caiam sob sua influência. Depois, alguns, uma vezes cessado o contato direto, mudaram pouco a pouco de ideias e de caráter e se perderam pelos mais diversos caminhos, enquanto outros sofreram e, se sobreviveram, sofrem ainda aquela influência; mas não houve nada, creio, que ao entrar em contato com ele, ainda que fosse por breve tempo, que não tenha se tornado melhor. 

Para acabar, relatarei um episódio característico. Talvez o tenha contado outras vezes, mas em todo caso merece ser repetido. 

Era o momento, o do Congresso de Saint-Imer, em que Marx, Engels e seus seguidores, em parte por ódio e por vaidade pessoal ofendida, se esforçavam mais por espalhar a calúnia contra Bakunin, saiu com esta proposição: "É preciso pagar àquela gente com a mesma moeda; eles caluniam, caluniemo-los também, nós". 

Bakunin se sacudiu como um leão ferido, fulminou com uma olhada o proponente, se levantou em toda sua gigantesca pessoa e gritou: "O que diz, desgraçado? Não, é melhor ser mil vezes caluniado, ainda que as pessoas acreditem, que se rebaixar a ser um caluniador".


Pensiero e Volontà, Roma, 1926.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

18.11.1918 - 18.11.2014: Viva a Insurreição Anarquista de 1918!





Hoje, 18 de Novembro de 2014, comemoramos 96 anos da épica Insurreição Anarquista ocorrida no Rio de Janeiro. Escolhemos, para relembrar a tentativa de criação de um autogoverno popular no Brasil, um texto de John W. F. Dulles, do livro “Anarquistas e comunistas no Brasil”, disponível em nossa biblioteca virtual. 

Olhemos o passado para relembrar d@s brav@s companheir@s que lutaram incessantemente para a edificação de um mundo de justiça e igualdade social, política e econômica, vivamos o presente em organização e luta, reparando os erros do passado e fitando no horizonte, o futuro que, através da derrocada do capitalismo e do Estado, ergueremos: Um futuro Socialista e Libertário.  

ANARQUISMO É LUTA!



"Com o fim da Primeira Guerra Mundial (a 11 de novembro de 1918), uma segunda fase da onda de greves iniciadas em 1917 abalou o país até 1.921. Um aspecto novo se revelaria agora, ocasionalmente: É que alguns dos lideres do proletariado estavam decididos a fazer os companheiros seguir o exemplo de seus "irmãos" bolchevistas, para se estabelecer "um governo genuinamente de operários e soldados". Havia. entre tais lideres, os que estavam bastante impressionados com o fato de que um estágio avançado de desenvolvimento industrial não era requisito para a derrubada violenta do capitalismo. Acreditavam, como Lênin e Trotsky, que estava a seu lado a lógica da história universal, e que o movimento proletário, iniciado na Rússia em 1917, iria expandir-se inevitavelmente. 

As autoridades brasileiras, também sob influência da revolução bolchevista, raras vezes perdiam a oportunidade de avisar a população que o teor do movimento grevista era bem mais sinistro do que a reivindicação do aumento salarial e a jornada de oito horas. Poderiam referir-se à motivação dos líderes anarquistas que organizaram a greve que estourou no Rio uma semana após o fim da guerra mundial, antes da suspensão do estado de sítio. Com a ajuda de bombas, os conspiradores tentaram recriar os acontecimentos ocorridos em Petrogrado, no ano anterior".

José Oiticica foi designado líder do "conselho" diretor da insurreição, sendo nesta tarefa auxiliado por Agripino Nazaré, advogado da Bahia, e Astrogildo Pereira, cujas cartas à imprensa lhe custaram o emprego no Ministério da Agricultura. Outros que estiveram ligados ao conselho insurrecional foram Manuel Campos, o anarquista espanhol que dirigiu Na Barricada em 1915-1916, Alvaro Palmeira, um professor de certo prestígio entre os operários da construção civil, e Carlos Dias, o operário gráfico que por mais de 10 anos vinha trabalhando na publicação de jornais anarquistas. Os líderes dos trabalhadores das fábricas de tecidos, Manuel Castro e Joaquim Morais, assim como José Elias da Silva, João da Costa Pimenta e o jornalista José Romero estavam cientes da conspiração. 

Enquanto o conselho orientava os operários, prestes a se declararem em greve pela melhoria das condições de trabalho, as atenções da população brasileira se voltavam pua a terrível epidemia de "gripe espanhola" e para os planos da tomada de posse do Presidente-eleito Francisco de Paula Rodrigues Alva, que deveria suceder a Venceslau Brás no dia 15 de novembro de 1918. 

A epidemia de gripe espanhola, catastrófica em São Paulo, alastrou-se de maneira ainda mais grave na Capital da República. Os relatórios indicam que, em meados de novembro de 1918, 401.950 cariocas foram, ou já haviam sido, acometidos pela gripe, numa população de 914.292 habitantes, e que àquela altura 14.459 pessoas haviam sucumbido à doença. Anunciou-se. que o Presidente-eleito Rodrigues Alva contraíra a gripe e que seu estado não lhe permitia assumir o poder. O Vice-Presidente-eleito Delfim Moreira assumiu a presidência, logo após o falecimento de Rodrigues Alves. 

Para infelicidade de Oiticica e dos demais conspiradores, Ricardo Correia Perpétuo, o membro do conselho que fora encarregado de distribuir boletins sediciosos entre os soldados aquartelados na Vila Militar, convidou o tenente do Exercito Jorge Elias Ajus a participar do movimento. Aja, expressando-se a favor da implantação no Brasil de uma forma de governo "inteiramente popular", à semelhança da Rússia, foi avidamente acolhido no movimento, devido a suas conexões militares, sendo nomeado, juntamente com Oiticica, chefe do movimento." Mas Ajus era um espião.

Na noite de 14 de novembro Ajus participou de uma reunião, na residência de Oiticica, em que tudo era falado em voz baixa, por solicitação do professor: Ele temia que sua esposa, que ocupava um cômodo contíguo e não sabia de nada, fosse capaz de denunciar a insurreição. Anunciou-se, então, que todos os operários em tecidos estavam prontos para a ação. Os operários que partissem de Botafogo deveriam invadir o palácio presidencial, onde hasteariam uma bandeira vermelha; os operários reunidos em Sito Cristóvão se apossariam dos depósitos de armas e munições da Intendência da Guerra; os tecelões de Bangu tomariam posse da fábrica de cartuchos de Realengo; o pessoal da Saúde, fiel a Manuel Campos, ajudaria no ataque ao quartel de policia ali existente. Oiticica observou que a deflagração deveria ser combinada para coincidir com as sessões da Câmara e do Senado, a fim de se prenderem todos os seus membros. Ajus se encarregaria do Exército. 

Uma reunião mais concorrida, de que participaram cerca de 40 conspiradores, realizou-se no dia 15 de novembro, numa sala do curso do professor Oiticica. Depois de aberta a sessão por João da Costa Pimenta, o tenente Ajus propôs que a insurreição começasse com uma concentração geral no Campo de São Cristóvão. para o posterior ataque à Intendência da Guerra e aos quartéis de policia. Oiticica concordou e ordenou que, após declarada a greve, mareada para as 15:30 horas do dia 18 de novembro, os grevistas, calculados em 15 mil, se dirigissem para o Campo de São Cristóvão. 

Na noite de 17 de novembro, em reunião de uns oito ou 10 membros do conselho na casa de Oiticica, Ajus alegou que não poderia cooperar efetivamente com o movimento, por não estar de serviço no quartel naquele dia 18, e pediu que a insurreição fosse adiada para o dia 20. Mas Agripino Nazaré opôs-se a esta proposta, lembrando que os tecelões, prontos para iniciar a greve no dia seguinte, não poderiam ser persuadidos a voltar atrás. Em seguida, Oiticica enumerou algumas das medidas tomadas: havia "quatro mil operários dispostos a tudo", e "1.600 bombas" já tinham sido distribuídas. Segundo Oiticica, seria fácil tomar o depósito de armas e munições do Campo de São Cristóvão e explicou ainda a maneira como os metalúrgicos cortariam as linhas telefónicas e dinamitariam uma das torres de iluminação da Light, deixando às escuras a cidade. Quarenta tambores de petróleo e gasolina — acrescentou — seriam usados para incendiar o edifício da prefeitura, o quartel-general do Exército e o quartel central da polícia. 

Nas primeiras horas da tarde de 18 de novembro, Oiticica se reuniu com alguns membros do conselho em um prédio da Rua da Alfândega, para rever os últimos detalhes do levante. As autoridades, informadas de tudo o que se passava, interromperam subitamente a reunião, prendendo Oiticica, Manuel Campos, Ricardo Perpétuo, Astrogildo Pereira, Augusto Leite e Carlos Dias. Júlio Rodrigues, o comissário destacado pelo chefe de polícia Aurelino Leal para efetuar as prisões, informou mais tarde que havia feito todos os esforços para conseguir a prisão de João da Costa Pimenta, Manuel Castro, Joaquim Morais c Raimundo Martins. Mas todos estes conseguiram fugir e permanecer escondidos.

Às quatro horas da tarde do dia 18 de novembro, os tecelões do Distrito Federal se declararam em greve; seis mil operários deixaram seus empregos em Bangu, onde o movimento "irrompeu com grande clamor". Os metalúrgicos e os operários em construção civil aderiram à greve logo em seguida. As fábricas estavam repletas de boletins que conclamavam à "insubmissão" e à "reação violenta contra a prepotência dos patrões". Os boletins distribuídos nos quartéis do Exército concitavam os militares, "irmãos dos trabalhadores", a se unirem à classe operária na formação dos comitês de soldados e operários com o fim de assumir a direção de todos os serviços públicos.

Às cinco horas da tarde umas poucas centenas de insurretos se reuniram no Campo de São Cristóvão. Durante a luta em que alguns deles tomaram a delegacia do décimo distrito policial, uma bala atingiu o delegado, e uma bomba arremessada contra um veículo da brigada policial feriu ligeiramente quatro praças. Para retomar dos insurretos a delegacia, uma unidade de cavalaria do Exército partiu da bem guarnecida Intendência da Guerra. Com repetidas "descargas de fuzil, conseguiu expulsar os invasores”. Chegavam, ao mesmo tempo, reforços do Exército e da polícia, conforme as providências de Aurelino Leal. Os insurretos fugiram, mas dezenas deles foram presos. Algumas das bombas abandonadas explodiram, aqui e ali.

Numa das indústrias têxteis, a Fábrica de Tecidos Confiança, um grupo de trabalhadores, chefiado por Miguel Manias, invadiu o escritório da fábrica para agredir a direção. Outros operários correram em defesa dos diretores, e saiu uma luta de faca, em que sucumbiu Miguel Martins. Três outros operários foram gravemente feridos, falecendo um deles quatro dias mais tarde. 

Em meio a muitos discursos, no dia 19 o corpo de Miguel Martins foi enterrado num caixão envolto na bandeira de seu sindicato. Descreveram-no como "vítima da traição de um companheiro". 

Aurelino Leal, apelidado de Torquemada ou de Trepov carioca pelos líderes trabalhistas, baixou uma ordem proibindo a realização das reuniões operárias. João Gonçalves, Francisco de Oliveira e outros líderes em Bangu protestaram e foram presos. Uma comissão de tecelões pediu permissão a Aurelino para se reunir, mas o pedido foi negado por não proceder da diretoria do sindicato (cujos componentes estavam presos ou foragidos). Os tecelões tentaram explicar ao chefe de polícia que seus salários e condições de vida não lhes permitiam fabricar bombas. "Positivamente. Sr. Dr., não queremos fazer revoluções. Queremos. sim, trabalhar, tendo os nossos direitos assegurados e respeitados”. 
No dia 22 de novembro o Presidente em exercício Delfim Moreira e o Ministro da Justiça assinaram um decreto que dissolvia a União Geral dos Trabalhadores, e suspendia temporariamente três sindicatos já fechados por Aurelino Leal: Os sindicatos dos operários em tecidos, dos metalúrgicos e dos operários em construção civil. Uma subcomissão da União Geral dos Metalúrgicos se queixou de que, quando a comissão da entidade se reuniu para decidir se os metalúrgicos deveriam voltar ao trabalho, toda ela foi "presa arbitrariamente". De acordo com as informações fornecidas pelo Tenente Ajus às autoridades, os metalúrgicos haviam sido designados para dinamitar uma torre da Light. 

No dia 19 de novembro arremessaram-se bombas em duas torres da Companhia Light & Power, que mal foram danificadas: A companhia assegurou que "só uma carga de dinamite de potência extraordinária" poderia derrubar as torres, e que, ainda assim, se isso aconteceria, os acumuladores disponíveis seriam suficientes para iluminar o Rio por 24 horas, o tempo necessário para reparar as instalações”. 

A 22 de novembro, guiando-se por estas palavras de conforto, os jornais estamparam manchetes sensacionalistas, em que se relatava e ação enérgica da policia, ao desbaratar um "atentado inominável" dos anarquistas, que planejavam dinamitar as represas de Ribeirão das Lajes, para privar a cidade de luz, força e serviço de bondes". Dizia-se que nada menos do que 10 "agitadores" foram presos, depois de surpreendidos com panfletos subversivos, grande quantidade de armas e mapas "da estrada que vai de Rio das Pedras a Ribeirão das Lajes, bem como dos pontos que deveriam ser dinamitados. A polícia acreditava que o plano era de dinamitar várias das bombas hidrelétricas e minar os escombros de modo que fossem mortos os operários encarregados do conserto". 

As notícias desta quase calamidade se fizeram acompanhar da revelação de que "nada menos do que 78 anarquistas" tinham sido presos de 18 a 21 de novembro. Estavam entre eles diversos espanhóis suspeitos e empregados em fábricas na Gávea, grevistas que tentaram reunir-se num matagal de Bangu, elementos encontrados num galpão com "documentos subversivos" e indivíduos apreendidos portando bombas ou armas. Dizia-se que os anarquistas estrangeiros seriam deportados e que os nacionais seriam enviados para a ilha de Fernando de Noronha, ao largo da costa nordestina.

Para demonstrar a existência de uma conspiração atrás do movimento grevista, as autoridades chamaram a atenção para o fato de que os operários abandonaram o serviço simultaneamente e sem levar aos empregadores as suas reivindicações. Com seus líderes dispersos e as reuniões de classe proibidas, os sindicatos encontravam dificuldade para encaminhar os seus reclamos. No dia 20 de novembro, todavia, o Jornal do Brasil publicou algumas das reivindicações proletárias. Os operários em construção civil queriam o dia de oito horas e garantias em casos de acidente de trabalho. Os metalúrgicos queriam salário mínimo, dia normal de oito horas e reconhecimento do sindicato como único intermediário entre patrões e empregados. 

Os tecelões acusavam os patrões de haverem ignorado os acordos de julho de 1917. O Jornal do Brasil, que sustentava e acusação, publicou uma resolução pela qual os tecelões não retomariam ao trabalho antes de obterem salário mínimo, semana de seis dias e dia de oito horas. 

O governo distribuiu uma série de comunicados com o intuito de persuadir os operários a abandonarem a greve, apelando inclusive para as esposas e mães dos mesmos. Nesses comunicados o governo, "amigo e natural protetor dos trabalhadores ordeiros", prometia a deportação dos agitadores que os exploravam e os submetiam a uma “terrível escravidão". Um boletim do Serviço de Segurança, 26 de novembro, anunciava a quantidade de dinheiro encontrada em mãos anarquistas. "Manuel Campos, ao ser preso, fora encontrado com mais de 500$000... Que prova mais clara de que os anarquistas explorem os trabalhadores ordeiros? Mas esse regime de coação está no fim. Ontem mesmo já voltaram para o trabalho 8.940 operários. Retomem todos os outros sem receio, porque a policia está agindo e não dará trégua aos dinamitadores.

No fim de novembro a maioria dos grevistas remanescentes voltaram a seus empregos. Mas as companhias se recusaram a readmitir os que consideravam perigosos. A esta altura dos acontecimentos a policia mantinha cerca de 200 "agitadores" na Casa de Detenção. Ao contrário dos boatos inspirados pela presença de um navio de guerra: Os prisioneiros não foram enviados a Fernando de Noronha, permanecendo na cadeia para serem interrogados. A polícia atava interessada principalmente nos planos de dinamitação de torres e represas.

Os estudantes do Colégio Pedro II e da Escola de Medicina pediram a libertação de José Oiticica. Mas tiveram de continuar sem o professor, pois Oiticica, solto ao dia 10 de dezembro, embarcou "deportado" com esposa e filhos sio Olinda, rumo ao Estado de Alagoas.

João da Costa Pinicais foi para São Paulo, e Agripino Nazaré mimam à Babai, seu estado natal. Astrogildo Pereira permaneceu encarcerado no Rio de Janeiro. Escrevendo a Oiticica, em janeiro de 1919, sobre a prisão e o processo que o enquadrara, Astrogildo terminava a cana dizendo: "Nossa disposição não esmorece. Em todos nós palpita o mesmo entusiasmo, e nossas convicções se enraízam ainda mais fundo. O mundo é nosso — e todos os sabres, todas as grades do Sr. Aurelino resultam, afinal, num estimulante poderoso e incontestável" "Hurra' para a anarquismo!", escreveu noutra carta. (...)"


Fonte:
DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1977. pp 66-71.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Achiamé está morto, porém vive!



Os anarquistas historicamente deram ênfase ao conhecimento e difusão da teoria libertária. Panfletos, jornais, peças teatrais, comícios, e... Livros. Livros! A vida de um homem foi dedicada quase que inteiramente à livros. Seu nome? Robson Achiamé.

Caso você seja anarquista, caro leitor, talvez não tenha o conhecido, ou mesmo trocado nenhuma palavra com Achiamé, mas temos certeza que se olhar a sua estante destinada à teoria anarquista, certamente que encontrará um rico acervo de obras editadas por uma certa "Editora Achiamé".

O Camarada Robson, 71 aos, 47 dedicados à imprensa libertária morreu, porém vive. Observando os comentários de condolências, é possível entrever um homem bondoso, gentil, que enviava caixas de livros sem nem mesmo pedir o pagamento prévio (e por vezes, nem mesmo pagamento), um verdadeiro anarquista, que tinha prazer em divulgar as ideias libertárias.

No Piauí, cuja política é caracterizada por um forte monopólio da mídia por parte de oligarquias empresariais, a criminalização de movimentos sociais, e um tradicionalismo beirando aos czares russos, o anarquismo insiste em romper o solo árido da transformação social, e encontra resposta positiva entre trabalhadores, estudantes e populares. Foi por meio de um grande número de livros editados por Robson Achiamé que vári@s companheir@s que hoje compõem o GEAPI adentraram nas lutas e na organização anarquista. Indiretamente, o GEAPI tem muito de Robson Achiamé, assim como tantos grupos de estudos, coletivos, associações, e tantas outras formas de anarquistas dividirem, partilharem e multiplicarem as lutas e os sonhos. 

Acreditamos que a vida e a obra de Achiamé jamais serão "repetidas", mas que sejam o espelho de novas experiências em edição de livros anarquistas no Brasil, assim como a dedicação, a amizade e o compromisso de Robson. 

O anarquismo em língua portuguesa com certeza perde em muito com a morte do companheiro, mas não cessará. Esta talvez seja a forma de agradecer todo o esforço e dedicação de Robson Achiamé Fernandes: Militando, organizando e lutando por um mundo novo, o mundo que carregamos em nossos corações. 

Que a terra lhe seja leve!

Para sempre, PRESENTE!



GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí
Biblioteca Libertária
Livraria Itinerante Anarquista

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Memória Proletária: À memória de Ferrer

Hoje se completa 105 anos do assassinato de Ferrer y Guardia pelo governo espanhol. O pai da Escola moderna e um dos principais representantes da pedagogia libertária ainda nos faz refletir e nos auxilia a construir o sonho de uma escola que trabalhe a autonomia e a coletividade de seus alunos, assim como o respeito mútuo, e principalmente, a construção de uma sociedade pautada na igualdade política, econômica e social. Ferrer y Guardia morreu, porém vive.
Divulgamos agora uma matéria  retirada do jornal "A Voz do Trabalhador", órgão de propaganda da Confederação Operária Brasileira, a COB, datado de 1909.
Aproveitamos o espaço e convidamos à tod@s para que participem do Colóquio Ferrer y Guardia Vive! - Reflexões sobre a pedagogia libertária, que será realizado no dia 22 de Outubro, no auditório da UESPI em Parnaíba.





O momento é ainda de protesto. O mundo inteiro protesta contra o bárbaro fuzilamento praticado na pessoa do grande mestre da nova ideia, o livre pensador Francisco Ferrer. 

Os sombrios fossos da Fortaleza de Monjuich recordem os tempos medievais, anteriores á queda da Bastilha. 

A descarga que fez tombar Ferrer repercutiu pelo universo inteiro, no intimo de cada peito, no seio de cada família, no meio de cada associação e no amago de cada país. 
Não ha homem de bom senso, ou livre pensador, que não sinta no intimo d’alma e dor pungentíssima que sufoca o puro sentimento, para só levantar um grito de revolta —porque todos pensamos livremente — porque podemos chegar a ser um Ferrer, um Gorki, um Gafoni, e os Stenka existem em todos os tempos. 

Os espíritos ferrenhos arraigados ao ortodoxismo do Sistema, no pessimismo conservador de tradições, entrincheirados no estulto baluarte da burocracia, arrogando-se os direitos de conquista, pretendem ainda a direção dos povos na trilha intolerável do mais absoluto despotismo, na mais concreta ignorância. 

Mas já passaram os tempos do obscurantismo, já lá se vão os tempos em que a venda era uma condição necessária á vida da humanidade.

Ferrer tombou, Ferrer deixou de existir, mas na matéria apenas; os Ferrer existem em todos os tempos e, cada Ferrer que tomba, e um passo de gigante dado no vasto campo dos nossos ideais. Cada Ferrer que tomba é uma pedra gigantesca atirada no alicerce do vasto edifício do Socialismo; cada Ferrer que tomba, é urna luz que se projeta altaneira, pairando por sobre a humanidade. Luz intensa que muitas centenas de lâmpadas voltaicas, em foco, jamais produziram luz de tão suaves reverberações. 

Lamentemos a morte de Ferrer, mas não nos deixemos empolgar pela dor estiolante das nossas mais santas e puras aspirações; pois que a morte de Ferrer, ao mesmo tempo que nos é uma grande falta, pois que Ferrer era um dos mais fortes esteios da nossa nobre causa, é ao mesmo tempo um grande bem, pois que a morte de um dos procetes da liberdade, em pleno campo de luta, é para nós uma vitória; o seu sangue fará germinar a ida, a luz que lhe alimentava o cérebro espalhar-se-á, comunicar-se-á as massas ávidas de saber e sedentas de luz, atestando assim a grandiosidade da ida e do cérebro que a gerou. 

Se morre um Ferrer entrega-se o corpo á terra, cujos vermes se encarregarão de consumir a matéria, mas não conseguiremos fazer com que a ida acompanhe a matéria na sua queda e decomposição; ainda que assim fosse: a ideia persistiria até chegar o tempo próprio para germinar, porque a ideia é luz e os vermes não comem luz, e como tal não conseguiriam consumi-la: assim a memoria de Francisco Ferrer conservar-se-á indelével no amago de nossos corações. Ferrer será para as gerações vindouras o que para nós tem sido os sábios e filósofos como Galileu, que descobriu o movimento da terra em torno do seu eixo; o Cristo, sublime filósofo da antiguidade, Platão, na sua escola, e Pitágoras, na sua teoria da alma, transcendente após uma correria de mais de três mil anos. Para depois formar o delicado maquinismo de que irradiam as mais suaves reverberações, grau supremo da organização dos seres – o homem.

Ferrer passará, pois, á posteridade como figura brilhante, destacando-se grandioso no escól sublime dos homens de talento, como o apanágio eterno de sua obra grandiosa. Levantemos, pois, um grito de revolta contra a morte daquele que só soube criar escolas.

Elevemos a voz proclamando bem alto a memoria daquele que só procurou instruir a infância – o criador da Escola Moderna – Francisco Ferrer.

Rio, 23 de Outubro de 1909.
A. Galileu.

Fonte: GALILEU, A. Á memória de Ferrer. A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro: Ano II - n° 20, 15 de Novembro de 1909.

Download do texto original <aqui>