terça-feira, 30 de setembro de 2014

Como votam os anarquistas?



Disponibilizamos um texto desenvolvido por um militante da Federação Anarquista Gaúcha, Evandro Couto, que consegue de forma simples explicar os motivos pelos quais os anarquistas não votam, o que definitivamente não significa abandonar a política, mas sim realizá-la em sua forma legítima.  


Quando em todo Brasil as eleições nacionais vem chegando e agitam de novo a cena da política somos provocados a escrever sobre este tema que, sem dúvidas, será um acontecimento de atração.

Para discutir aqui de um outro modo, para além da oferta de candidatos da campanha.

Os velhos socialistas já nos deixaram ferramentas de análise crítica, que tem vigência em muitos aspectos, a respeito de como opera o mecanismo eleitoral na conservação e reprodução das estruturas do poder.

A esquerda brasileira nos últimos 20 anos fez uma experiência política de obrigatória referência jogando suas forças nos pleitos, conquistando bancadas e administrando instituições da democracia formal.

Que as eleições, na escala que sejam feitas, nos dão uma medida relativa da formação das opiniões entre os eleitores, indicam tendências, conformação de interesses, valores e esperanças na sociedade, é bom ter presente.

Mas reconhecer indicadores não é o mesmo que validar os seus resultados para uma estratégia de mudança social. O voto não dá necessariamente uma medida da organização dos de baixo, da consciência política e capacidade de luta por objetivos de classe.

Muita energia da esquerda já virou fumaça na história por causa desse engano.

Votar para os anarquistas é um assunto mal explicado, por responsabilidade de uma linha de propaganda que fez a abstenção ou o voto nulo aparecer como uma questão de princípios.

Os anarquistas não formam um partido da democracia burguesa e respondem na conjuntura eleitoral pela tática do voto nulo ou da abstenção por uma atitude política que pretende guardar relações de coerência com uma estratégia de poder popular.

Chamar a anular sem fazer prioridade ao trabalho de organização popular é pedir o voto como fazem os partidos integrados no sistema. Não é o voto em si, como mecanismo decisório da sociedade, que é o problema, o problema é para qual estrutura de poder ele funciona.

As eleições burguesas não mudam a sociedade, trocam os políticos de turno, mas o poder continua o mesmo, operando nas desigualdades sociais e reproduzindo dominação de classe.

O problema fundamental da democracia no sistema capitalista, como foi criticada pela corrente libertária, é que a igualdade política do direito liberal burguês fica negada pela desigualdades sociais e econômicas da realidade. A democracia burguesa é um regime de direitos onde o poder e a riqueza das classes dominantes são sempre mais decisivos.

Qual é a liberdade de escolha de um sujeito que sofre a pressão concreta da pobreza e todas as privações econômicas e culturais desta condição, perguntava Bakunin.

O anarquista da velha guarda concluía que o voto, “enquanto seja exercido em uma sociedade em que o povo, a massa dos trabalhadores, esteja economicamente dominado por uma minoria detentora da propriedade e do capital, por independente que seja por outra parte ou que o pareça desde o ponto de vista político, não poderá nunca produzir mais que eleições ilusórias, antidemocráticas e absolutamente opostas as necessidades, aos instintos e a vontade real dos povos.”

O regime democrático nunca teve lugar seguro na carta de princípios do capitalismo. Na história recente da América Latina quando o poder esteve a ponto de escapar das mãos das classes dominantes e do imperialismo eles preferiram a ditadura dos militares para proteger seus interesses do que jogar sua sorte pelos direitos democráticos.

O cenário da abertura deu nova circulação para ideologia liberal burguesa e fez seus conceitos penetrarem nas lutas políticas da esquerda. As liberdades públicas peleadas contra a ditadura se confundiram no programa dos partidos de base operária e popular com a defesa da democracia burguesa e das suas regras como único terreno para buscar mudanças na política.

Começa uma história que bem conhecemos no Brasil e em países vizinhos.

Evandro Couto, militante da FAG.

fonte:
http://www.vermelhoenegro.co.cc/2010/03/como-votam-os-anarquistas.html

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

[Fortaleza] Anarquismo, Luta Social e Gênero: A saída à esquerda é nas ruas!




O Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí foi convidado a participar de um debate juntamente com outr@s organizações do Nordeste, que será realizado em Fortaleza-CE. Segue abaixo a chamada do evento:

O objetivo desse primeiro Seminário é o compartilhamento de experiências regionais objetivando a construção de possibilidades combativas de atuação social. É socializar os conhecimentos e práticas de atuação social, linkando atividades práticas de Organização Popular e de fortalecimento dos Movimentos Sociais dentro de um projeto Socialista e Libertário.

Programação:

Sábado 27/09/2014 - Recepção Cultural, às 19h. Local: Sede do Aparecidxs Politicos (Rua Instituto do Ceará, 164, Benfica)

Domingo 28/09/2014 - Seminário

Manhã (08h às 10h): Movimentos Sociais e Perifeira (Facilitação: Movimento Social FOME - Sobral/CE e Organização Resistência Libertária - RMFortaleza/CE)

Manhã (10h às 12h): Gênero e Anarquismo (Facilitação: Organização Resistência Libertária - RMFortaleza/CE)

Tarde (14h às 17h): A Outra Campanha: trocas de experiências entre os presentes.

Organização: Movimento Social FOME, Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí (GEAPI) e Organização Resistência Libertária (ORL-CAB)

O evento no facebook pode ser visualizado através do seguinte link

ANARQUISMO É LUTA!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Memória proletária: "A eterna comédia"



Disponibilizamos agora mais uma matéria publicada no jornal da Confederação Operária Brasileira, a COB, primeira central sindical do país e ligada à Associação Internacional dos trabalhadores. O Texto trata de um assunto pertinente e que se mantém atual até o presente: Eleições. Os trabalhadores apontam as contradições deste sistema e as consequências práticas que o voto implica ao povo. O texto para esta publicação sofreu alterações na escrita, obedecendo as novas regras ortográficas da língua portuguesa, objetivando facilitar a leitura; apesar disso, o texto original será disponibilizado para download no fim do post. 

NÃO VOTE, LUTE!

A ETERNA COMÉDIA

Assistimos há dias ao desenrolar da mais repugnante e grosseira comédia representada pelos políticos profissionais do Brasil.

E no meio de toda essa bandalheira só ressalta uma coisa, bem lamentável, por certo: Dum lado, a desonestidade, a falta de caráter e de ideais que caracterizam todos os políticos, e daí a covardia dominando tudo, impedindo que as opiniões sejam manifestadas, a ambição abafando a sinceridade, o triunfo mais completo, enfim, da banalidade, da fraude, do canalhismo e da mais odiosa caudilhagem. 

Do outro, um povo indiferente, apático, esmagado pelo formidável peso dos preconceitos religiosos e pela falta de educação, extenuado por um trabalho rude e prolongado e pela falta de alimentação e 
habitações higiênicas, servindo de joguete dos mais torpes ambiciosos, deixando fazer, assistindo impassível, como se nada tivesse com isso, à distribuição que, no meio de nauseantes disputas e de lutas odiosas, fazem salteadores que dominam a situação de tudo quanto ele produz á custa duma vida miserável e indigna.

E assiste a tudo isso como se tratasse dum espetáculo divertido, como se não estivessem em jogo os seus interesses e a sua dignidade...

*

A quem culpar por este estado de coisas? Por muitas voltas que demos ao assunto sempre chegamos à mesma conclusão. O mal está na organização da atual sociedade, como todos os sociólogos sinceros vem mostrando-nos há tempo.

O açambarcamento da propriedade por uma minoria e as consequências que a sua manutenção acarretam, levaram-nos a essa situação. Só uma transformação na sociedade poderá resolver o problema.

Todas as reformas propostas pelos políticos fracassarão fatalmente. O povo não poderá levantar-se enquanto não sacudir o jugo dos monstros que o esmagam: Estado, Militarismo, Religião, Capitalismo. Propor paliativos sem fechar para sempre essas bocas imensas que tudo devoram, será obra inútil e perniciosa.

Pensam nisso os políticos profissionais e os reformadores burgueses? Não.

Então o dever das pessoas sinceras e de boa fé é abandona-los, negar-lhes em absoluto o seu apoio e iniciar uma intensa obra de educação popular capaz de criar não ambiciosos e arrivistas, mas homens dispostos a investigar o mal e ataca-lo nas suas raízes. Uma obra capaz de levantar o espirito decaído da parte sã do proletariado, mas que o afaste do charco parlamentar.

Não nos cansaremos de repetir ao proletariado militante: que se interesse pela situação politica, que tome parte na luta, mas em beneficio próprio; que aproveite a ocasião para orientar o povo, preparando assim o epilogo da farsa, que fatalmente terminará em tragédia...

MANUEL MOSCOSO.


Fonte: MOSCOSO, Manuel. A eterna comédia. A Voz do Trabalhador, Ano I, n° 12. 1° de Junho de 1909, p. 01.

Download do texto original > aqui <

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

[Teresina]: Roda de diálogo - Cantos e contos da História: Nestor Makhno




Dia 19 de setembro, às 14 horas, no prédio da Fundação Nacional do Humor, (que se localiza na Praça dos Skatistas, em Teresina), o Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí, juntamente com o Movimento Punk, começam o projeto Roda de Diálogos.

Esta construção de socialização de saberes, será um espaço para compartilhamento de leituras, estudos, percepções sobre a cultura libertária, pessoas e momentos que contribuíram e contribuem para a propagação dos ideários anarquistas e libertários.

Neste primeiro momento, falaremos sobre a biografia de Nestor Makhno. Vamos que voamos?

Link do evento: http://migre.me/lJxPn


ANARQUISMO É LUTA!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

"A Politica"


 


A descrença com as eleições não é recente. Em Parnaíba, por exemplo, é possível perceber que esta realidade era vivenciada durante a República Velha. Em um jornal operário chamado "O Artista", os trabalhadores da cidade litorânea piauiense desdenham deste mecanismo de controle social através do artigo "A Politica", lançado na primeira edição deste, datado de 15 de Agosto de 1919: 

Eis aqui um interessante questionário:
- Que é a politica?
- É a sciencia que ensina a viver do orçamento.
- Que é orçamento?
- É a panella nacional onde todos desejam metter a colher.
- Como se divide a politica?
- divide-se em partidos.
- Pode dizer-me quantos partidos há?
- Dois, o dos que estão em cima e o dos que estão em baixo.
- Costumam inverter-se estas funcções politicas?
- Sim, senhor, por meio de uma revolução.
- E então, o que succede?
- Succede que aquelles que esmagaram, gritam, e os que gritaram, esmagam.
- Obtem-se, por meio dessa inversão, algum beneficio politico?
- Não, senhor, porque a ordem dos factores não altera o producto.


É válido ressaltar que a mesma matéria foi publicada novamente em 24 de Junho de 1933, desta vez no jornal anarquista "A Plebe", fundado por Edgard Leuenroth em São Paulo, e disponível no livro ABC do Sindicalismo Revolucionário, de Edgar Rodrigues (p.71).

Hoje em 2014, apesar das diversas modificações sociais que sofremos ao longo de décadas, a descrença com a política institucionalizada só aumenta. Em Junho do ano passado, esta descrença foi às ruas, ergueu barricadas, e percebeu que a modificação da realidade não se dá elegendo candidatos. Os sonhos e as reivindicações não cabem nas urnas. É preciso buscar outras formas de ação política, fora dos tramites da velha burocracia partidária de disputa do Estado. 

Os políticos, governantes e empresários, a todo tempo querem que acreditemos que "nossa maior arma é o voto", o que não passa de uma grande mentira, e que não é sequer uma "arma". Escolher entre cinza claro ou cinza escuro não parece uma boa forma de mudar. É preciso encontrar outros tons e outras cores na política, que se faz não em palanques, mas sim no dia-a-dia, organizando e fortalecendo assembleias de bairro, conselhos populares, grêmios estudantis, centros e diretórios acadêmicos, sindicatos, e desenvolvendo formas de propagar as ideias de justiça, igualdade e liberdade. 

Se votar mudasse algo, seria proibido.
Não vote, organize-se e lute!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

[TERESINA] III Simpósio “Histórico das Ideias e do Movimento Anarquista" - Uma introdução


Desde junho de 2013 que uma corrente política voltou a ser duramente criticada pelas mídias, partidos de “esquerda” e direita, governantes, empresários e militares: O Anarquismo. O que muitos ainda desconhecem, é que o anarquismo, fruto do embate da luta de classes no velho continente passa bem longe de significar “desordem”, “caos”, “terrorismo”, e tantos outros nomes pejorativos; É uma corrente do pensamento socialista, que carrega em si uma infinidade de conceitos, ideias, e propostas. 

Diante da problemática da confusão gerada pelos ataques das classes dominantes contra os anarquistas, o GEAPI vem desenvolvendo desde a sua criação inúmeros eventos que tem por objetivo a propagação do anarquismo no Piauí.

Desta forma, anunciamos nossa próxima atividade em Teresina será: III Simpósio “Histórico das ideias e do movimento anarquista, uma introdução”. O evento será no dia 29 de Agosto de 2014, e será realizado na UESPI, Campus Torquato Neto, na sala de vídeo do CCHL, com entrada gratuita. Segue a programação:

14:30h – Roda de diálogos: Uma introdução ao anarquismo;
17:00h – Espaço de socialização de saberes;
18:00h – Cine anarquista: Da Servidão Moderna;
19:00h – Discussão acerca do filme.


Convidamos cordialmente a tod@s que possam se interessar. 

ANARQUISMO É LUTA!


Link do evento no Facebook aqui

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mikhail Bakunin - Filosofia da História



Coincidindo com a data aclamada como o "dia do Historiador", disponibilizamos a tradução de parte do livro Escritos de filosofía politica - Vol I, uma compilação de textos de Mikhail Bakunin realizada por G. P. Maximoff. O Capítulo chama-se "Filosofia da História", e acreditamos que não servirá somente axs historiadorxs, mas para tod@s militantes anarquistas. O texto será disponibilizado na íntegra, assim como em formado pdf, e para realizar o download, clique aqui. O texto já se encontra disponível também em nossa biblioteca virtual.


FILOSOFIA DA HISTÓRIA
MIKHAIL BAKUNIN


A luta pela existência na História humana*. Quem estudou sequer um pouco da História não pode deixar de observar que sempre existiu algum interesse material destacado, subjacente a todas as lutas religiosas e teológicas, por mais abstratas, sublimes e ideais que possam ter sido. Todas as guerras raciais, estatais, nacionais e classistas tem só um objetivo: O domínio, que é a condição necessária e garantia para a possessão e o desfrute da riqueza. Considerada desse ponto de vista, a História humana é simplesmente a continuação da grande luta pela vida que, segundo Darwin, constitui a lei básica do mundo orgânico. 

A luta pela existência é uma lei universal. Considerando assim, o mundo natural nos apresenta um quadro mortífero e sangrento de uma luta selvagem e perpétua, uma luta pela vida. O homem não é o único que sofre esta luta: Todos os animais, todos os seres viventes, todas as coisas existentes, levam dentro de si os gérmens de sua própria destruição, e são por assim dizer seus próprios inimigos, ainda que de modo menos visível que o homem. A mesma inevitabilidade natural os engendra, os preserva e os destrói. Toda planta e espécie animal só vive à custas das outras; uma devora a outra, e o mundo natural pode assim conceber-se como uma hecatombe sangrenta, uma triste tragédia provocada pela fome. O mundo natural é uma arena de uma inacabável luta que não conhece misericórdia nem trégua… É possível que exista também esta lei inevitável no mundo humano e social?

As guerras têm uma motivação primordialmente econômica. Encontramos o canibalismo no berço da civilização humana, e junto a ele, e também posteriormente, descobrimos guerras de extermínios, guerras entre raças e nações; guerras de conquista, guerras para manter o equilíbrio, guerras políticas e religiosas, guerras empreendidas em nome de “grandes ideias”, como a atual da França com seu Imperador, guerras patrióticas para conseguir uma maior unidade nacional, como as contempladas hoje pelo Ministro pangermânico e pelo Czar pan-eslavo de São Petersburgo.
E o que chamamos diante de tudo isso, sob todas as frases hipócritas utilizadas para proporcionar estas guerras os aspecto da humanidade e o direito? Encontramos sempre o mesmo fenômeno econômico: A tendencia de alguns viverem e prosperarem a custa dos outros. Todo o resto é mera tagarelice. Os ignorantes, os ingênuos e os estúpidos se vêem enganados por ela, mas sim os homens fortes que dirigem os destinos do Estado sabem perfeitamente que sob todas as guerras existe só um motivo: A pilhagem; apoderar-se da riqueza de outro e escravizar seu trabalho. O idealismo político não resulta menos pernicioso e absurdo, menos hipócrita que o idealismo de uma religião, pois não é senão uma manifestação diferente dela e, concretamente, sua aplicação mundana e terrena. 

Fases do desenvolvimento histórico. Os homens, que são antes de tudo animais carnívoros, começaram sua história com o canibalismo. Atualmente aspiram uma associação Universal, a uma produção coletiva e um consumo coletivo da riqueza.
Mas entre esses pontos extremos, que horrível e sangrenta tragédia! E todavia não saímos dela. Antes do canibalismo vinha a escravidão, depois a servidão, depois a servidão assalariada, que se verá seguida pelo terrível dia do justo castigo, e mais tarde, muito mais tarde, pela era da fraternidade. Estas são as fases que deve atravessar a luta animal pela vida em sua transformação gradual durante o desenvolvimento histórico, até terminar em uma organização humana da vida. 
Fica bem estabelecido que a história humana, como a história de todas as demais espécies animais, começou com a guerra. Esta guerra, carente de meta, salvo conquistar os meios de existência, teve diversas fases de desenvolvimento paralelamente às diversas fases da civilização, isto é, ao desenvolvimento das necessidades humanas e os meios para satisfazê-las.

A invenção das ferramentas marca a primeira fase da civilização. No começo o homem, que era um animal onívoro, subsistia com muitos outros animais a base de frutos e plantas, da caça e da pesca. Durante muitos séculos, o homem caçou e pescou, como seguem fazendo as bestas, sem ajuda de meio algum, salvo os recebidos da Natureza. A primeira vez fez uso das armas mais grosseiras, um simples pau ou uma pedra, com ela realizou um ato de pensamento e se afirmou, indubitavelmente, como um animal pensante, como um homem. Porque mesmo a arma mais primitiva tinha que se adaptar a meta projetada, e isto supõe certa medida de cálculo mental, que distingue essencialmente ao animal homem de todos os outros animais. Devido a esta faculdade de refletir, pensar e inventar, o homem aperfeiçoou suas armas, muito lentamente, ao longo de muitos séculos, e assim se transformou em um caçador ou em uma besta feroz armada.
A multiplicação das espécies animais está sempre em proporção direta aos meios de subsistência. Ao chegar ao primeiro estágio da civilização, os pequenos grupos humanos descobriram que, em comparação com os outros animais que não possuíam instrumentos para caçar ou fazer guerra, lhes era muito mais fácil obter o alimento matando seres viventes (entre eles homens, utilizados também como alimento) e posto que a multiplicação das espécies animais está sempre em proporção aos meios de subsistência, é evidente que os homens estavam destinados a multiplicar-se mais rapidamente que os animais de outras espécies, e que acabaria chegando um momento em que a Natureza inculta seria incapaz de sustentar sucessivamente todas as pessoas.

A pecuária como fase seguinte de organização. Se a razão humana não fosse progressiva; se não desenvolvesse progressivamente descansando, por uma parte, sobre a tradição que vá em benefício de gerações futuras, todo o conhecimento adquirido pelas passadas e por outro lado, ampliando seu horizonte como resultado do poder da palavra, inseparável da faculdade do pensamento; se não estivesse dotada com a faculdade ilimitada de inventar novos processos, para defender a existência humana contra todas as forças naturais hostis, esta insuficiência seria prontamente forçosamente uma barreira a espécie humana.
Mas devido a esta faculdade preciosa de pensar e compreender, o homem pode superar este limite natural que freia o desenvolvimento de todos os animais. Aproveitaram a superioridade de sua força física para matar para seu consumo ou submeter e domar algumas bestas para servir como meios dentro de seus fins. Deste modo, os grupos caçadores se transformaram em grupos de criadores há muitos séculos atrás.

A pecuária deslocada pela agricultura.  Esta nova fonte de subsistência ajudou a incrementar ainda mais a espécie humana, coisa que por sua parte estabeleceu a humanidade a necessidade de inventar toda via de novos meios de subsistência. A exploração dos animais já não era suficiente, e por isso os homens começaram a cultivar a terra. Os povos nômades e criadores se transformaram depois de muitos séculos, povos agrícolas. Foi neste momento da História quando apareceu a escravidão no sentido estrito do termo. Os homens, que inicialmente eram selvagens no pleno sentido da palavra, começaram devorando seus inimigos mortos ou feitos prisioneiros. Mas quando compreenderam as vantagens obtidas fazendo uso dos animais em vez de mata-los, se deram conta igualmente de que as vantagens aumentavam se se fazia o mesmo uso do homem, o mais inteligente de todos os animais. Com isso, o inimigo derrotado já não era devorado, e sim convertido em um escravo, forçado a trabalhar para manter o seu proprietário.

A escravidão aparece na fase agrícola da civilização. O trabalho dos povos pastoris é tão simples e fácil que apenas requer o emprego de escravos. Por isso vemos que nas tribos nômades e pecuaristas, o número de escravos, se existirem, é bastante limitado. A situação é diferente nos povos agrícolas e sedentários. A agricultura exige um trabalho assíduo, penoso e cotidiano, e o homem livre dos bosques e pradarias, o caçador e o pecuarista, só se dedicam a agricultura com muita repugnância. Este é o motivo como vemos agora, por exemplo, nos povos selvagens americanos de que pusessem sob os ombros das mulheres as tarefas mais pesadas e o trabalho doméstico mais desagradável. Os homens não se ocupavam em nada além da caça e a guerra, que até em nosso tempo, seguem sendo as vocações mais nobres; desprezando todos os demais trabalhos, esses selvagens fumavam prazerosamente seus cachimbos enquanto suas infelizes mulheres, escravas naturais desses bárbaros, sucumbiam ante o sepulcro dos afazeres cotidianos.
Mas a civilização dá um passo mais adiante, e o escravo assume as tarefas da mulher. Besta de carga e dotado de inteligência, forçado a suportar todo o peso do trabalho físico, o escravo cria ócio para a classe dominante, e faz possível o desenvolvimento intelectual e moral do seu senhor.

As metas da história humana. Havendo começado com uma existência animal, a espécie humana tem forma decidida após a realização da humanidade sobre a terra... A história nos traça esta vasta e sacra tarefa de transformar os milhões de escravos assalariados em uma sociedade humana e livre baseada na igualdade de direitos para todos.

Os três elementos constitutivos da história humana. O homem se emancipou mediante seus próprios esforços, se separou da animalidade e se constituiu como homem, começou sua história específica e desenvolvimento humano mediante um ato de desobediência e conhecimento, isto é, mediante a rebelião e o pensamento.
Há três elementos ou princípios fundamentais que constituem as condições básicas de todo o desenvolvimento histórico humano, coletivo e individual: 1) A animalidade humana. 2) O pensamento; 3) a rebelião. O primeiro corresponde à economia social e privada, o segundo corresponde à ciência, e o terceiro, a liberdade.

O que se entende por elementos históricos. Por elementos históricos entendo as condições gerais de qualquer desenvolvimento real; por exemplo, neste caso, a conquista do mundo pelos romanos e o encontro do Deus dos judeus com o ideal divino dos gregos. Para que estes elementos históricos estivessem maduros, e sofressem uma série de novas transformações históricas, era necessário um fato vivente espontâneo, sem o qual não poderiam permanecer muitos séculos mais em um estado de elemento improdutivo. Mas este fato não faltava no cristianismo; foi a propaganda, o martírio e a morte de Jesus Cristo.

A história é a negação revolucionária do passado. Mas desde o momento em que se aceita esta origem animal do homem, tudo se explica. A história aparece então como a negação revolucionária do passado, algumas vezes apática e indolente, e outras apaixonada e poderosa. Consiste precisamente na progressiva negação da animalidade primitiva do homem mediante ao desenvolvimento de sua humanidade. Apesar de ser o homem uma besta selvagem, superior ao gorila, demorou emergir da profunda obscuridade do instinto animal até a luz da mente; isto explica de um modo inteiramente natural todos seus erros passados, e os consola em parte dos seus erros presentes. 

A dialética do material e o idealismo. Todo desenvolvimento implica a negação de seu ponto de partida. Posto que a base ou ponto de partida é a matéria, segundo a escola materialista, a negação deve ser necessariamente o real. Começando pela totalidade do mundo real, ou pelo que se denomina abstratamente matéria, chega logicamente à idealização real, isto é, a humanização, a plena e completa emancipação da sociedade. Ao contrário, e pela mesma razão, ao ser ideal a base e o ponto de partida da escola idealista, chega necessariamente à materialização da sociedade, a organização de um brutal despotismo e de uma exploração iníqua e ignóbil, sob a forma da igreja e do Estado. O desenvolvimento histórico do homem, segundo a escola materialista, é uma progressiva ascensão; no sistema idealista, só pode ser uma contínua queda.
Seja qual for a questão considerada, encontraremos sempre a mesma contradição essencial entre ambas escolas. O materialismo começa na animalidade para estabelecer a humanidade; o idealismo começa com a divindade para estabelecer a escravidão e condenar as massas à uma animalidade perpétua. O materialismo nega o livre arbítrio e termina estabelecendo a liberdade; o idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o livre arbítrio, e sobre as ruínas de toda a liberdade, funda a autoridade porque o considera, com razão, um corolário da animalidade, e porque o objeto do significado principal da História, o triunfo da humanidade, só pode realizar-se através da liberdade. Em uma palavra, seja qual for a questão estabelecida, sempre encontraremos os idealistas submetidos ao materialismo prático; e sempre veremos os materialistas perseguindo e realizando as aspirações mais grandiosas, ideais.

O conceito idealista da matéria. No sistema dos idealistas, a História só pode ser uma contínua queda. Começam com uma terrível queda que jamais poderão se recuperar, um salto mortal das sublimes regiões da ideia pura e absoluta até a matéria. Não se trata de uma matéria eternamente ativa e móvel, cheia de propriedades e forças, de vida e inteligência, como vemos no mundo real, senão uma matéria abstrata, empobrecida e reduzida ao absoluto graças o roubo regular desses prussianos do pensamento, que são os teólogos e os metafísicos, que despojaram de tudo para se dar ao seu imperador, seu Deus; privada de toda ação e movimento próprio, esta matéria não representa frente a ideia divina mais que a absoluta estupidez; impenetrabilidade, inércia e imobilidade.

Valores humanistas na história. A ciência sabe que o respeito ao homem é a lei suprema da humanidade, e que a verdadeira e grande meta da História, seu único objetivo legítimo, é a humanização e emancipação, a liberdade real, a prosperidade e a felicidade de cada indivíduo que vive em sociedade. Porque em ultima análise, se não queremos voltar a cair na escravizadora ficção do bem comum representada pelo Estado, ficção fundada sempre sobre o sacrifício sistemático das grandes massas populares, temos de reconhecer claramente que a liberdade e a prosperidade coletiva só existem enquanto represente a soma das liberdades e prosperidades individuais.
O homem emergiu da escravidão animal, e passou pela escravidão divina, período transitório entre sua animalidade e sua humanidade; anda agora a caminho de conquistar e realizar a liberdade humana. Do qual se deduz que a antiguidade de uma crença ou uma ideia, em vez de demonstrar algo a seu favor, deve pelo contrário fazê-la suspeita, pois por detrás de nós está nossa animalidade, e ante a nós, nossa humanidade, e a luz da humanidade, a única luz que pode nos aquecer e iluminar-nos, a única coisa capaz de nos emancipar, de nos proporcionar dignidade, liberdade e felicidade, capaz de nos fazer consumar dentro de nós mesmos a fraternidade, nunca se encontra no começo, mas senão ao fim da História. Não olhemos para trás, olhemos sempre até adiante, porque adiante está nosso Sol e nossa salvação. Se é admissível, e até útil e necessário voltar até atrás para estudar o passado, é unicamente afim de estabelecer o que fomos e já não seremos, o que críamos e pensamos no passado, mas já não creremos nem pensaremos, o que fizemos e o que não faremos nunca mais.

O curso irregular do progresso humano. Ainda que um povo não tenha caído em um estado de decadência, sempre existe progresso nesta saudável tradição, único mestre das massas. Mas não podemos dizer que este progresso é idêntico em todas as épocas históricas de um povo. Pelo contrário, procede mediante ações e retrocessos. Às vezes muito rápido, muito sensível e muito amplo de alcance; outras vezes se faz lenta ou se detém, e incluindo em outras ocasiões, parece retroceder. Quais são os fatores determinantes de todos eles?
Isto depende evidentemente do caráter dos acontecimentos de uma época histórica dada. Há acontecimentos que eletrizam as pessoas e as lançam até adiante; outros acontecimentos tem um efeito tão deplorável, humilhante e depressivo sobre a mentalidade do povo que em geral os esmagam, os extraviam ou as vezes os pervertem por completo. Em geral, é possível observar dentro do desenvolvimento histórico do povo dois movimentos inversos que me permitirei comparar com o fluxo e refluxo das marés oceânicas.

A humanidade só tem sentido à luz de seus impulsos humanistas básicos. Em certas épocas, que no geral são precursoras de grandes acontecimentos históricos e grandes triunfos da humanidade, tudo parece andar em um ritmo acelerado, tudo exala vigor e força; mentes, corações e vontades parecem atuar em uníssono quando se lançam à conquista de novos horizontes. Parece então que se inicia uma corrente elétrica ao longo de toda a sociedade que une os indivíduos mais afastados dentro de um sentimento comum, que congrega as mentes mais diversas de um pensamento singular e imprime em todos a mesma vontade.
Nesse tempo, todos estão cheios de confiança e valor, porque todos se sentem arrastados pelo sentimento geral. Sem nos afastarmos da história moderna, podemos indicar o final do século XVIII, véspera da Grande Revolução (Francesa), como uma dessas épocas. Tal foi também ainda que em um grau consideravelmente inferior, o caráter dos anos que precederam a Revolução de 1848. E, por último, tal é, segundo creio, o caráter de nossa própria época, que parece pressagiar acontecimentos capazes quiçá de transcender aos de 1789 e 1793. Não é certo que, tudo o quanto vemos e sentimos nessas épocas grandiosas e fortes pode se comparar as marés primaverais do oceano?

O refluxo criativo das grandes marés criativas da história humana. Mas há outras épocas obscuras, desalentadoras e trágicas, onde tudo respira decadência, abatimento e morte, que apresentam um verdadeiro eclipse da mente pública e privada. São as marés de refluxo que segue sempre as grandes catástrofes históricas. Tal foi a época do Primeiro Império e da Restauração. Assim foram os dezenove ou vinte anos seguintes da catástrofe de Junho de 1848. Tal será, em uma medida todavia mais terrível, o período de vinte e ou trinta anos que seguirá a conquista da França pelos exércitos do despotismo prussiano se os trabalhadores e o povo da França forem bastante covardes para entregar seu país.

A História é o desdobramento gradual da humanidade. Podemos conceber com claridade o desenvolvimento gradual do mundo material, assim como da vida orgânica e o da inteligencia historicamente progressiva do homem considerado individual e socialmente. É um movimento completamente natural, desde o simples ao complexo, desde os mais baixos aos mais altos, desde o inferior ao superior, assim, um movimento que concorde com todas nossas experiências cotidianas e concorde também, em consequência, com nossa lógica natural e as leis precisas de nossa mente, que ao se formar e se desenvolver com a ajuda dessas mesmas experiências, são, por assim dizer, só uma reprodução mental, cerebral, ou sua recapitulação no pensamento.